Por Maurício Max
O conhecimento ancestral da culinária amazônica de um povo que vive há mais de um século na comunidade da Vila da Barca é colocado em prática em um episódio histórico para os mais de cinco mil moradores do território localizado em Belém, no estado do Pará, palco da COP30.
Conhecida pelas casas de palafita, estruturas sobre estacas de madeira nos rios às margens da Baía do Guajará, no bairro Telégrafo, a comunidade suspira com o projeto Roteiro Cozinha Periférica, iniciativa comandada por mulheres, mesmo em meio à situação de vulnerabilidade que atinge a maioria da população dessa localidade.
A missão dessas mulheres é atender um seleto grupo das embaixadas da Suíça e do Reino Unido, além de outras comitivas de participantes de vários países na Conferência Mundial do Clima durante as duas semanas do evento, cujo calendário se encerra no dia 21 de novembro. “Graças a um censo feito pelas próprias lideranças na comunidade, a Embaixada da Suíça entrou em contato com a gente nos convidando para ser responsável pela alimentação em todos os eventos do país. Logo depois, a do Reino Unido também fez contato e a gente tá nesse desafio de construir um futuro”, destaca, entusiasmada, a coordenadora do projeto, Suany Barreirinha.
As delícias preparadas pelas cozinheiras são da rica culinária paraense. “Elas preparam com muito carinho a casquinha de caranguejo, o arroz paraense, a tapioca, o cuscuz, além da nossa tradicional maniçoba”, comenta Suany. Em uma cozinha instalada na beira da Baía do Guajará, diferente das convencionais de grandes redes de restaurantes, as protagonistas manuseiam com carinho e afeto cada ingrediente que vai compor os pratos encomendados. “A nossa base ancestral é amazônica indígena. A cultura alimentar dessas mulheres é o que elas carregam de sua história. A comida não é só alimentar, ela também é uma forma de repassar os ensinamentos de geração para geração, através do contato que elas tiveram com as mães e avós. E isso, elas colocam todos os dias, no preparo dessas refeições”, comenta a liderança comunitária e coordenadora do Cozinha Periférica, Inêz Medeiros.

Foto: Joice Bento
Inêz é inteiramente ligada ao nascimento do projeto. Em 2020, durante a pandemia, nasceu a iniciativa da cozinha solidária para atender pessoas em situação de vulnerabilidade na comunidade. No mesmo ano, um censo feito pela própria associação de moradores da região, unidade coordenada por Inêz, identificou a necessidade de empregabilidade para mães solo. “Surgiu a ideia de qualificar as mães, já que elas têm esse conhecimento. O grupo passou por etapas de aprimoramento de técnicas de vendas e marketing”, relembra.
Suany Barreirinha também fez parte do desenvolvimento do projeto e relata que as raízes da comunidade estão totalmente relacionadas ao cenário da Vila da Barca. “Aqui temos muitos ‘taifeiros’ (ajudantes de cozinha marítimos) e isso faz parte de toda a construção do território, que é formado por ribeirinhos. Eles sabem construir casas sobre os rios e também barcos e, por consequência, também fazem comida para embarcações”, acrescenta a coordenadora.
Pelo menos 30 pessoas estão envolvidas nos trabalhos entre cozinha e apoio logístico; a maioria mulheres. Todos os itens usados são adquiridos da agricultura familiar e do comércio local, o que gera um impacto social direto na comunidade. “A única alternativa de trabalho para as mulheres nesse período de COP seria a de vagas em serviços gerais, mas o projeto traz um movimento contrário, que dá um retorno financeiro de sustentação da base familiar delas e reforça os conhecimentos que elas possuem”, enfatiza Inêz Medeiros.

O futuro do Roteiro Cozinha Periférica já está no presente, dando frutos e fortalecendo o território. Após a COP30, o projeto pode se tornar uma cooperativa, mas isso ainda é pensado cuidadosamente pelos organizadores.
