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De geração a geração: A cultura da pesca formou pescadores e profissionais no Vidigal

A prática se tornou uma das principais atividades econômicas na comunidade da Zona Sul do Rio
Foto: Igor Albuquerque / Voz das Comunidades.

A pesca é uma atividade de extração de organismos no ambiente aquático e vem sendo praticada ao longo dos séculos. Inicialmente, percar era de caráter de subsistência, ou seja, o homem utilizava dessa atividade extrativista para complementar sua alimentação sem caráter de venda ou escambo (troca). Com o passar dos anos e, posteriormente, com o surgimento de comunidades, vilas e cidades, o homem iniciou então a produção de alimentos para a comercialização e geração de riquezas.

O Vidigal tem na pesca uma boa opção, tanto para consumo, quanto para venda, por ser uma comunidade à beira-mar. As técnicas mais utilizadas nessa atividade são a rede de espera, a pesca com vara e molinetes e a caça submarina. Geralmente os próprios pescadores comercializam o que sobra do que pescam para consumo próprio, mas existem também os que fizeram dessa ação secular sua profissão.

Pesca, uma paixão 

Alexandre Velho, que conta 60 anos, é o pioneiro e o principal representante dessa modalidade de pesca. Ele pratica desde os 9 anos de idade por influência do seu pai que tinha como hobby a pesca (de lancha e na beira da praia), o que sempre proporcionava encontros com amigos, regados a muita resenha, cervejas e peixes frescos. Desde o início da década de 1990 começou a pescar com rede de espera.

O carismático pescador que cresceu tendo forte atração pelo mar e pela praia se tornou guardião de piscina ainda muito jovem, depois de efetuar diversos salvamentos no mar. Com o dinheiro conseguido com esse trabalho, comprou o seu primeiro barco para ter acesso às ilhas (Cagarras), onde a quantidade de peixes é maior. 

Nessa época, passava de duas a três noites, acampado, pescando e desfrutando da paz e tranquilidade do local, que fica a apenas 4km de Ipanema (um grande centro urbano). Devido a grande quantidade de peixes capturados, parte era vendida, para custear a viagem (pagar despesas com combustível, alimentação e materiais de pesca) e uma parte eles mesmo consumiam. Ainda assim conseguiam um bom lucro.

Velho nunca viveu exclusivamente da pesca, sempre conciliou com a sua rotina de guardião e também vendia quentinhas, porque nem sempre o mar está em boas condições. Isso por conta de que há uma variação grande na quantidade de pescado e na comercialização que, às vezes, é incerta. “Dá pra ganhar dinheiro, mas não podemos nos iludir com isso porque o dia de muito pode ser a véspera do pouco”, ressalta o experiente pescador.

Depois de muitos anos pescando de forma artesanal, com vara e molinete e também com a rede de espera, Alexandre garantiu uma vida simples, sem ganância, porém com muita paz e tranquilidade.

“A pesca é uma paixão onde consigo conciliar o útil ao agradável. Assim consigo ter uma renda e satisfação pessoal. Viver exclusivamente da pesca é muito duro. A possibilidade de sucesso é igual a de fracasso. Dificilmente conseguimos pescar durante um mês inteiro. Estamos sempre dependendo do mar estar em boas condições, de o tempo estar bom, da quantidade de peixes e de todo tipo de intempéries, mas eu sou feliz vivendo assim”, finalizou.

Vivendo da pesca com vara e molinete

Um dos mais brilhantes representantes dessa modalidade é Almir Fernandes, 58 anos, que começou a pescar com 11 anos de idade influenciado pelo pai que transportava munições e soldados para Fortaleza do Laje e Fortaleza de Santa Cruz, na Baía de Guanabara, no período de 1979 a 1982, durante a Ditadura Militar (quando ainda não existia a ponte Rio-Niterói).

Nessa fase aproveitava para pescar nos locais onde o barco de trabalho ancorava, enquanto ajudava seu pai. Acabou descobrindo, assim, que por meio dos peixes que pegava conseguiria algum dinheiro para curtir os bailes, e com o aperfeiçoamento de sua técnica cada vez poderia ter mais dinheiro para conquistar suas coisas.

“Eu percebi que dava para viver da pesca quando a grana que eu ganhava vendendo os peixes que pegava no costão, inicialmente apenas para bancar a minha ida pro baile, começou a crescer. Eu entendi que se eu matasse mais peixes e de melhor qualidade, eu arrumaria mais dinheiro. Foi aí que comecei a investir em equipamentos para melhorar a minha performance”, contou Almir.

Depois de concluir o período obrigatório no exército, em 198, começou a trabalhar na Colônia de Pescadores Z13, tradicional ponto de venda de pescado localizado no Posto Seis da praia de Copacabana. Ficou nesse trabalho até 1989. Depois partiu para desafios maiores, indo pescar em barcos que ficavam por dias no mar. 

Num momento onde a atividade dependia muito do instinto e do conhecimento, ainda não havia tanta tecnologia para navegação e localização dos cardumes, o experiente pescador se destacou e conseguiu comprar seu próprio barco. Depois de alguns anos pescando por conta própria conseguiu também abrir a sua própria peixaria. 

Nesse momento, se dividiu entre a administração do seu empreendimento e a especialização para se tornar mestre de embarcações. Almir então foi levando esses dois projetos, paralelamente, enquanto buscava por um substituto na administração do seu negócio no Vidigal.

Sem um substituto, vendeu a peixaria e partiu para Santa Catarina, visando cumprir o número de horas exigido para obtenção do título de mestre de embarcações. No ano de 2009, quando concluiu o curso, voltou para o Rio para trabalhar no Iate Clube da cidade, onde foi contratado para participar de torneios e também como guia de pesca.

Atualmente é Mestre de Embarcações e Guia de Pesca Profissional. Faz também consultoria de materiais de pesca, montagem de materiais, equipa embarcações e leva pessoas para pescar. Sempre que pode está pescando e se divertindo com a rapaziada antiga pelo costão do Vidigal.

Pesca debaixo do mar 

Marcos Vinicius, 51 anos, também conhecido como “cachorrão”, morador do Vidigal, pratica a caça submarina há 35 anos e escolheu trabalhar nesse ramo como autônomo porque trabalhar de carteira assinada não proporciona uma boa renda e ele não conseguiria levar a vida da maneira que deseja.

No mergulho também conseguiu boas amizades e, apesar de ainda não viver tão bem quanto queria, ainda assim acha melhor que a vida de assalariado. “Eu aconselho os mais jovens, de 15, 20 anos, a praticarem esse esporte porque é um esporte maravilhoso em que, além de você estar de bem com a vida e conseguir uma renda bem melhor do que trabalhando para os outros, podemos fazer boas amizades e pegar peixes bons. Quem quiser aprender, de verdade mesmo, é só cair em cima porque é um esporte muito legal e te afasta do lado ruim da vida”, contou Marquinhos “cachorrão”.

Seus principais clientes são restaurantes da Zona Sul e vende também para o pessoal da comunidade (com preços mais acessíveis). Ele procura os restaurantes quando tem o pescado. 

Para quem gosta de comer aquele peixe ou frutos do mar, aqui vai uma dica:

Thiago Theeje é dono de uma peixaria na entrada do Vidigal. Ela fica na Avenida Presidente João Goulart, número 131, (ao lado do nosso drink).

Lá ele vende: Corvina; Tilápia; Camarão cinza e VG; Filé de linguado; Merluza; Pescadinha; Sardinha; Lula; Polvo.

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EDITORIAS

PERFIL

Rene Silva

Fundou o jornal Voz das Comunidades no Complexo do Alemão aos 11 anos de idade, um dos maiores veículos de comunicação das favelas cariocas. Trabalhou como roteirista em “Malhação Conectados” em 2011, na novela Salve Jorge em 2012, um dos brasileiros importantes no carregamento da tocha olímpica de Londres 2012, e em 2013 foi consultor do programa Esquenta. Palestrou em Harvard em 2013, contando a experiência de usar o twitter como plataforma de comunicação entre a favela e o poder público. Recebeu o Prêmio Mundial da Juventude, na Índia. Recentemente, foi nomeado como 1 dos 100 negros mais influentes do mundo, pelo trabalho desenvolvido no Brasil, Forbes under 30 e carioca do ano 2020. Diretor e captador de recursos da ONG.

 

 

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