Há problemas que atravessam gerações no Complexo do Alemão. Pontes improvisadas, postes caindo, ruas tomadas pela lama, áreas de risco e o descarte irregular de lixo ainda fazem parte da rotina de moradores que aguardam, há anos, por soluções do poder público. Em contrapartida, algumas dessas histórias tiveram outro desfecho: obras saíram do papel, espaços foram revitalizados e reivindicações históricas começaram a ser atendidas.
Para entender o que mudou e o que continua igual, o jornal do Voz das Comunidades revisitou reportagens publicadas ao longo de sua trajetória, voltou aos locais das denúncias, ouviu novamente moradores e procurou órgãos públicos responsáveis pelas demandas apresentadas nesta reportagem.
Capão: uma ponte improvisada que atravessa gerações
Na localidade do Capão, na Nova Brasília, o tempo parece ter parado. Desde 2013, o Voz acompanha as condições de uma das áreas mais vulneráveis do Complexo do Alemão. Em 2021, uma reportagem mostrou que uma cratera aberta pelas chuvas obrigava moradores a improvisarem uma passarela de madeira para garantir a passagem de crianças, idosos e gestantes. A equipe retornou ao local em 2024 e, novamente, em 2026. A estrutura improvisada permanece no mesmo lugar.
Morador da região há 25 anos, Roberto da Silva afirma que, quando chegou ao Capão, a ponte já existia e nunca recebeu manutenção. Segundo ele, representantes da Prefeitura estiveram na comunidade em diferentes momentos e prometeram uma solução que nunca saiu do papel.
“Aí vocês vieram, fizeram uma reportagem, a prefeitura falou que ia fazer uma solicitação para fazer essa ponte. Já tem anos que estamos aguardando a prefeitura fazer. Acho que vão mandar engenheiro para cá, todo mundo, para fazer uma ponte de três metros”, desabafa.
Além da travessia improvisada, moradores convivem com a falta de saneamento básico e com o risco permanente de deslizamentos provocados por imóveis interditados pela Defesa Civil, mas que seguem aguardando demolição.


Travessa Laurinda: quando a comunidade constrói o próprio caminho
Outro retrato do abandono histórico está na Travessa Laurinda, acompanhada pelo Voz das Comunidades há pelo menos uma década. Há mais de 35 anos, lama, esgoto e buracos dificultam o direito de ir e vir sempre que chove. Cansados da espera, os próprios moradores chegaram a organizar mutirões para concretar parte do caminho.
“Aqui está muito abandonado. Buraco, esgoto, mato e ninguém faz nada”, resume o morador Osvaldo da Silva.


Da ausência histórica de investimentos surgiu uma experiência que hoje serve de referência para a construção de políticas públicas no território. Segundo o Instituto Raízes em Movimento, moradores, o Fórum de Ação Popular do Complexo do Alemão e a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ desenvolveram um processo participativo para pensar a urbanização da Travessa Laurinda.
O trabalho começou com um levantamento socioeconômico e ambiental realizado por moradores, estudantes, professores e pesquisadores, que percorreram o território em caminhadas, oficinas e reuniões para identificar problemas e construir um diagnóstico coletivo. A iniciativa resultou em um diagnóstico socioeconômico e ambiental e em um caderno de propostas urbanísticas elaborados a partir da união entre o conhecimento técnico da universidade e a experiência cotidiana da comunidade.
O material deu sustentação técnica à atuação do Fórum de Ação Popular junto ao poder público e contribuiu para que a localidade fosse contemplada pelo Novo PAC, que prevê cerca de R$ 200 milhões em investimentos para o Complexo do Alemão. Para o Instituto, a experiência demonstra que a participação popular deixa de ser apenas consultiva quando os moradores participam da elaboração dos diagnósticos, definição das prioridades e construção das soluções. O desafio agora é acompanhar a execução das obras para garantir que elas permaneçam em diálogo com a população.
Quando a cobrança encontra resposta
Se algumas reportagens permanecem atuais por retratarem problemas ainda sem solução, outras mostram mudanças concretas.
Na Alvorada, uma reportagem publicada em 2021 denunciou o risco de desabamento provocado pelo afundamento do solo e pelas crateras que ameaçavam as casas. Agora, a realidade é outra. A área recebeu obras de recuperação, o terreno foi estabilizado e novas calçadas foram construídas, eliminando o risco que preocupava dezenas de famílias.


No Inferno Verde, o descarte irregular de lixo também deixou de fazer parte da paisagem. Após sucessivas denúncias do Voz das Comunidades, a mobilização garantiu vistorias técnicas, reuniões entre moradores, Comlurb, na pessoa do Presidente da instituição, e Gerência Executiva Local do Alemão. O processo resultou na instalação de caixas compactadoras e reorganização da coleta de resíduos, transformando o espaço e melhorando a circulação dentro da comunidade.


Procurada pela reportagem, a Subprefeitura dos Grandes Complexos informou que realizou vistorias nas localidades do Capão e da Travessa Laurinda para identificar as demandas e planejar as intervenções necessárias. Segundo o órgão, as duas áreas serão contempladas pelo programa PAC Periferia Viva no Complexo do Alemão, que prevê obras de urbanização, saneamento e outras melhorias de infraestrutura. As demais secretarias municipais e estaduais procuradas não responderam aos questionamentos enviados até o fechamento desta edição.
Ao longo de 21 anos, o jornal do Voz das Comunidades acompanhou de perto problemas de saneamento, abastecimento de água, coleta de lixo, iluminação pública, infraestrutura, contenção de encostas e mobilidade, transformando as demandas dos moradores em pautas permanentes e cobrando respostas do poder público. Algumas reivindicações históricas ainda aguardam solução, mas outras comprovam que a mobilização comunitária, aliada ao jornalismo local, pode mudar realidades de diversas favelas cariocas.
