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OPINIÃO – Projetos sociais salvam vidas: a potência que nasce dentro das favelas

Foto: Vilma Ribeiro / Voz das Comunidades
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Por Juliana Henrik

Quem olha para uma favela e só enxerga violência, pobreza e ausência de oportunidades não está vendo a história inteira. Existe uma outra realidade que precisa ser contada: a de pessoas que, mesmo diante das dificuldades, constroem caminhos, acolhem sonhos e transformam vidas. Grande parte dessa transformação acontece por meio dos projetos sociais.

Projetos sociais não são apenas atividades oferecidas à população. São espaços de acolhimento, aprendizado, pertencimento e esperança. São lugares onde crianças descobrem seus talentos, jovens encontram novas possibilidades de futuro e famílias percebem que não estão sozinhas. Em territórios onde tantas vezes os direitos básicos são negados, essas iniciativas ajudam a preencher lacunas que nunca deveriam existir.

Eu falo disso não apenas como alguém que acredita nessa transformação, mas como alguém que vive essa realidade há 15 anos. À frente do Favela é Fashion, no Complexo do Alemão, acompanho de perto o poder que a cultura, a moda e a formação podem exercer na vida de uma pessoa. Ao longo dessa trajetória, aprendi que oferecer uma oportunidade vai muito além de ensinar uma profissão. É mostrar a alguém que seu talento tem valor, que sua origem não determina seu destino e que sonhar também é um direito.

Quando uma criança encontra um espaço seguro para desenvolver suas habilidades, quando um adolescente descobre uma vocação e quando uma mulher reconhece sua própria potência, algo começa a mudar. Às vezes, essa mudança não aparece em estatísticas, relatórios ou manchetes. Mas ela acontece dentro de casa, nas relações familiares, nas escolhas e na maneira como aquela pessoa passa a enxergar a si mesma e o mundo.

É por isso que digo: projetos sociais salvam vidas.

Salvam quando afastam jovens da falta de perspectivas. Salvam quando oferecem escuta a quem nunca foi ouvido. Salvam quando criam alternativas para quem cresceu acreditando que determinadas portas jamais se abririam. E salvam também quando ajudam alguém a recuperar a autoestima, a dignidade e a vontade de continuar.

Isso não significa romantizar a favela ou transferir para os projetos sociais a responsabilidade que é do poder público. Pelo contrário. Nenhuma iniciativa comunitária deveria precisar compensar, sozinha, a falta de políticas públicas, investimentos e direitos. Quem atua nos territórios sabe o tamanho do desafio e conhece os limites de trabalhar, muitas vezes, com poucos recursos e muita responsabilidade.

Projetos sociais precisam de apoio, financiamento, continuidade e reconhecimento. Não podem depender exclusivamente do esforço individual de quem acredita na transformação. É necessário que empresas, instituições, organizações e governos compreendam que investir nessas iniciativas é investir nas pessoas, no desenvolvimento dos territórios e no futuro da sociedade.

A favela não precisa que falem por ela o tempo inteiro. Precisa que escutem quem está nela, reconheçam suas potências e garantam condições para que suas iniciativas continuem existindo. Há conhecimento, criatividade, cultura, empreendedorismo e talento sendo produzidos todos os dias nesses territórios. O que falta, muitas vezes, é oportunidade para que tudo isso floresça.

Depois de 15 anos de caminhada, sigo acreditando que uma oportunidade pode mudar uma trajetória inteira. E que, quando essa oportunidade alcança uma comunidade, seu impacto ultrapassa o indivíduo e chega a muitas outras vidas.

Por trás de cada projeto social, existe alguém que decidiu não desistir de outras pessoas. Existe uma rede de cuidado que, muitas vezes, sustenta quem o mundo insiste em deixar para trás.

Por isso, apoiar projetos sociais não é caridade. É compromisso com a vida. Porque, quando uma comunidade cria oportunidades para sua própria gente, ela não está apenas construindo futuros possíveis. Está dizendo, na prática, que nenhuma vida deve ser considerada perdida antes de ter a chance de florescer.

Juliana Henrik é jornalista, produtora de moda e produtora cultural, cria do Complexo do Alemão. Atua há 10 anos no jornalismo e há 18 anos na área da moda. É fundadora do Favela é Fashion, iniciativa que há 15 anos promove inclusão e oportunidades por meio da moda no Alemão. Atualmente, é comunicadora do Programa PISTA, desenvolvido em colaboração com o PNUD e a ONU, trabalhando na comunicação e valorização de projetos sociais e iniciativas que transformam realidades nas favelas.
Foto: Arquivo pessoal