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Ruas de sobrevivência: mulheres na prostituição em Medellín e no Rio

Direito à cidade e ao trabalho é para quem?

Anne, trabalhadora do sexo da Vila Mimosa. Foto: Leticia Gonçalves
Anne, trabalhadora do sexo da Vila Mimosa. Foto: Leticia Gonçalves
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Em Medellín, na cidade colombiana, ao redor da Praça Botero, é marcante como a prostituição ocupa o espaço público de forma explícita: mulheres, muitas vezes jovens, circulam e se posicionam nas ruas diante das lojas, entre museus, esculturas, turistas e igrejas. O corpo feminino, nesse contexto, se torna parte da cidade.

Em contraste, as imagens de Las Vírgenes espalhadas pelas ruas, mostram uma espiritualidade católica que santifica a mulher, criando uma tensão entre o corpo sagrado e o corpo profano.

Já no Rio de Janeiro, a experiência é outra: a sensação é de que essas mulheres “desapareceram” das ruas. Não que a prostituição tenha deixado de existir, mas ela parece ter sido empurrada para espaços menos visíveis, mais marginais e até mesmo, em serviços virtuais. Surge então a provocação: por que o corpo da prostituta desaparece do espaço urbano carioca, enquanto em Medellín ele permanece uma presença pública?

Para compreender esse cenário, é preciso olhar para a história da prostituição de rua no Rio de Janeiro, que possui registros documentados desde 1860, ainda no período do Brasil colônia. Entre as décadas de 1910 e 1960, a Zona do Mangue, atual Cidade Nova, onde hoje está localizada a Prefeitura do Rio, foi o principal palco da vida noturna carioca e sociabilidade. Nesse espaço, muitas mulheres exerciam seu trabalho, acompanhando o crescimento e as transformações socioeconômicas do país.

Com o passar do tempo, a região foi marcada pela especulação imobiliária, impulsionada por processos de gentrificação e políticas de “higienização” que expulsaram populações empobrecidas e grupos marginalizados das áreas centrais da cidade. Esse movimento resultou também na expulsão das prostitutas da Zona do Mangue, com ameaças de mortes e violências.

Nesse contexto, surgiram importantes movimentos de organização e luta. Em 1987, foi realizado o 1º Encontro Nacional de Prostitutas, considerado um marco fundamental na articulação política da categoria. Entre as principais lideranças estava Gabriela Silva Leite, socióloga, prostituta e ativista, que dedicou sua trajetória à defesa dos direitos das trabalhadoras do sexo. Além de organizar o encontro, ela criou a ONG Davida, no Rio de Janeiro, instituição voltada à promoção dos direitos humanos das profissionais do sexo, ao combate ao estigma e à busca por melhores condições de trabalho.

Em 1990, as prostitutas migraram para a Zona Norte da cidade, na região da Praça da Bandeira, onde se consolidou o Complexo da Vila Mimosa, um lugar mais escondido. A prostituição nesse território ocorreu em meio a conflitos e resistências por parte das famílias que já moravam na área, mas, pouco a pouco, elas começaram a se estabelecer em cortiços improvisados, dando forma a um novo espaço de trabalho e sobrevivência.

Atualmente, a Vila Mimosa abriga não apenas bordéis, mas também bares, barbearias, mesas de sinuca, lojas de produtos de beleza e pequenos comércios populares, formando um ambiente urbano diverso e de intensa convivência cotidiana. Nesse espaço, cerca de 100 trabalhadoras do sexo exercem suas atividades, mantendo viva a função histórica e social da região.

É interessante notar que outros locais de boemia, como a Lapa, a Glória e Copacabana, também foram, durante muito tempo, pontos centrais da prostituição de rua. Esses espaços movimentavam a vida urbana, com a presença constante de trabalhadoras do sexo entre carros, esquinas agitadas e boates, o que trouxe a sensação de circulação maior de pessas e segurança.

Entretanto, nos dias atuais, essa realidade mudou: a presença das prostitutas praticamente desapareceu das noites cariocas nessas regiões. Isso se deve, em parte, às políticas de combate ao turismo sexual e, em parte, a estratégias que buscam mantê-las invisibilizadas e afastadas dos circuitos turísticos, para não interferirem na imagem da cidade, em sua economia e nos grandes investimentos voltados à moradia de famílias.

Assim, a prostituição como ocupação dos espaços urbanos abre uma discussão crucial: quem pode ocupar a cidade e em quais condições? O corpo da prostituta escancara o conflito entre moralidade, economia e direito à cidade. Ao desaparecer das ruas, apenas se desloca para margens físicas ou digitais, revelando os mecanismos seletivos de visibilidade que o poder urbano impõe.

Nas entrelinhas das esquinas

A organização social Putamente Poderosas surgiu em 2019, na cidade de Medellín, trazendo como ponto central a luta por direitos humanos e à luta de profissionais de sexo nas ruas e suas famílias. O coletivo oferece acompanhamento psicológico para essas profissionais e seus familiares, além de promover o acesso a direitos básicos. Atua também diretamente no combate ao estigma e às representações negativas sobre essas mulheres.

Em entrevista com a Karen Tatiana Arboleda Penagos, ativista trans do trabalho sexual, ela afirma que o trabalho sexual de rua vem dá sobrevivência. O que implica diretamente em política de saúde para essa população, que muitas vezes precisa mentir sobre sua atividade para conseguir atendimento digno. Além disso, há custos semanais de cerca de 25 mil pesos para garantir um espaço onde possam trabalhar, locais que, em muitos casos, sequer distribuem preservativos ou camisinhas.

A ativista continua: se existe regulamentação da profissão sexual, também deveriam existir direitos trabalhistas garantidos para a categoria. Na prática, porém, isso não acontece. As violências são constantes, resultado de uma sociedade patriarcal, e se manifestam em assédios, agressões, água fria, discursos punitivos, falta de garantias, perseguição policial, entre outras formas de abuso.

Há cerca de 600 mulheres trabalhadoras do sexo no bairro de La Vera Cruz, número significativo, e que se entrelaça a história da Karen, ela conta que teve a prostituição como trabalho provisório, juntou um dinheiro e se especializou em confeitaria. Depois, viu que não gostava dos doces e seguiu na política e nas lutas.

Para ela, as ruas de Medellín conhecida como Zona Rosa foram além de um espaço de trabalho: tornou-se um lugar de aprendizado e liberdade, principalmente, por sua vivência de mulher trans, onde podia ser quem quisesse ser. Ao recordar as noites no local, descreve as mulheres de salto alto, batom vermelho, maquiagem marcada e roupas sedutoras. “Parecia um verdadeiro Fashion Week”, resume, ao comparar as prostitutas na rua com os grandes desfiles de moda.

“En la calle podía ser quien quisiera ser, tenía armas para defenderme. En la calle hay reglas: cuidarse, pagar lo que toca y que todas se defiendan entre sí”, declara Karen.

Las tres exmosqueteras. Foto: Juan Fernando Spinoza

Uma Noite na Vila Mimosa

A prostituição de rua acontece, mesmo num dia chuvoso. Mulheres de saltos, sensualizando de roupas transparentes e biquínis, com cabelos longos, outras de cabelos curtos, se exibem em frente aos bares, bebem com seus clientes e dançam. O público masculino é predominante, homens mais velhos, mais novos, passam nas ruas e são chamados por elas. Músicas altas, bebidas, cigarros e luzes coloridas ambientalizam a atmosfera da Vila Mimosa.

Anne, de 22 anos, que atua na Vila Mimosa há três anos. Ela diz que prefere às ruas. “Pessoalmente, a gente consegue desenvolver muitas coisas, entendeu? O diálogo, a sedução. Na internet é diferente, porque o que entra na internet não sai nunca mais, e tem muita gente falando merda”, afirma a trabalhadora do sexo.

“Muitos caras, por incrível que pareça, gostam muito de ser tratados bem. Eles gostam da simpatia da mulher, eles gostam de sentir isso pessoalmente e até isso, faz falta. Porque as mulheres acham que é só chegar e fazer sexo, mas não é isso”, comenta Anne sobre a expectativa do clientes.

Segundo Anne, muitas mulheres deixaram as ruas para trabalhar pela internet, o que resultou na diminuição tanto do número de clientes quanto da presença de prostitutas nos espaços de prostituição de rua. Ela ressalta que muitas mulheres que atuam na internet se entendem como prostitutas, mas desconhecem grande parte da realidade das ruas. Como afirma: “Hoje em dia, muita gente se categoriza como prostituta, e não tem vivência da profissão.”

Para Anne, a rua proporciona poder e autonomia. A casa noturna oferece apoio e estrutura: caso um cliente não trate bem a trabalhadora, ele é retirado do local e, muitas vezes, recebe punições. Ela observa que muitos clientes agem como se estivessem na internet, mas a rua possui suas próprias regras de convivência.

O termo “nome de guerra” é utilizado em uma regra de convivência das ruas, especialmente no contexto da prostituição, para criar uma separação entre a vida profissional e a vida pessoal. “Anne”, por exemplo, é o nome de guerra de Lorrane. Ela explica:

“Eu gosto de ter esse distanciamento. Se a gente está com a família ou com o filho, é estranho. O nome de guerra cria esse espaço. Muitas mulheres trabalham e ninguém da

família sabe, então imagina falar o nome verdadeiro para alguém e depois ser gritado na rua por ele. Até os clientes, às vezes, também usam nomes de guerra.”

Como pontua Anne, ao falar sobre a dinâmica do trabalho: “As meninas colocam o preço e definem o seu tempo. A gente pode escolher. Podemos chegar e ir embora na hora que quisermos, até mesmo dormir aqui. As meninas são muito acolhedoras umas com as outras.”

A prostituição de rua está, em grande parte, ligada à necessidade de sobrevivência e, por isso, tende a ser uma atividade transitória. Conciliar essa rotina intensa com a maternidade, porém, representa um desafio crescente. Nesse contexto, há um ano, Anne decidiu deixar o filho de cinco anos sob os cuidados do pai.

Ela concluiu o ensino médio, tirou seu passaporte e afirma que toda a sua família conhece sua profissão. E comenta: “Nunca tive receio. Não sou preconceituosa com a minha própria profissão. Eu me sustento, entendeu? Não preciso pedir nada para ninguém. Acho que isso é o mínimo. É como qualquer outro trabalho. É o meu corpo.” Com essa postura, Anne enfrenta de forma direta os estigmas associados à sua atividade.

Representações de trabalhadoras do sexo

A prostituição online inaugurou um novo marco na forma de se relacionar com a cidade. O mercado virtual está em expansão e levou muitas mulheres a deixarem as ruas. É importante notar que o mundo virtual oferece certos privilégios, como trabalhar de casa, reduzir vulnerabilidades e dispor de equipamentos adequados para gravação. A ativista Karen ressalta que essa modalidade, para ela, se aproxima do que se entende como pornografia e conteúdo adulto.

É importante trazer à discussão a ideia de “Las putas en la mesa”, apresentada por Karen, ao analisar representações e filmes, mas sem adotar a perspectiva de salvadores ou reduzir as mulheres apenas ao papel de vítimas. Essa abordagem não humaniza nem confere dignidade às trabalhadoras do sexo. Na prática, como esclarece Anne, muitas pessoas têm medo da presença das prostitutas, como se elas representassem alguma ameaça iminente para a sociedade.

Anne, prostituta do Rio de Janeiro, ressalta que as mulheres da profissão não se veem como vítimas: “Eu acho que a gente não tem esse lugar de vítima, de mulher que sofre. Por mais que a gente batalhe muito para estar aqui e trabalhar, às vezes é complicado, mas a gente não tem esse sofrimento todo.”

Ela contou que, em um dia bom de trabalho, estava com um turista estrangeiro e não precisou transar com ele. Bastou dançar e conversar, e chegou a ganhar mais de mil reais apenas trocando ideias. Ela destacou que muitas pessoas acreditam que é necessário ter relações sexuais para fazer um dinheiro bom.