Artigo escrito por Gabriela Conc
O Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha já passou. Como acontece todos os anos, o dia 25 de julho trouxe homenagens, campanhas e discursos sobre a importância das mulheres negras. Mas, quando a data termina, fica uma pergunta: quem continua olhando para essas mulheres quando o calendário vira a página?
Escrever sobre essa data é também escrever sobre pertencimento. É lembrar que a história das mulheres negras não começou em uma data comemorativa e tampouco se resume às narrativas da resistência. Antes de qualquer reconhecimento institucional, elas já construíam comunidades, preservavam saberes, sustentavam famílias, organizavam redes de solidariedade e reinventavam formas de existir em uma sociedade que sempre tentou limitar seus caminhos.
Nas favelas e periferias, essa história ganha outros contornos. Crescemos ouvindo que esses territórios eram marcados pela ausência de oportunidades, investimento e direitos. Mas quem vive a favela sabe que ela nunca foi um espaço vazio. Muito do que existe ali tem o rosto de uma mulher negra.
São elas que movimentam a economia local, articulam projetos sociais, preservam a memória coletiva, fortalecem a cultura, comunicam as urgências do território e constroem soluções onde, muitas vezes, o poder público nunca chegou.
Um dos maiores desafios é romper com a ideia de que nossas histórias só merecem ser contadas quando atravessadas pela dor. A violência precisa ser denunciada, mas ela não pode ser a única narrativa sobre quem somos. Existe produção de conhecimento, liderança, arte, comunicação, educação e organização política acontecendo diariamente nas favelas e periferias.
Há também a violência da invisibilização. Ela acontece quando nossas vozes são lembradas apenas em datas simbólicas e nossas imagens ilustram campanhas sobre diversidade, enquanto nossos pensamentos continuam fora dos espaços de decisão; quando reconhecem o trabalho das mulheres negras apenas como cuidado, mas ignoram sua capacidade de formular políticas, produzir conhecimento e transformar realidades.
As mulheres negras das favelas sempre produziram conhecimento a partir da própria experiência. Existe inteligência na forma como lideranças organizam redes de apoio, garantem alimentação, educação e proteção onde o Estado falha e preservam a memória de seus territórios. Reconhecer isso é romper com a lógica de que apenas alguns espaços são autorizados a produzir pensamento. As favelas também escrevem o Brasil.
Falar sobre pertencimento é entender que ocupar espaços nunca significou abandonar nossas origens. Cada mulher negra que chega à universidade, à política, ao jornalismo, à pesquisa ou a qualquer outro espaço de decisão leva consigo as histórias de quem veio antes e a responsabilidade de abrir caminhos para quem ainda virá.
Não existe conquista individual quando olhamos para a nossa ancestralidade. Cada passo dado hoje carrega o esforço de mulheres que enfrentaram o racismo, o sexismo e tantas outras formas de exclusão para que nós pudéssemos sonhar outros futuros.
O 25 de julho nos convida a lembrar dessas mulheres, mas também nos desafia a enxergar aquelas que seguem escrevendo essa história agora. As que fazem comunicação comunitária, organizam bibliotecas populares, lideram coletivos, empreendem, educam, pesquisam, cuidam e transformam seus territórios todos os dias.
Quando pensamos em quem mantém uma cidade em movimento, raramente reconhecemos o papel central das mulheres negras. No entanto, são elas que limpam escolas e hospitais, preparam a merenda de milhares de crianças, cuidam de idosos, atendem o comércio, dirigem pequenos negócios e voltam para casa para iniciar uma segunda jornada. O Brasil conhece esse trabalho. O que ainda não faz é reconhecê-lo com a dignidade que merece.
O Brasil nunca teve dificuldade em confiar às mulheres negras o peso do trabalho. A dificuldade sempre foi reconhecer sua autoridade e dividir com elas os espaços de decisão.
As páginas mais importantes dessa história continuam sendo escritas por mulheres que aprenderam, com as que vieram antes, que existir também é uma forma de deixar legado.
Gabriela Conc
Co-fundadora da ONG Voz das Comunidades, Geógrafa, pesquisadora do LISA (Laboratório de estudos da interação Sociedade-Atmosfera UERJ) e produção de impacto territorial
