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Chacina do Jacarezinho completa 2 anos neste sábado (6)

Após 2 anos, Chacina do Jacarezinho ainda é relembrado pela comunidade e marcado por poucas respostas
Foto: Selma Souza / Voz das Comunidades
Foto: Selma Souza / Voz das Comunidades

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Texto: Lucas Feitoza, Thayná de Souza e Rafael Costa

Este não é qualquer número. É um número expressivo e causa tristeza em muitas famílias, que relembram o dia triste de 6 de maio de 2021, quando a polícia do Rio de Janeiro entrou na comunidade do Jacarezinho e realizou a chacina mais letal da história do estado. A incursão da Polícia Civil levou 300 agentes para a favela do Jacarezinho, o que resultou na morte de 28 pessoas.

Quando a chacina completou 1 ano, moradores e entidades sociais realizaram uma marcha que finalizou na inauguração de um memorial com os nomes das vítimas em uma placa. O Voz das Comunidades acompanhou o ato de mães que clamavam por justiça e questionavam o Estado por tal atrocidade.

Uma semana depois, a Policia Civil derrubou o memorial com os nomes das vítimas da Chacina do Jacarezinho. Na época, o Voz das Comunidades entrou em contato com a instituição para questionar o motivo da destruição da placa com os nomes dos mortos, que respondeu em nota, declarou que o memorial foi retirado porque fazia apologia ao tráfico de drogas, já que “homenageava 27 traficantes mortos em confronto com a Polícia Civil durante operação na comunidade do Jacarezinho”, além de “não ter autorização da Prefeitura do Rio de Janeiro”.

Em forma de homenagem, familiares e amigos das vítimas construíram uma placa com os nomes dos mortos na chacina. Agentes da Polícia Civil a destruíram alguns dias depois.
Foto: Reprodução / Redes Sociais

Relembre o caso:

Vítima de Fake News

Adriana Rodrigues, de 48 anos, é mãe de Marlon Araújo, que era mototáxi, e foi uma das 28 vítimas da chacina do Jacarezinho. Ela conta que só tem forças para continuar de pé devido ao projeto social “Do Luto para a Luta: crack é Jesus” que ela criou para ajudar usuários de drogas a saírem do vício.

Adriana foi vítma de fake news nas redes sociais, acusando-a de apoiar o tráfico. Imagem: TV Globo / Reprodução

Ela conta que nesses dois anos, duas mães já morreram vítimas de depressão e que ela sofre com a doença. “Eu cheguei a jogar ácido no meu corpo. Agora não quero mais sofrer por isso. Criei o projeto e se eu parar eu vou morrer dessa doença (depressão) maldita”, afirma.

Adriana conta que ainda recebe ameaças pelas redes sociais e prefere não divulgar onde está morando com medo de perseguição. “Fora a humilhação que passei, sendo chacota na rua. Me chamaram de “marmita de bandido” e “fábrica de marginal”, meu útero é como de qualquer outra mulher, preta, branca, rica ou pobre!”, desabafa.

A mãe de Marlon explica que conseguiu provar a inocência do filho. “A gente foi detetive dos nossos filhos, meu filho foi acusado de matar o policial”. Emocionada , Adriana conta que hoje ela se sente silenciada, “Se eu falar o que penso vai acontecer comigo o que fizeram com Marielle (Franco). Não posso falar tudo, me sinto incapaz”.

Ano passado ela foi vítima de fake news sendo associada ao crime organizado, pelo ator Thiago Gagliasso. Adriana venceu o processo contra o ator por danos morais, mas até hoje não recebeu a indenização de R$ 10 mil que deveria ser paga. “O juros corre todo dia, além da multa ele também tinha que se retratar nas redes sociais dele”, conta.

Relembre o caso: Mãe de jovem morto na chacina do Jacarezinho vai usar indenização de Thiago Gagliasso para doar quentinhas

O que dizem as autoridades?

A equipe do Voz das Comunidades entrou em contato com a assessoria do Governador Cláudio Castro questionando sobre o que o Estado fez depois de dois anos, se houve algum pedido de desculpas por parte da instituição pública e o qual era a posição diante do pedido de indenização que as famílias estão movendo. Mas até o fechamento deste material, não houve resposta.

Entramos em contato também com o Ministério Público, que respondeu com um link de notícia sobre as últimas informações sobre o processo do Jacarezinho. Questionamentos, também, sobre os casos de arquivamento realizados no último ano. “A Força-Tarefa criada pelo MPRJ para atuar nas investigações da operação ofereceu denúncias e arquivamentos. Durante sua vigência, de apenas um ano, a Força-Tarefa conseguiu dar respostas efetivas à sociedade fluminense sobre a atuação da Polícia Civil durante a intervenção na comunidade, graças à atuação coletiva especializada, que contou, inclusive, com investigações próprias.” O documento trata da denúncia dos réus Amaury Godoy Mafra e Alexandre Moura de Souza, policiais civis, denunciados pelo homicídio doloso de Richard Gabriel da Silva Ferreira e Isaac Pinheiro de Oliveira, durante incursão no Jacarezinho. A Polícia Civil não respondeu ao nosso contato até o fechamento deste material.

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EDITORIAS

PERFIL

Rene Silva

Fundou o jornal Voz das Comunidades no Complexo do Alemão aos 11 anos de idade, um dos maiores veículos de comunicação das favelas cariocas. Trabalhou como roteirista em “Malhação Conectados” em 2011, na novela Salve Jorge em 2012, um dos brasileiros importantes no carregamento da tocha olímpica de Londres 2012, e em 2013 foi consultor do programa Esquenta. Palestrou em Harvard em 2013, contando a experiência de usar o twitter como plataforma de comunicação entre a favela e o poder público. Recebeu o Prêmio Mundial da Juventude, na Índia. Recentemente, foi nomeado como 1 dos 100 negros mais influentes do mundo, pelo trabalho desenvolvido no Brasil, Forbes under 30 e carioca do ano 2020. Diretor e captador de recursos da ONG.

 

 

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