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Iniciativa aposta em comunicação popular para combater desinformação, incentivar diagnóstico precoce e tratamento de tuberculose

De acordo com dados do Observatório Epidemiológico da cidade do Rio, foram mais de 8 mil casos notificados no município em 2025

Acontecem oficinas para formar criadores de conteúdo para que atuem como comunicadores populares Foto: Leandro dos Santos
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A tuberculose ainda é cercada por medo, silêncio e desinformação. Em muitos territórios, a doença é vista como uma sentença sem saída, o que afasta pessoas do diagnóstico e do tratamento. No entanto, essa realidade não condiz com os fatos. A tuberculose tem cura, o tratamento é eficaz e todo o acompanhamento é oferecido gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Quanto mais cedo a doença é identificada, maiores são as chances de cura e menores os riscos de transmissão, por isso a importância da informação como ferramenta central no enfrentamento à doença. 

Segundo Suzete Younes, apoiadora técnica em mobilização social da Gerência de Tuberculose da Secretaria de Estado de Saúde, a persistência da doença está diretamente ligada às desigualdades sociais. “Mesmo sendo uma doença que tem cura, com diagnóstico e tratamento totalmente gratuito pelo SUS, continuamos enfrentando esse desafio porque a tuberculose tem forte determinação social”, afirma. Ela explica que ambientes com pouca ventilação, moradias precárias e a concentração de muitas pessoas em um mesmo espaço favorecem a transmissão da doença, realidade comum em favelas e periferias. 

Outro fator que dificulta o enfrentamento da tuberculose é o preconceito. De acordo com Suzete, a falta de informação faz com que muitas pessoas demorem a buscar atendimento ou até abandonem o tratamento. “A falta de informação da população sobre a tuberculose faz com que seja muito mais difícil diagnosticar precocemente a doença, dificulta também o tratamento e, muitas vezes, contribui até para que o doente desista de se tratar e se curar”, destaca. 

Foi a partir dessa compreensão que surgiu o projeto “Tuberculose: Informação Salva Vidas”, uma iniciativa que aposta na comunicação popular como estratégia central de enfrentamento à doença. Para Suzete Younes, ações exclusivamente da área da saúde não são suficientes, “por ser uma doença de forte determinação social, sabemos que só ações de Saúde não dão conta de combater a tuberculose. É preciso juntar várias frentes e setores nessa luta, e a comunicação aí é fundamental”, explica. 

Oficina de comunicadores populares organizada pela Secretaria da Saúde do Estado do Rio de Janeiro e Criar Brasil. Foto: Leandro dos Santos

A parceria entre a Secretaria de Estado de Saúde, o Criar Brasil e a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) surgiu da identificação de uma grande lacuna informativa. “Existia pouco material informativo em linguagem social, de mais fácil compreensão, sem tantos termos técnicos”, afirma Suzete. Ela ressalta que o Criar Brasil é um parceiro estratégico por sua experiência em comunicação popular e mobilização social, já tendo atuado anteriormente no combate à tuberculose. 

A iniciativa nasceu em 2024 com o objetivo de criar uma rede de comunicação popular e periférica para enfrentar a tuberculose que, de acordo com dados do Observatório Epidemiológico da cidade do Rio, registra mais de 8 mil casos notificados no município em 2025. Segundo a coordenadora de comunicação do projeto no Criar Brasil, Adriana Maria, o papel da comunicação popular é fazer com que a informação chegue de forma direta a quem mais precisa. “Por isso é tão importante contar com comunicadores e comunicadoras que atuam nos territórios, para que possam dialogar de forma mais direta com os moradores”, explica. 

Adriana Maria é responsável pela coordenação de comunicação do projeto Tuberculose: Informação Salva Vidas Foto: Leandro dos Santos

O projeto investiu na formação de comunicadores populares desde sua primeira fase. Entre 2024 e o início de 2025, mais de 100 participantes passaram por oficinas realizadas em diferentes municípios do estado. Durante os encontros, os participantes receberam informações técnicas sobre a tuberculose, além de formação em comunicação, uso de inteligência artificial, técnicas de reportagem e edição de vídeo e foto. Ao final, os grupos produziram materiais informativos nos próprios territórios. 

Na fase atual do projeto, a inclusão de influenciadores locais ampliou significativamente o alcance das informações. Segundo Adriana, os vídeos produzidos pelos participantes de uma das oficinas já somam mais de 80 mil visualizações, além de comentários e repostagens positivas. “Na interação com os participantes durante a Oficina percebemos um grande interesse pelo tema, algo importante a ser debatido em seus territórios”, afirma. 

As redes sociais, especialmente o Instagram, foram escolhidas como principal canal de comunicação. O projeto aposta em vídeos curtos, reels e cards, com conteúdos produzidos em primeira pessoa pelos comunicadores populares. “Apostamos nas criatividades individuais como raps, humor, textos mais sérios”, explica Adriana, ressaltando que cada criador tem liberdade para comunicar da forma que considerar mais adequada. 

Além de informar, o projeto também busca combater mitos históricos sobre a tuberculose. Suzete Younes explica que ainda é comum associar a doença à morte ou acreditar que ela seja transmitida pelo compartilhamento de objetos, como copos e talheres. “São crenças que ficaram de quando se sabia pouco sobre a doença”, afirma. Ela reforça que a tuberculose é causada por uma bactéria, transmitida apenas pelo ar, e que tem cura quando o tratamento é feito corretamente, até o fim. 

Suzete Younes é  integrante do ponto focal da Gerência de Tuberculose da Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro Foto: Leandro dos Santos

A Secretaria de Estado de Saúde acompanha de perto o desenvolvimento do projeto, por meio de reuniões de monitoramento técnico e financeiro, além de avaliações realizadas com os participantes. Segundo Suzete, os resultados iniciais mostram avanços na quantidade e qualidade dos materiais produzidos e na diversidade de públicos alcançados. A avaliação de impacto, no entanto, ainda exige mais tempo de atuação. 

Para Adriana Maria, os sinais já são positivos. A análise das postagens indica boa aceitação do tema nas comunidades e engajamento do público. “Há diversos comentários e reposts nas publicações, evidenciando um interesse pelo tema e a ideia de que é preciso compartilhar com o maior número de pessoas”, conclui.