Moradores dos Complexos da Maré, Alemão, Penha e bairros vizinhos contam com uma rede pública de saúde mental que transforma vidas todos os dias: os CAPS e o CAPSi.
Enquanto o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) é voltado para adultos, o Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPSi) oferece cuidado gratuito e humanizado para crianças e adolescentes, rompendo com a lógica dos manicômios e colocando autonomia e dignidade no centro do tratamento.
À frente do CAPSi Visconde Sabugosa, em Ramos, a psicóloga Karyna Couto, mestre em Psicologia Clínica, coordena o serviço ao lado da diretora Márcia Cristina Gomes. O centro é referência em saúde mental infantojuvenil e acompanha cerca de mil crianças e adolescentes por meio de atendimentos multiprofissionais, oficinas terapêuticas, atividades ocupacionais, em parceria com escolas, Clínicas da Família e toda a rede de proteção do território.

Para Karyna, o CAPSi representa uma mudança histórica na forma de cuidar da saúde mental. “Antes, muitas pessoas eram isoladas em manicômios. Hoje, o cuidado acontece no território, perto da comunidade, respeitando a história e a realidade de cada pessoa.”
O serviço acolhe jovens em sofrimento psíquico intenso, situações de violência, automutilação, tentativa de suicídio, transtornos mentais e outras condições que exigem acompanhamento especializado. O trabalho também envolve as famílias e conta com CRAS, CREAS, Conselhos Tutelares e projetos sociais.
Quando o acompanhamento precisa continuar na vida adulta, os pacientes passam por um processo de transição para o CAPS, garantindo a continuidade do cuidado de forma planejada.

“A gente não quer que as pessoas vivam dentro do CAPS. A gente quer que elas estejam vivendo a vida: estudando, trabalhando, passeando, construindo seus projetos”, resume a coordenadora.
Já o CAPS João Ferreira, no Complexo do Alemão, atende adultos com transtornos mentais moderados e graves. Atualmente, acompanha cerca de 900 usuários de forma ativa e, desde sua inauguração, há quase 16 anos, já acolheu mais de 23 mil pessoas.
Segundo o diretor Jardel, o CAPS nasceu para substituir um modelo que afastava as pessoas da sociedade.”O CAPS veio reconfigurar a forma de cuidar da saúde mental. Não existe julgamento. A pessoa chega, é escutada, acolhida e acompanhada por uma equipe multiprofissional.”

O cuidado vai muito além das consultas. A equipe realiza visitas domiciliares, acompanha pessoas em situação de rua, atua em hospitais, residências terapêuticas e até em unidades prisionais, sempre em articulação com a rede de saúde e assistência social.
Além do atendimento clínico, o CAPS promove grupos de mulheres, teatro, atividades corporais, rodas de conversa, oficinas, ações culturais e o tradicional Pagode na Varanda, aproximando usuários e moradores da comunidade.
“A gente usa a arte e a cultura para mostrar que esse espaço é de todos. O CAPS é um lugar de acolhimento, não de exclusão”, ressalta o diretor. Para os profissionais, o maior desafio ainda é combater o preconceito que cerca a saúde mental. A mensagem, porém, é simples: pedir ajuda não é sinal de fraqueza. É um direito.
Mais do que equipamentos de saúde, o CAPS e o CAPSi são espaços de acolhimento, cidadania e reconstrução de vidas. Em territórios marcados por desafios sociais, violência e desigualdade, os dois serviços mostram que cuidar da saúde mental também é fortalecer a comunidade, criar vínculos e oferecer novas possibilidades de futuro para quem mais precisa.
Edição: Jonas di Andrade
