Por Anielle Franco
Violência doméstica não começa com a agressão. Começa quando a liberdade vira motivo de questionamento. Quando a gargalhada é tratada como deboche. Quando a roupa, o horário, as amizades e até o próprio corpo passam a ser monitorados. Começa quando o cuidado vira obrigação e a mulher é empurrada para um lugar onde existir pode custar a própria vida.
Se a pergunta é “por que ela não saiu?”, eu devolvo outra, mais honesta: quem ficou do lado do agressor enquanto ela perdia o direito de ser gente? Quando a violência se torna parte da rotina e é normatizada, ela deixa de ser um problema individual e se torna coletivo. Ela vira política, aquilo que decide quem será protegido e quem será silenciado.
O Brasil se formou sob matrizes africanas e indígenas, mas a “estrutura familiar” que muita gente romantiza foi sustentada, inúmeras vezes, por uma mulher negra, nordestina, favelada. A que estava fazendo comida, criando afeto, organizando a casa e, quase sempre, criando filhos que nem eram seus. Lélia Gonzalez nos ensinou a enxergar como racismo e sexismo se combinam para transformar mulheres negras em manutenção do mundo. E Sueli Carneiro insiste no óbvio que o país teima em negar: não existe democracia quando algumas vidas são tratadas como descartáveis. Quando o Estado e o território naturalizam que mulher negra “aguenta tudo”, a violência encontra chão para escalar.
Os dados confirmam o que a experiência grita. Em 2024, o Brasil registrou 1.492 feminicídios, o maior número desde a tipificação do crime. 63,6% das vítimas eram mulheres negras. Em 64,3% dos casos, o assassinato aconteceu dentro da casa da vítima.
De janeiro a julho de 2025, o Ligue 180 registrou 594.118 atendimentos e 86.025 denúncias. Quase metade aponta o suspeito como companheiro, esposo, namorado, atual ou ex. Entre as vítimas, 44,3% se declaram negras. E a violência persiste: em 21,9% das denúncias, ela já durava há mais de um ano; em 8,6%, há mais de dez anos. Uma década de medo é um projeto de destruição lenta.
E, quando o assunto é favela, o buraco é mais embaixo. A regra que funciona na pista deveria ser a mesma, mas o acesso, a proteção e o risco não são. Tem mulher que não denuncia porque não tem para onde ir. Tem mulher que denuncia e volta porque o agressor sabe onde ela mora, onde a mãe mora, ou onde o filho estuda. Claro que a rede de acolhimento existe, quantas famílias não sobreviveram assim no Conjunto Esperança, na Maré, de onde vim, mas é preciso avançar para que o feminismo deixe de ser um tabu, sobretudo para quem já atua nesses territórios.
Se uma mulher cristã apanha, a igreja não pode empurrá-la para a culpa e para o silêncio em nome da “preservação do lar”. Dogmas não podem valer mais que pessoas. Se uma mulher apanha, isso cria eco em toda uma comunidade. Afinal, quem lucra com nosso silêncio?
Enquanto há quem finja que esta não é uma realidade que os atinge, meninos estão sendo treinados para a misoginia em escala industrial. Pesquisa do NetLab-UFRJ com o Ministério das Mulheres mostrou como a chamada machosfera no YouTube transforma ódio em negócio, com bilhões de visualizações e estratégias de monetização. Não é coincidência: quando mulheres avançam, há uma reação organizada para contê-las. Foi assim com o Projeto de Lei da Pedofilia, aprovado recentemente na câmara que, na prática, suspende direito de atendimento humanizado a crianças e adolescentes vítimas de violência sexual e estupro.
Na minissérie Adolescência, da Netflix, dramatiza esse abismo: um garoto de 13 anos no centro de um crime, uma família e uma comunidade tentando entender como um garoto aparentemente normal poderia ter cometido um crime de feminicídio.
A cultura popular está longe de ser o problema. Artistas têm se apropriado desse espaço para denúncia e emancipação. MC Carol e Karol Conká, em “100% Feminista”, transformam memória de violência em alerta. Já MC Marcelly canta também para que as mulheres não se esqueçam, que há vida possível fora de um relacionamento violento. Ebony, em “Espero Que Entendam”, expõe a estrutura masculina que tenta limitar até onde mulheres podem chegar. E quando Tati Quebra Barraco reivindica autonomia, ela está lembrando que liberdade não é concessão. A arte das favelas costuma dizer, antes, o que o Brasil institucional muitas vezes evita: chamar a violência pelo nome e afirmar que a vida da mulher vale mais do que o ego de qualquer homem.
Não dá para enfrentar violência doméstica só com punição. É preciso prevenir. Isso passa por educar meninos e por homens educarem seus pares. Passa por interromper piadas, comentários, “conselhos” e práticas que parecem pequenas, mas que constroem o terreno onde a agressão floresce. Passa por fortalecer a rede de proteção no território, do posto ao CRAS, da escola ao conselho tutelar, do serviço de saúde à defensoria. E passa, também, por responsabilizar plataformas que lucram com conteúdos misóginos.
Para quem está em risco agora, existe um caminho imediato: o Ligue 180 é gratuito, sigiloso e funciona 24 horas. Buscar ajuda não é vergonha. É direito. E o brilho de uma mulher não é ameaça. É indicador de uma nova e possível civilização.
Anielle Franco
Jornalista, educadora, ativista e Ministra da Igualdade Racial do Brasil. Irmã da vereadora Marielle Franco,
assassinada em 2018, Anielle se tornou uma das principais vozes na luta contra o racismo e pela defesa dos direitos humanos

