Por Gabriela Conc – Enviada especial para COP30, em Belém
Às margens da Baía do Guajará, no bairro do Telégrafo, em Belém do Pará, a Vila da Barca se ergue sobre as águas como um dos maiores conjuntos de palafitas da América Latina. O cenário é formado por casas suspensas sobre estacas de madeira, ligadas por passarelas estreitas, onde a vida pulsa em ritmo ribeirinho.
Ali vivem pescadores, marisqueiras e famílias que, há gerações, mantêm uma relação direta com o rio e com os modos tradicionais de vida da Amazônia urbana. “Apesar da força cultural do território, a comunidade carrega o peso de décadas de negligência do poder público, marcada pela ausência de saneamento básico, infraestrutura e políticas de moradia digna”, afirma a moradora local e jornalista Ariane Barbosa.
Pawer Martins, também morador da comunidade e liderança local , diz que na década de 1990, entrar na Vila da Barca era um ato de coragem. “Ninguém entrava. Só quem era morador, quem tinha autorização. Várias vezes eu me vi embaixo de campo de tiroteio”, lembra uma das moradoras mais antigas, hoje antropóloga, nascida em 1991, o mesmo ano em que surgiu o Curro Velho, projeto que marcaria o início de uma transformação social profunda na comunidade.
A Vila nasceu do movimento das águas e das pessoas. Muitos dos primeiros moradores vieram de Cametá, no interior do Pará, trazendo produtos para vender e histórias para contar. Acabavam ficando por ali, entre paus e tábuas, levantando casas improvisadas sobre a maré. “A Vila foi surgindo assim: uma madeira aqui, outra ali. As pontes balançavam quando a gente andava”, recorda.
O Curro Velho nasceu com um propósito simples e revolucionário: promover a reforma social da Vila da Barca, aproximando os moradores de atividades culturais, esportivas e educativas. “O objetivo era fazer com que a comunidade participasse dos eventos, pra que futuras gerações tivessem oportunidades. E isso aconteceu. Muitos que hoje estão bem de vida começaram ali.”
Foi dessa experiência que também nasceram as primeiras práticas de autogestão comunitária. A primeira associação de moradores, criada há mais de 30 anos por mulheres da própria Vila, deu início a um modelo de organização que segue vivo até hoje. Os moradores não esperam mais pelos dados oficiais: realizam seus próprios levantamentos e mapeamentos, construindo um senso comunitário para registrar quem vive ali, suas necessidades e conquistas. “Em vez de esperar que venham nos contar quem somos, a gente mesmo conta nossa história”, resume uma das lideranças locais.
Essa prática virou referência em processos de mobilização popular em Belém. É um gesto político e simbólico: a Vila da Barca é quem produz o seu próprio diagnóstico social e, mais que isso, produz seu próprio futuro.
Hoje, a realidade é outra. A Vila da Barca é um território de cultura, fé e juventude. “Se você for procurar o que é a Vila da Barca hoje, vai ver arte, cultura, dança, interiorismo cultural. É a juventude proliferando a Vila da Barca”, diz uma das vozes lideranças locais Pawer Martins, orgulhoso.
Mas o caminho foi longo. “Quando a Associação de Moradores surgiu, as pessoas nem sabiam escrever. No museu tem uma foto da época, com as assinaturas feitas com o dedo. Era essa a realidade.” A chegada da água encanada, por exemplo, foi resultado de anos de mobilização. “Todos os protestos que a gente fez, todas as vezes que fechamos a rua… A gente tava cansado psicologicamente, mas seguimos lutando”, lembra. “Antes, tinha uma única torneira pública no meio da ponte. Todo mundo fazia fila. A gente brincava que era a rede social da época, lavava roupa e fofoca também.” Essa mistura de dor e humor, de denúncia e afeto, é o que marca a identidade da Vila da Barca. “A gente tenta viver feliz. Porque se você perguntar pra alguém daqui se quer sair, ninguém quer. Todo mundo quer morar aqui. Aqui tá perto de tudo. Aqui é a nossa casa.”

O futuro feito de música
O espírito coletivo da Vila da Barca segue vivo nas novas gerações, e encontra na arte um caminho de continuidade. Um dos exemplos é o próprio Pawer Martins, que é liderança do projeto Barca Literária.
As oficinas de música, carimbó e percussão ministradas por Pawer envolvem crianças e adolescentes que crescem aprendendo o poder da arte como ferramenta de transformação e pertencimento. “Ver as crianças da Vila felizes tocando e cantando já vale toda a produção”, diz o educador, que sonha em formar uma orquestra popular com jovens do território.
O projeto é construído com o apoio dos próprios moradores e apoios institucionais, da sonoridade das palafitas ao som das águas. A fé em Nossa Senhora dos Navegantes, padroeira da Vila, continua inspirando celebrações e romarias que unem gerações. E a música “Doce Navegar”, composta por seu Benedito, morador da comunidade, segue como um hino de pertencimento e resistência. Hoje, quem chega à Vila da Barca encontra um território que aprendeu a transformar dor em potência. As antigas pontes de madeira ainda cortam o bairro, mas agora conduzem a novos caminhos, os da arte, da coletividade e da esperança.
As águas da Baía do Guajará continuam banhando o território, mas refletem um outro tempo: o tempo de um povo que aprendeu a navegar contra a maré e construir, com as próprias mãos, o seu futuro.
