O jornalismo comunitário feito de dentro da favela só existe porque pulsa no ritmo de quem vive nela. Em agosto, o Voz das Comunidades celebra 21 anos de um caminho marcado pela coragem, credibilidade e, acima de tudo, pela união. Ao longo dessas duas décadas, o jornal aprendeu e ensinou que a notícia nasce do trabalho coletivo. E as mãos mais importantes são dos próprios moradores, que diariamente ajudam a mapear os problemas, sugerir temas e ditar o que deve virar pauta.
Para marcar este momento, a redação abriu suas portas para uma visita especial. Três moradoras do Complexo do Alemão, que fazem parte da trajetória do jornal, foram convidadas a acompanhar os bastidores da produção das reportagens. Mas, essa troca não começou agora. A própria Glorya já esteve presente em reuniões de pauta com a favela, em um modelo de escuta e construção conjunta que o Voz iniciou há uns anos; que passou por outras comunidades, como Vidigal e Mangueira. Através delas, o jornal estende um abraço e um “muito obrigado” a cada morador que faz do Voz os seus olhos, ouvidos e a sua principal fonte de notícias.

Uma dessas peças fundamentais na linha de frente da informação é Mayse Freitas. Professora, educadora e responsável pelo projeto GAS (Grupo Alemão Solidário), ela é o reflexo vivo do que significa a dedicação comunitária. Moradora da Paranhos, Mayse doa seu tempo e sua energia de forma voluntária, há mais de uma década, para administrar o grupo de WhatsApp do Voz, garantindo que o espaço seja um território seguro e útil para todos.
“Eu já trabalho online 18 horas do meu dia, estou sempre conectada”, conta Mayse. Para ela, prezar pelas regras é um compromisso levado a sério, monitorado com a ajuda de um caderno de anotações. “Sigo a regra à risca para que o que acontece na comunidade, como falta de água ou luz, seja prioridade. Quem foge do combinado leva advertência”, explica. A educadora, que conhece o fundador Rene Silva desde a infância, ressalta o orgulho do projeto. “O Voz tem um trabalho muito sério. O morador precisa estar mais atento às matérias, porque o Voz não fala só do Alemão; fala de todas as favelas. É um jornal completo.”
Quem divide a missão de cuidar desse espaço com a Mayse há mais de 10 anos é a Glorya Alves Bezerra, que é moradora das Palmeiras. Ela entrou no grupo porque saía muito cedo para trabalhar e precisava saber se o território estava seguro. O fato de o Voz focar em informações úteis e não expor imagens de violência conquistou a confiança dela, que logo se tornou administradora.
“Esse grupo me fez exercer a paciência. É um aprendizado lidar com mais de 600 moradores, com opiniões diversas, falando o tempo todo sobre tudo. Você nunca pode perder a razão ou o decoro”, diz Glorya, que assumiu a responsabilidade diária de ajudar, compartilhando até a escala da UPA local. “O que me perguntam que eu sei, eu pego e respondo. É muito bom para a comunidade, porque o que a gente vai ver na televisão é sobre o Rio de Janeiro inteiro, mas ali no grupo é sobre a nossa realidade.”
E se o grupo de WhatsApp precisa de uma gestão firme, ele também ganha vida através de quem debate ativamente cada notícia. É o caso de Jéssica Souza Santos, moradora do Morro do Adeus. Diferente de Mayse e Glorya, Jéssica não está na administração, mas é uma das vozes mais participativas da comunidade. Ela encontrou no Voz o canal perfeito para se manter integrada ao território onde vive.
“Eu entrei porque queria ficar inteirada de tudo o que acontece no nosso território. São polêmicas de trânsito, falta de água, luz, vagas de Jovem Aprendiz e até castração de animais”, relata. Para ela, o conteúdo social faz toda a diferença às famílias. “Volta e meia aparece algo voltado para crianças atípicas. Lembro que a Mayse compartilhou uma matéria do Voz sobre um Jovem Aprendiz com esclerodermia, achei super interessante. O Voz é o meu jornal da manhã. Não assisto Globo nem Record. É o Voz que me inteira sobre o dia a dia”, afirma.
Para Jéssica, o grupo se tornou uma verdadeira família e o laço ficou provado na dor. No ano passado, seu filho ficou 157 dias doente, enfrentando dores misteriosas pelo corpo. Diante da luta para conseguir exames caros, como uma ressonância e um mapeamento cerebral, ela desabafou com os vizinhos de grupo. “Expus meu filho no Voz e coloquei tudo o que ele estava precisando. Meu filho teve ajuda, algumas pessoas e membros do grupo me ajudaram muito. Foi uma ajuda maravilhosa e sou muito grata por ter pessoas tão solidárias e de bom coração ali dentro”, emociona-se Jéssica. “Ali todo mundo se conhece. Às vezes alguns discordam, falam besteiras, mas qual família não é assim? A gente se ajuda quando precisa.”
Ao final da visita, Mayse e Glorya deixaram um recado carinhoso para a equipe. “Conhecemos todos vocês Renato, Rene, Jonas e todos nos tratam com muito respeito. Sabemos que existem pautas urgentes e outras que demoram a ser construídas. O morador às vezes tem dificuldade de interpretação, mas nós sempre estaremos aqui no grupo para orientar. O trabalho de vocês é muito importante. Há uma equipe séria de jornalistas, publicitários, designers, fotógrafos e editores que vestem a camisa. Tenho o prazer de participar, levar o nome do Voz e defender o trabalho de vocês se preciso for”, finalizam.
As trajetórias dessas mulheres se cruzam na busca por uma favela mais forte e informada sobre seus direitos. Elas traduzem a essência do jornalismo comunitário do Voz das Comunidades: humano, coletivo e comprometido com a verdade, sustentado pela união de tantas vozes que há 21 anos mantêm viva essa história.


