Olá! Alguns anos depois, fui convidada a publicar um artigo aqui, no Jornal Voz das Comunidades. Uma tempestade de lembranças me atravessa: emoção quase paralisante! É a oportunidade de voltar para casa, de escrever com liberdade, orgulho e alegria, compartilhando uma trajetória linda, complexa e poderosa.
O Voz atravessou a vida de muitas pessoas do Complexo do Alemão. Crescemos e amadurecemos junto com ele. De alguma forma, ser atravessado pela experiência do Voz é transformador em muitas camadas. Vinte anos depois, olhamos com mais suavidade, gratidão e emoção para tudo o que construímos.
Eu morava perto da Escola Alcides de Gásperi, primeira “casa” do jornal, onde estudava meu amigo Rene Silva, então com 13 anos. O Voz, vez em quando chegava na caixa de correio da minha casa: uma folha A4 em preto e branco, dobrada ao meio, com recortes das principais notícias do G1 e, no meio delas, alguma foto de um esgoto a céu aberto – cotidiano nosso, mas que ali ganhava visibilidade. Ver aquilo no jornal trazia um senso de importância e visibilidade.
No dia 25 de novembro de 2010, dia da invasão do CPX, encontrei Rene pelo Twitter. Como muitos, tentava ajudar amigos e familiares enquanto a polícia tomava os acessos ao Alemão. Eu tinha 20 anos, morava na parte baixa do morro e minha casa virou abrigo para quem não conseguiu entrar na Nova Brasília. Atualizávamos uns aos outros pelas redes, tentando evitar riscos. O medo era real: todos esperavam uma chacina como a de 1994. Nesse dia, passei a informar nas “mensagens diretas” do perfil do Voz no Twitter sobre movimentações na Estrada do Itararé, na região do CPP. Acompanhei o assédio dos jornalistas na porta do Rene e o medo pelo que poderia acontecer com aquele menino que, àquela altura, tinha 17 anos recém completos.
Pouco tempo depois, já participava de intervenções no Voz. Muitas conversas, sonhos e planos com Rene (coisa que a gente faz até hoje). Contei para ele sobre minha história com a leitura e o impacto do primeiro livro que li – tema para outro artigo! – e surgiu o convite para criar a primeira biblioteca do Alemão. Era 2011. Fizemos campanha, arrecadamos livros, escolhemos o local, planejamos…, mas uma disputa política local nos impediu de inaugurar. Depois desse fracasso, fizemos juntos o maior sucesso das nossas vidas – A constituição do Voz das comunidades como uma ONG que nasceu em 2015. Desenhei e imaginei os primeiros passos da ONG que se fortalece diariamente a partir do trabalho da Gabi, do Renato, do Rene – claro, mas também outros muitos anônimos, famosos e voluntários que contribuem de formas distintas para a potência que o Voz da Comunidade é hoje.
Jovem e um pouco cansada de ser reconhecida como “A menina que trabalha com o Rene”, me afastei da diretoria executiva para construir meu próprio nome e sobrenome, sem jamais esquecer dos dias que o Voz crescia na sala da minha casa – literalmente.
Superamos juntos frustrações, incêndios, brigas, medos, orgulhos, infantilidades. Crescemos com as páginas o jornal. Construímos lugar de afetos e encontros improváveis. Aprendi a olhar para o Complexo do Alemão e pra mim mesma com coragem, responsabilidade e amor. Estive ali virando noites pra fechar o jornal quando eram 2 folhas impressas e quando passamos a falar com o mundo pelas redes. Mobilizamos reuniões improvisadas, mutirões e eventos profissionais. Vi jovens se descobrirem jornalistas, fotógrafos, produtores, comunicadores. Vi vizinhos perceberem a força da informação que nasce de dentro – do local. Hoje, 20 anos depois, o Voz não é apenas um jornal – é memória coletiva de um futuro em disputa. É organismo vivo que desafia narrativas, cria pontes, transforma realidades e pessoas.
Tenho o privilégio de ter contribuído para a constituição do que hoje é a ONG Voz das Comunidades e a certeza de que essa história não termina aqui. Que os próximos 20 anos sejam ainda mais ousados, que continuemos a contar nossas histórias com a mesma coragem do menino de 11 anos que sonhou alto e continua sendo inspiração e esperança pra nós. Porque, quando a favela fala, o mundo escuta.
Daiene Mendes
Diretora programática no Fundo de Apoio ao Jornalismo (FAJ), Daiene tem raízes no Complexo do Alemão e é cofundadora da ONG Voz das Comunidades. Reconhecida como Ford Foundation Fellow, atua pela democratização da mídia, descontruindo estereótipos e ampliando o protagonismo de comunidades Faveladas, Negras, Quilombolas, Indígenas e LGBTQIA+.


