Os artistas são amigos de longa data do jornal Voz das Comunidades, desde os primeiros acordes na música. Segurando o violino que conquistou com o apoio do Voz, Gabriel Paixão relembra. “Naquela época, eu nem tinha noção do que estava fazendo, mas o Voz acreditou em mim e hoje faz parte da minha vida. É um jornal feito por favelado para favelado.”
Os Paixão são consagrados nos palcos e concertos. Já tocaram ao lado de grandes nomes da música popular brasileira e participaram do clipe da música “Nova York”, do YOÙN. Gabriel Paixão também esteve no “Show do BK” durante a turnê de Icarus na Apoteose, além de se apresentar no Rock In Rio ao lado do MC Poze do Rodo. O músico não soube escolher se prefere o funk ou rap.

A relação dos músicos clássicos com o Voz das Comunidades começou há cerca de 15 anos, quando Renê Silva publicou a primeira matéria sobre os irmãos e acompanhou, no Casarão de Cultura do Alemão, a entrega de seus primeiros instrumentos, um gesto que simboliza a força da visibilidade e do alcance do jornal.
A partir dali ambos passaram a sonhar com suas próprias asas, impulsionados pela mobilização do jornalismo comunitário, que enxergou os talentos que nascem nas Casinhas, localidade do Complexo do Alemão.
Quando crianças, os irmãos se apresentavam na Estação Palmeiras do Teleférico, no Complexo do Alemão. Começaram a tocar pela ideia do pai, que viu no fluxo de turistas uma oportunidade para ganhar dinheiro e ajudar com as despesas de casa.
Atualmente, profissionais da arte e professores, Gabriel Paixão, 23 anos, é violinista, e Natanael Paixão, 25, toca viola clássica. Juntos, os Irmãos Paixão dedicam-se à música erudita há mais de 12 anos, trajetória que começou na Ação Social Música do Brasil (ASMB).
Gabriel, o mais novo, estuda violino na Unirio e integra a Orquestra Sinfônica Jovem do Rio como “spalla”, o primeiro violino da formação. Já Natanael, o mais velho, segue os estudos na França, no Conservatoire à Rayonnement Régional de Toulouse.

A favela é berço de criatividade e talentos
Natanael afirma que sente orgulho em contar sua trajetória e mostrar que ela vai muito além dos estereótipos sobre favelados e sobre as favelas. Para ele, é essencial acreditar nos talentos que surgem dentro das comunidades. Ele comenta em tom humorado. “Quem diria que eu, uma criança do Alemão como qualquer outra, iria direto na França? Hoje, falo francês e toco viola clássica de arco.”

Natanael não é uma exceção, mas uma representação real do que a favela pode oferecer. Segundo o músico, a maioria das pessoas do território é do bem, e o verdadeiro problema está na falta de oportunidades. Ele acredita que é possível representar a favela como ela realmente é, com verdade e dignidade.
Gabriel destaca o legado deixado pelos projetos sociais que acolhem e incentivam crianças da favela a sonhar e se desenvolver. Ele ressalta como essas iniciativas ajudam jovens a se destacarem em diversas áreas, como o esporte, as artes marciais, o balé e, claro, a música, levando seus talentos para o mundo.
Nos dias de operação, eles saíam para se apresentar no teatro. Eles refletem e destacam. “Ser músico, nesse contexto, era como ser um ator de teatro. A gente entrava no palco para interpretar uma peça, muitas vezes linda, romântica. Com o tempo, aprendemos o que é ser um verdadeiro artista: vestir um personagem. Mesmo que, por dentro, estivéssemos aflitos, especialmente porque sabíamos que havia uma operação acontecendo na nossa favela.”

