Por Mariana de Paula
Dia desses, assisti a Rustin, filme sobre Bayard Rustin, homem negro, gay, ativista e um dos organizadores da Marcha sobre Washington por Empregos e Liberdade, em 1963, palco do histórico discurso “Eu Tenho um Sonho”, de Martin Luther King Jr. Ver esse filme neste período eleitoral trouxe um olhar mais político pra coisa toda; me lembrou que transformações não acontecem da noite para o dia, exigem paciência e memória dos caminhos de nossas mais velhas e nossos mais velhos. Rustin revela a força de quem mobiliza pessoas, constrói alianças e insiste em mudar estruturas que parecem imutáveis – há muitos de nós que fazem isso aqui no Brasil.
O contexto democrático atual é desafiador. As análises são muitas, correndo como rios de diferentes nascentes, carregando inquietações, contradições e esperanças. Nem sempre seguem o mesmo curso, mas talvez seja dessa confluência que possa nascer um oceano de possibilidades para o futuro que queremos construir.
Em qualquer dos caminhos, o pano de fundo é o mesmo: um país que ainda convive com as consequências de sua história escravocrata, com profundas desigualdades e com ameaças recorrentes às instituições democráticas. Em meio à polarização, relembramos direitos que chamamos de básicos, mas que a conquista e manutenção não têm nada de simples. Dizem que brasileiro tem memória curta. Mas muitos de nós não só lembram, como ainda vivem as dificuldades.
O momento exigiu que a defesa da democracia ganhasse contornos amplos o suficiente para colocar mais gente nessa conversa. E vieram as contradições, que por um lado, também são motores de reorganização. Ampliar a conversa exige reconhecer que nem todos chegam nela nas mesmas condições, nem com a mesma possibilidade de influenciar seus rumos. Enquanto campanhas disputam narrativas nacionais, a vida cotidiana convive com enchentes, com o calor extremo, com saneamento precário, insegurança, bolso curto, falta de comida na mesa e dificuldades de mobilidade urbana e moradia. Problemas que não surgiram por acaso, mas refletem escolhas históricas sobre onde investir, o que priorizar e quem proteger. Quem tem participado das decisões que deveriam enfrentá-los?
Como mulher negra, sei bem que conquistar um direito não significa vê-lo chegar no dia a dia. Das cotas nas universidades aos direitos das trabalhadoras domésticas, nossa história é atravessada por lutas que ampliaram a democracia. Mas há uma distância entre o que a lei reconhece e o que a vida experimenta. Tenho encontrado essa contradição no trabalho de mobilização e produção de dados em favelas e periferias junto ao Instituto Decodifica. Por exemplo, uma enchente não significa apenas água entrando em casa; significa perder móveis, interromper o trabalho, comprometer a renda e, quase sempre, conviver com a insegurança de que tudo já já vai acontecer de novo. Essas consequências precisam orientar as decisões públicas. Há um longo caminho a percorrer, mas quero cobrar de quem governa a capacidade de ouvir e reconhecer os problemas, sem negar a relação entre aquecimento global e emissões humanas, nem tratar o saneamento como resposta suficiente à crise climática.
Daqui pra frente, o chamado é para não encerrar a conversa quando a gente aperta o verde e confirma o voto na urna. É preciso trazer a democracia para a prática, para o palpável, para o sensível, como um arrepio na pele. Ela deve se materializar na possibilidade de influenciar decisões, disputar prioridades e construir as políticas que organizam nossas vidas.
Houve um esforço persistente para nos deixar de fora: “Política é muito chato, não é para você”. Favelas e periferias foram tratadas como objetos de estudo, sobre os quais outros produzem diagnósticos e soluções, sem perguntar para quem realmente conhece como a banda toca. Como nos lembra Sueli Carneiro, o racismo também se manifesta na desqualificação dos saberes produzidos por pessoas negras. Quem tem seu conhecimento desconsiderado dificilmente participa das decisões sobre o próprio futuro, mas o voto nos dá a chance de fazer diferente. Em tempos de desinformação, democratizar a produção do conhecimento também é defender a democracia.
Ao final, Rustin me lembrou que não há democracia sem organização coletiva, nem sem enfrentar exclusões nos espaços que dizem defendê-la. Precisamos assumir, juntas e juntos, a responsabilidade pelo que acontece depois das urnas, a partir de 26 de outubro: uma democracia que chegue às periferias, reconheça seus conhecimentos e permita que suas lideranças influenciem os rumos do país.
A gente se vê logo ali. Afinal, é na luta que a gente se encontra — e ela ainda está aqui.
Mariana de Paula é engenheira de produção pela UNIRIO e cofundadora e diretora executiva do Instituto Decodifica. Acredita na força da organização coletiva e na produção de conhecimento como caminhos para transformar realidades e ampliar a participação política. É a partir dessa perspectiva que atua com geração cidadã de dados, comunicação e incidência política, conectando os saberes e as experiências das favelas e periferias aos espaços de decisão. É também cofundadora da coalizão O Clima é de Mudança, fellow da BMW Foundation e da Columbia Women’s Leadership Network, conselheira da Cidade do Rio e da CTRL+Z, além de integrar o Comitê de Equidade Racial da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro.
