No coração da Rocinha, um pedaço de natureza agoniza. O Parque Ecológico, criado em 2012 para ser refúgio verde e área de convivência, virou símbolo de descaso. Lixo espalhado, equipamentos quebrados, ocupações irregulares avançando e uma sensação generalizada de insegurança afastam os moradores. Quem vive ali prefere levar os filhos para brincar no Parque da Cidade, na Gávea, do que arriscar uma tarde no próprio bairro. “Se eu tiver que fazer um piquenique no aniversário do meu filho, é lá. Lá me sinto muito mais segura”, resume Michele Lacerda, educadora e moradora.
A situação é ainda mais dolorosa porque o local carrega uma memória trágica. Foi ali que, em 2013, o pedreiro Amarildo Dias de Souza foi visto pela última vez antes de desaparecer após ser levado por policiais da UPP. Para familiares e vizinhos, o parque deixou de ser apenas um espaço público negligenciado e se tornou um lugar de luto e cobrança. “A gente não entrou aqui para jogar futebol. A gente entrou aqui para gritar, esgoelar por uma pergunta que não teve resposta até hoje: cadê o corpo do Amarildo?”, desabafa Michele. Até hoje, não se sabe oficialmente onde está o corpo. Essa ferida impede que a comunidade ressignifique a área de forma plena.
Além do peso histórico, falta gestão. Moradores relatam que não sabem a quem recorrer para pedir conservação ou autorização para usar o espaço. Governo estadual e municipal empurram a responsabilidade um para o outro. “Não existe um plano de manejo porque não existe responsável”, afirma Victoria Ferreira, do grupo Amigos do Parque Ecológico (APER). Não há equipe de limpeza regular.

A necessidade de moradia na favela é real e urgente. Mas o avanço das ocupações sobre a área do parque tem gerado conflito ambiental. Macacos, tucanos e outros animais perdem espaço e se aproximam das casas. “A gente que está invadindo a casa deles”, observa Victoria.
À noite, o parque fica ainda mais hostil. Não há iluminação pública suficiente, e a proximidade com a UPP, em vez de trazer segurança, intimida. Quem tenta organizar eventos educativos ou culturais vive um sufoco.
Apesar de tudo, há resistência. O APER existe desde 2021. Eles organizam mutirões de limpeza, pintam muros com grafites, fazem pequenas intervenções como um portão de madeira e tentam atrair artistas locais. Já conseguiram revitalizar um parquinho infantil, onde escreveram “Quem ama, cuida”. Mas a falta de apoio institucional dificulta a continuidade. Cada mutirão é uma batalha, o lixo sempre volta, e a paisagem vai se modificando a cada mês.

O governo federal e a prefeitura anunciaram, dentro do programa PAC Periferia Viva, a revitalização de 9 mil metros quadrados do parque. O investimento prometido para toda a comunidade é de R$350 milhões. Contudo, a forma como o anúncio foi feito gerou desconfiança. “Fizeram um evento para comunicar, mas não consultaram a gente. Não sabemos qual lógica vão usar”, critica Victoria. Moradores temem que as intervenções sigam uma lógica de cima para baixo, sem atender às reais necessidades do bairro.
Um exemplo citado é a construção de um terminal rodoviário na entrada da Rocinha. Para erguê-lo, uma árvore foi derrubada. Ninguém perguntou aos moradores se essa era a prioridade. Eles afirmam que faltam creches, escolas, unidades de saúde e, principalmente, espaços seguros de lazer para crianças e adolescentes. Uma pesquisa de opinião simples mostraria que o parque bem cuidado vale mais do que um ponto de ônibus a mais.
Enquanto as promessas oficiais não saem do papel e a indefinição sobre qual esfera de poder deve cuidar do parque permanece, a comunidade segue num impasse. De um lado, a urgência da moradia pressiona por novas construções. De outro, a consciência ambiental e o direito à cidade pedem a preservação da área verde. E, por trás de tudo, a dor de uma família que ainda clama por justiça.
O futuro do Parque Ecológico da Rocinha depende de vontade política e de escuta ativa. Os moradores já mostraram que sabem fazer mutirão. Falta ao poder público fazer a sua parte com plano de manejo, limpeza diária, iluminação e, acima de tudo, respeito à memória e às necessidades de quem vive ali.
Edição: Jonas di Andrade
