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OPINIÃO – O clima não é neutro: a tragédia em Minas Gerais como projeto político da negligência

As chuvas em Juiz de Fora e Ubá não são simplesmente "desastres naturais". Elas iluminam a manifestação mais cruel de um desastre climático que sabe precisamente qual CEP será atingido

Foto: Reprodução / Redes Sociais
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Por: Mariana Evaristo

Fevereiro de 2026 trouxe para Juiz de Fora e Ubá um volume de chuva que empurrou as previsões para o limite: 584 milímetros em um único mês. Isso é, na verdade, o dobro do esperado para todo o período. Os números são impressionantes, no entanto. Mas números não choram, não perdem filhos, não se deparam com registros perdidos, roupas e um lugar para dormir. Atrás deles está uma lama que apagou os sonhos das pessoas que viviam na Vila Olavo Costa, Cerâmica e Parque Burnier. Mais de 60 vidas interrompidas. Milhares de famílias sem casas. E uma pergunta que cresce em meio aos escombros: por quanto tempo os mais pobres terão que arcar com a conta para resolver a crise climática?

Também é impossível ignorar Minas Gerais sem um senso de déjà vu. As cicatrizes permanecem abertas no Rio Grande do Sul. E muitas dessas pessoas de lá lideram campanhas de arrecadação para o povo de Minas. “Sabemos o que é perder tudo”, dizem. Essa corrente está progredindo e também denunciando. Estamos em um tipo de ciclo de calamidades recorrentes, repetido em que cada tragédia leva à próxima, enquanto a solidariedade entre as vítimas se move para preencher esse vazio criado pela falta de poder público. Isso precisa ser afirmado sem ambiguidades: o tamanho da tragédia é ditado não pela intensidade da chuva, mas sim pela ausência de políticas públicas de anos anteriores que transformam a chuva em morte.

A chuva não tem endereço. O deslizamento, sim.

A vulnerabilidade climática no Brasil não é apenas geográfica. É uma questão política. As populações mais atingidas em Juiz de Fora e Ubá são as mesmas que sofrem com saneamento precário, políticas habitacionais precárias e falta de prevenção. Os bairros encharcados de lama não foram apenas atingidos por um golpe de sorte. Eles foram construídos na periferia, por quem não tinha alternativa e depois ignorados por quem tinha o dever de protegê-los. A destruição não é um acidente porque sempre ocorre nos mesmos locais. É a consequência mais visível de uma política silenciosa que determina metodicamente quem recebe proteção e quem pode decidir por si mesmo. O nome técnico é racismo ambiental. Na prática, significa ter uma leitura de qual bairro vai afundar. É uma encosta sem contenção. É a família empurrada para um terreno que já estava em desgaste. Quando a lama cai, não cai por acidente. Segue o caminho aberto pela negligência.

O desastre como escolha política


Alguns chamam de descuido. Eu chamo de opção.

Os recursos de prevenção de desastres alocados ao governador Romeu Zema foram cortados
— de R$ 135 milhões para R$ 6 milhões em dois anos. Uma queda de 96%. Quando um governo toma essa decisão, está redistribuindo o risco. Com planilhas e assinaturas, está definindo que algumas vidas estão incluídas no corte orçamentário. Cada decisão orçamentária é uma aposta em prioridades. Aqui, estava implicitamente claro que prevenir mortes nas áreas mais vulneráveis era uma prioridade menor. Mas essa responsabilidade não é apenas do executivo estadual. Dados sobre a execução de emendas parlamentares mostram que menos de 1% dos recursos indicados pelos deputados de Minas foram gastos em ações de prevenção de desastres. Bilhões passam dos gabinetes enquanto o sistema de prevenção de tragédias continua com recursos inadequados. Quando os parlamentares não financiam aprevenção, perpetuam desastre após desastre. A omissão também tem suas próprias consequências. Tem um nome. Tem um endereço. O que deve ser perguntado não é apenas onde estava o governo quando a lama chegou. A questão torna-se: o que foi feito, e depois desfeito, no passado, para trazê-la com tanta força. A resposta é desconfortável. E precisa ser enfrentada. A elaboração do orçamento é uma opção política. Quando essa escolha tem custo de vidas, a responsabilidade está lá.

O Estado que chegou e o que precisa permanecer

Quando a lama foi embora, a ajuda chegou. Juiz de Fora decretou calamidade pública. O governo federal mobilizou recursos, criou uma presença na cidade e mobilizou ministérios. O quadro de resposta foi ativado. Houve uma resposta imediata e foi importante. Mas essa agilidade também apresenta outra realidade. O Estado sabe o que fazer a seguir. O que continua falhando é fazer algo antes: drenagem urbana eficiente, contenção de encostas, desassoreamento de rios, mapeamento permanente de áreas de risco, sistemas de alerta e programas habitacionais que retirem famílias de zonas vulneráveis.

Nada disso é improviso. São políticas públicas conhecidas, previstas em lei e tecnicamente viáveis. Um reage à tragédia. O outro a previne. E o segundo está faltando em algumas partes. Então, o que falta não é tecnologia nem diagnóstico. Mapas de risco existem. Os dados estão disponíveis. O que falta, no entanto, é a escolha política de agir antes que a lama traga urgência.

Poder popular como instrumento de responsabilização

Esse tipo de solidariedade transcende fronteiras estaduais. Salva vidas agora e tem que continuar. Mas não pode ser o único legado dessas tragédias. A arrecadação de fundos ajuda imediatamente, mas não pode substituir a política pública que deveria ter prevenido tudo isso. A organização comunitária pode converter a dor em mobilização. E a corrente de arrecadação precisa continuar. E deve também envolver a presença em audiências públicas das câmaras municipais e federais e assembleias estaduais. Em perguntas abertas aos legisladores que são membros do parlamento quanto ao paradeiro de cada emenda. Para que os planos de Defesa Civil sejam preparados com expectativa real, orçamento garantido e o envolvimento das comunidades impactadas.

Comunidade organizada tem poder concreto

Foi a pressão popular após as enchentes no Rio Grande do Sul que destravou debates que estavam paralisados há anos. A memória das vítimas não pode desaparecer antes da próxima temporada de chuvas. Não podemos permitir que cada tragédia seja tratada como se fosse isolada, sem histórico e sem padrão.

Não podemos tolerar que o mapeamento de áreas de risco permaneça como promessa de
campanha. Não podemos aceitar gestores que tratam a prevenção como problema do governo seguinte. Não podemos nos acostumar com o luto anual como se fosse inevitável. Quando comunidades se organizam em torno de uma exigência clara, elas alteram o que parecia permanente.

A história já mostrou isso. A rua e as redes, quando articuladas, conseguem colocar a prevenção de desastres onde ela deveria sempre estar: como prioridade pública.

O que Minas Gerais nos convoca a fazer

O que aconteceu em Juiz de Fora e Ubá segue um padrão que se repete no país.

O poder público demonstra capacidade de agir quando a crise explode. Agora é necessário exigir que aprenda a evitá-la. Que os orçamentos da Defesa Civil sejam tratados como prioridades. Que parlamentares sejam cobrados pelo destino de cada emenda, de cada voto e de cada decisão que define, na prática, se comunidades vulneráveis terão ou não direito à segurança.

A solidariedade que atravessa fronteiras estaduais também precisa se transformar em pressão política persistente. Em voz coletiva que não desaparece quando o noticiário muda de assunto. Em memória ativa que conecta o luto de fevereiro à cobrança de março, de abril e dos próximos anos. Porque se o clima não perdoa a negligência, a sociedade também não pode perdoar.

Mariana Evaristo
Mariana Evaristo é bacharel em Direito com especialização em Formação e Mobilização de
Lideranças para a Defesa da Democracia. Iniciou sua atuação no terceiro setor há mais de 7
anos, período em que liderou projetos de inclusão social e fortalecimento de comunidades
vulneráveis no Instituto Maria e João Aleixo. Atualmente, é Diretora Executiva da Teia de
Criadores, organização da sociedade civil que articula comunicação digital, direitos humanos,
justiça social e desenvolvimento social, coordenando iniciativas que transformam a
comunicação em instrumento de empoderamento coletivo.