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‘Rei da Fazenda’: empreendedores trazem o nordeste para o centro do Vidigal

Casal baiano viu na saudade da terrinha natal uma oportunidade de crescimento e negócio
Foto: Igor Albuquerque / Voz das Comunidades

Quer comer um acarajé? Ô meu rei! Na Avenida João Goulart, número 806, principal via de acesso ao Vidigal, é só subir que o cheiro de dendê guia o caminho daqueles que buscam matar a saudade da terrinha! Em 8 de outubro é o Dia do Nordestino. E para comemorar contamos a história do casal Maquileide de Hungria, 35 anos, e Sieliton de Hungria, 30 anos, proprietários da loja “Rei da Fazenda“, um pedaço do nordeste no Vidigal.

Como tudo começou

Sieliton conta que tudo começou durante a pandemia, quando ele resolveu sair do seu antigo emprego de gestão e empreender. Então o casal iniciou com a venda de ovos e, logo em seguida, perceberam a necessidade de muitos nordestinos que vivem com saudade das suas terras natais. Já era um costume do casal em suas viagens à Bahia trazer comidas típicas do nordeste. Assim, antes de irem para lá, perguntavam aos clientes o que eles sentiam mais falta e viram a chance de criar um comércio para atender a população. 

A loja nordestina começou com seis produtos: queijo, farinha, bejú, cocada, mel e polpas de frutas. Com o tempo conseguiram fornecedores de outros Estados e agora, “aqui tem um pouco de tudo, tem Bahia, Maranhão, Paraíba, Ceará”, conta Sieliton. Os produtos são realmente variados, mas o destaque fica para o responsável pelo cheiro de dendê que perfuma o ambiente. O Acarajé caprichado é servido todas as sextas-feiras e sábados à noite. 

Prato típico da culinária baiana e de origem africana, ele é feito de massa de feijão-fradinho com cebola, camarão, quiabo, tomate e vatapá. A clientela aprova e adora. Inclusive, durante a entrevista vimos clientes procurando pela iguaria que custa R$15. “Comecei fazendo na igreja” conta Maquileidei. Em seguida diz o que gosta de usar. “Eu gosto de usar camarão defumado. A gente compra e defuma o camarão, mas quando não tem, eu uso o seco. Prefiro o defumado porque fica mais gostoso”, explica a comerciante.

Quem são os ‘Reis da Fazenda’?

Nascidos no sul da Bahia, Maquileide e Sieliton se conheceram em uma viagem de ônibus. Enquanto Sieliton se destinava a São Paulo em busca de trabalho para comprar uma casa, Maquileide voltava de férias para o Rio de Janeiro depois de rever a sua família. E de uma casa, saiu um casamento! Hoje, 12 anos depois, o casal tem três filhas, duas gêmeas de 6 anos e a mais nova de dois anos, “a raspa do tacho”, brinca a mãe.

Maquileide estuda administração na Universidade Fael em Rio das Pedras. Ela que já trabalhou como feirante na Bahia, conta que veio ao Rio de Janeiro para mudar de vida “não era aquilo que eu queria, eu sempre gostei de trabalhar com administração, e quando Sieliton veio me falando da loja, foi diferente porque seria nosso”, explica. Sieliton também deixou o nordeste em busca de melhorias.

Foi criado pela mãe, Valdenice, junto com seus três irmãos e não teve o pai presente, precisando amadurecer cedo. Trabalhou em uma padaria onde aprendeu o ofício de padeiro, vindo a se tornar chefe de panificação e professor de panificação em outro emprego. “Quem me deu a passagem para eu ir para São Paulo foi meu ex-patrão, que eu chamo ele de pai, a mulher dele chamo de mãe, porque me ajudaram muito”, conta. Também é educador físico e atleta de mountain bike, uma modalidade esportiva de ciclismo em montanhas. Todas essas profissões não trouxeram para Sieliton a realização que ele tem hoje em dia com a loja nordestina. “Eu trato os clientes do jeito que eu gostaria que me tratassem. Às vezes eles chegam aqui na loja e querem conversar, nunca um cliente entra aqui e compra e vai embora. Sempre tem essa conversa. Então eles acabam se tornando amigos”, comenta.

O nordeste no Vidigal

Para conseguir trazer as mercadorias, o casal conta que às vezes eles mesmos vão buscar direto na Bahia a cada 15 dias, e os fornecedores também enviam pelos ônibus de viagem ou transportadora. Ele conta que cada região tem sua particularidade. Por exemplo, os maranhenses não gostam da farinha branca, de mandioca. Comem apenas farinha amarela, grossa e os clientes podem escolher a quantidade que querem levar. “Geralmente a gente tem 10 tipos de bolachas. A gente não vende só o pacote fechado, vendemos o varejo porque percebemos que seria mais acessível. Temos uma cliente que vem aqui todo dia e compra duas bolachas”, conta Sieliton.

Planos para o futuro

Maquileide e Sieliton sonham em aumentar a loja para poder ter mais produtos e espaço para os clientes. No momento o espaço é alugado por R$ 1.600. Inclusive, essa era uma das principais preocupações do casal antes de abrirem o comércio. “Aqui no Vidigal muitos comércios fecham as portas porque o aluguel é muito caro. As pessoas não conseguem pagar”, conta Maquileide. No momento ainda não tiveram muito lucro com a loja, mas Sieliton conta que já fazem por mês o aluguel ser apenas 10% da despesa do estabelecimento. Para o futuro, ele brinca “o primeiro ano é de provação, o segundo aceitação dos clientes, no terceiro vem o lucro!”. Uma das novidades que está por vir entre os produtos é o açaí natural. Será que vem aí uma casa do norte? Vamos acompanhar! 

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EDITORIAS

PERFIL

Rene Silva

Fundou o jornal Voz das Comunidades no Complexo do Alemão aos 11 anos de idade, um dos maiores veículos de comunicação das favelas cariocas. Trabalhou como roteirista em “Malhação Conectados” em 2011, na novela Salve Jorge em 2012, um dos brasileiros importantes no carregamento da tocha olímpica de Londres 2012, e em 2013 foi consultor do programa Esquenta. Palestrou em Harvard em 2013, contando a experiência de usar o twitter como plataforma de comunicação entre a favela e o poder público. Recebeu o Prêmio Mundial da Juventude, na Índia. Recentemente, foi nomeado como 1 dos 100 negros mais influentes do mundo, pelo trabalho desenvolvido no Brasil, Forbes under 30 e carioca do ano 2020. Diretor e captador de recursos da ONG.

 

 

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