Matéria produzida por Larissa Xavier e Danilo Castro
No Complexo do Alemão, a Clínica da Família Zilda Arns se tornou um espaço de cuidado e acolhimento para muitas mulheres. Durante o Outubro Rosa, campanha nacional de conscientização sobre o câncer de mama, histórias como a da paciente Fran Galvão, de 34 anos, e a visão da médica Jade Almawy reforçam o quanto informação e acesso ao sistema público de saúde são capazes de salvar vidas.
Segundo a médica, o diagnóstico precoce é um divisor de águas. “Quanto mais cedo o câncer é detectado, maiores as chances de tratamento bem-sucedido. O Ministério da Saúde recomenda mamografias a cada dois anos para mulheres entre 50 e 74 anos. Esse rastreamento é fundamental para que possamos intervir no início da doença, quando o prognóstico costuma ser melhor”, explica.
Muitas mulheres, no entanto, ainda acreditam que o autoexame é suficiente para a prevenção. Jade alerta: “O autoexame não substitui os exames de imagem nem a avaliação clínica. Ele pode gerar alarmes desnecessários e, em outros casos, passar despercebido diante de uma lesão em estágio inicial. O ideal é que as mulheres realizem o exame clínico das mamas com um profissional e façam a mamografia regularmente.”
Ela reforça que há sinais que devem servir de alerta imediato: retração ou desvio do mamilo, secreção sanguinolenta, pele com aspecto de casca de laranja, feridas ou ulcerações. “Essas alterações precisam ser investigadas em uma unidade de saúde. Não devem ser ignoradas.”
O diagnóstico e o tratamento seguem um fluxo dentro do Sistema Único de Saúde (SUS). Nas clínicas da família, como a Zilda Arns, são feitos o rastreamento, o exame clínico e a solicitação de exames de imagem. Se houver suspeita, a paciente pode ser encaminhada para ultrassonografia ou biópsia. “Com a confirmação de uma lesão maligna, a paciente é direcionada para a regulação estadual, responsável pelos hospitais que realizam quimioterapia, cirurgia e radioterapia”, explica Jade.

Além do diagnóstico, a atenção básica oferece acompanhamento contínuo. Equipes multidisciplinares formadas por médicos, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais e nutricionistas atuam no apoio integral. “Receber a notícia de um câncer assusta muito. O medo da morte é comum entre os pacientes. Por isso, o suporte emocional e social é essencial, para que a mulher compreenda o diagnóstico e consiga enfrentar o processo”, acrescenta a médica.
Foi esse medo que marcou o início da trajetória de Fran Galvão, diagnosticada com câncer de mama em maio deste ano. Os primeiros sinais apareceram ainda em casa: secreção com sangue saindo do seio, pele mais grossa e avermelhada, com aspecto de casca de laranja. Mesmo assustada, ela adiou a ida ao médico por conta do trabalho noturno e da rotina intensa como mãe. “Chegou um momento em que não tinha mais como empurrar. Quando procurei ajuda, o câncer já estava em estágio 3.”

Apesar da gravidade, Fran destaca a agilidade do atendimento no SUS. “Em menos de 30 dias, já tinha feito ultrassom, mamografia, biópsia e recebido o diagnóstico. Desde então, sou acompanhada de perto pela equipe médica. Esse apoio fez toda a diferença.”
Hoje, ela está em tratamento com quimioterapia e relata os impactos na vida pessoal e profissional. “Meu mundo virou de cabeça para baixo. Não consigo trabalhar, dependo do apoio da minha mãe e do meu irmão. É um processo doloroso, que muda a rotina da gente e de toda a família. Mas também descobri uma rede de pessoas dispostas a me apoiar.”
Para enfrentar os dias mais difíceis, Fran criou um canal na internet para relatar sua experiência e oferecer suporte a outras mulheres. “No início, eu tinha muitas dúvidas que não encontrava na internet. Meu irmão me incentivou a registrar tudo: a quimioterapia, o corte de cabelo, as consultas. Recebo mensagens de pessoas do Brasil e até do exterior. Muitas dizem que meus vídeos dão força para elas seguirem.”
Para Fran, o aprendizado é que ninguém deve enfrentar o processo sozinha. “Vai ter dias de dor e de desânimo, mas sempre existe alguém disposto a ajudar. Se não for a família, pode ser um amigo, um psicólogo, um grupo de apoio. O importante é não se fechar. Eu mesma já tentei enfrentar sozinha, mas percebi que não dá. Apoio é fundamental.”
