Artigo escrito por Renata Silveira
Toda vez que alguma coisa importante acontece na minha vida, eu repito uma frase quase sem perceber: “Ramos venceu”.
Não é só sobre mim. Nunca foi.
É sobre a menina da Zona Norte que cresceu apaixonada por futebol, ouvindo rádio, vendo jogos e tentando encontrar espaço em um ambiente que durante muito tempo parecia não ter sido feito para mulheres. Principalmente para mulheres vindas do subúrbio.
Morei em Ramos até os meus 30 anos. Ramos pra mim é memória afetiva, infância, brincar na rua, formação e pertencimento. É onde construí minha identidade e tenho muito orgulho disso.
Ao mesmo tempo, também seria injusto fingir que as dificuldades não existiam. Cresci escutando aquela ideia de que “vencer na vida” significava sair dali.
Eu tive acesso a boas escolas, cursos e estrutura familiar. Mas morar em um lugar constantemente associado a estigmas faz você entender cedo como o CEP influencia a forma como o mundo olha para você.
Talvez por isso ocupar determinados espaços tenha um peso ainda maior.
O futebol sempre foi um ambiente extremamente masculino e a narração esportiva, mais ainda. Durante muito tempo, mulheres precisaram provar o tempo inteiro que pertenciam àquele lugar. A sensação era de estar sempre sendo testada, observada e questionada. E, na verdade, ainda é assim.
Narrar exige preparo, estudo, repertório e emocional. Mas, para nós mulheres, muitas vezes também exige resistência. E é impossível não pensar em tudo isso quando olho para o momento que estou vivendo agora.
Nesta Copa do Mundo, serei a primeira mulher a narrar uma Copa in loco na televisão aberta brasileira. Um marco histórico que carrego com muito orgulho, mas também com muita responsabilidade porque eu sei que essa conquista não é individual.
Quando uma mulher ocupa um espaço onde antes ela não se via representada, ela não chega sozinha. Chegam junto sua história, suas referências, seu bairro e tantas outras meninas que passam a se enxergar possíveis também.
E existe outro detalhe que torna tudo isso ainda mais especial para mim: vou viver o auge da minha carreira voltando de uma licença-maternidade.
Por muito tempo, mulheres aprenderam que precisavam escolher entre maternidade e carreira. Como se fosse impossível conciliar potência profissional e vida pessoal. Ir para uma Copa do Mundo nesse momento da minha vida tem um significado enorme, é quase como reafirmar todos os dias que podemos ocupar espaços grandiosos sem abrir mão de outras versões de nós mesmas.
Talvez por isso eu faça tanta questão de manter minhas raízes vivas.
Desde 2015, além do futebol, também realizo esse propósito através da dança. Sou sócia diretora da La Vie Danse, escola de dança em Bonsucesso que movimenta sonhos, oportunidades e pessoas na região onde cresci. Porque eu nunca quis apagar minha origem para ocupar novos espaços e talvez seja exatamente por isso que essa frase continue fazendo tanto sentido para mim:
“Ramos venceu.”
Porque toda vez que eu entro em um estádio, pego um microfone ou embarco para narrar uma Copa do Mundo, a menina de Ramos vai junto.
Renata Silveira
Narradora da TV Globo
