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MC Carol estréia no Rock In Rio e fala sobre história nacional, racismo e violência

MC Carol no Rock in Rio 2019 - Foto: Renato Moura
MC Carol no Rock in Rio 2019 - Foto: Renato Moura
MC Carol no Rock in Rio 2019 - Foto: Renato Moura

MC Carol, nome artístico de Carolina de Oliveira Lourenço, é famosa por marcar suas músicas por denúncias e críticas à sociedade brasileira. A cantora se destaca  cada vez mais no cenário musical ao fazer de sua voz um amplificador contra preconceitos e opressões de raça, classe, gênero e território. 

Cria do morro do Preventório, em Niterói, Mc Carol começou a carreira com poucas oportunidades e incentivo dos familiares. Hoje, alcança prestígio internacional e faz sua estréia no Rock In Rio. A artista participou do Heavy Baile ao lado de Tati Quebra Barraco. Em entrevista ao Voz das Comunidades, ela fala sobre responsabilidade social, importância do funk, exclusão social, racismo e história brasileira. 

VOZ DAS COMUNIDADES: O que significa para você estar no Palco Favela?

MC CAROL: Significa muito. Significa que valeu à pena todas as piadas que eu ouvi, todas  as garrafas d’água que jogaram em mim, todas as latinhas, todas as vaias. Toda a crítica da família porque todo muito foi contra. Eu fui criada para ser uma policial, cresci para ser uma policial. Com 14/15 anos eu começo a cantar funk putaria. Coisas que eu nem estava vivendo. Eu ia para baile de comunidade, aquela parada. Era a minha bisavó que me criava. Ela me chamou e disse: “Ó, a partir de hoje tu me esquece. Ou o funk ou eu”. Escolhi  o funk e fui sem olhar para trás. Depois casei e o marido fez a mesma pergunta. Escolhi o funk. Então, estar aqui no Rock In Rio é ver que valeu todo o meu sacrifício. Todos esses 9 anos valeram à pena. 

VOZ DAS COMUNIDADES: Como as músicas nascem?

MC CAROL: Eu sempre quero focar em uma história real. Na Mulher do Borogodó, por exemplo, eu estava muito envolvida com um cara, mas não deu certo. O cara queria casar, só que essa não é a minha vibe. Aí pensei em fazer uma música a partir de tudo que estava acontecendo. Primeiro passei a noite chorando, depois fui escrever. Com Propaganda Enganosa foi a mesma coisa. Não que 100% das minhas músicas eu tenha vivido, mas tento pegar alguns acontecimentos e transformar em música. 

VOZ DAS COMUNIDADES: Só neste ano, ocorrem algumas prisões de djs e mcs, como do Dj Rennan da Penha,  numa declarada criminalização do funk. Como você vê essas ações?

MC CAROL: Acho um absurdo à prisão do Rennan da Penha. Acho um absurdo prender artista. Parece que estamos na época da ditadura. Quem não é de comunidade, entende ele como um bandido. Já quem é de comunidade, não o vê dessa forma. A gente sabe como a polícia sobe no morro, atirando a esmo. Então, se você está no pé da comunidade e vê o que está acontecendo, é óbvio que você vai avisar para fulano não passar em determinado lugar, não colocar as crianças para escola. Quem não é de comunidade e não sabe o que acontece, criminaliza.  Mas é aquilo: o jovem é preto, talentoso, está fazendo dinheiro e vai para Dubai. Independente do que vem acontecendo, o cara está concorrendo ao Grammy e continua sendo tocado no Brasil inteiro. 

VOZ DAS COMUNIDADES: Em “Não foi Cabral”, você critica a história oficial do Brasil. O que te motivou a escrevê-la?

MC CAROL: Então, eu era considerada uma aluna muito inteligente, porém era vista como muito rebelde, com o pior comportamento da escola. Era muito contraditório. Numa entrevista eu comentei sobre isso e a pessoa falou que eu era muito tranquila e perguntou com quem eu mais brigava. Respondi que era com a professora de história porque eu não concordo com a história oficial do Brasil, de que chegaram tranquilo  e que foi tranquilo. Isso não aconteceu. Eu sempre batia nessa tecla na sala. A repórter disse que tinha muita gente que também acreditava no não descobrimento do Brasil e falou para eu escrever uma música. Fiquei encabulada e pensei que ninguém ia querer ouvir uma música dessa, mas depois mudei de ideia e escrevi. Hoje é a primeira música do show, eu amo.

VOZ DAS COMUNIDADES: Qual é a diferença de cantar no Rock In Rio e na favela, de público, de estrutura?

MC CAROL: Cara, é muita responsabilidade cantar no Rock In Rio. Nas comunidades que eu cantei o público era menor, não tinham câmeras. A diferença de estrutura é grande.  Cantar aqui é muita responsabilidade, tipo assim: eu estou trazendo muitas pessoas da comunidade que não puderam estar aqui. Então, eu estou representando todas essas pessoas. 

VOZ DAS COMUNIDADES: Há diferença da MC Carol no palco e da Carol na vida?

MC CAROL: Tem muita diferença, muita diferença. A Carolina é tímida, mais quietinha é quase não fala. A MC Carol já é outro bagulho, tá ligado? Já fala, já quebra tudo. Não está nem aí para nada. As pessoas confundem muito Isso, sabe? Às vezes vêm tirar foto comigo no camarim e chegam achando que sou como no palco. As pessoas se assustam um pouco porque acham que o artista é artista o tempo todo. E não. Na vida particular somos mais quietinhos, pelo menos eu sou. 

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EDITORIAS

PERFIL

Rene Silva

Fundou o jornal Voz das Comunidades no Complexo do Alemão aos 11 anos de idade, um dos maiores veículos de comunicação das favelas cariocas. Trabalhou como roteirista em “Malhação Conectados” em 2011, na novela Salve Jorge em 2012, um dos brasileiros importantes no carregamento da tocha olímpica de Londres 2012, e em 2013 foi consultor do programa Esquenta. Palestrou em Harvard em 2013, contando a experiência de usar o twitter como plataforma de comunicação entre a favela e o poder público. Recebeu o Prêmio Mundial da Juventude, na Índia. Recentemente, foi nomeado como 1 dos 100 negros mais influentes do mundo, pelo trabalho desenvolvido no Brasil, Forbes under 30 e carioca do ano 2020. Diretor e captador de recursos da ONG.

 

 

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