O pequeno José Carlos da Silva, de apenas 10 anos, foi levado pelo pai à UPA do Complexo do Alemão no dia 18 de julho com sintomas de enjoo e dor de cabeça. Após horas de espera e duas medicações diferentes aplicadas por plantões distintos, o menino foi liberado para casa ainda naquela noite, segundo a família. Na manhã seguinte, foi encontrado morto.
O pai da criança, José Inácio da Silva, de 39 anos, acusa a UPA do Alemão de negligência médica e erros nos procedimentos adotados pela equipe da unidade de saúde. “Liberaram meu filho mesmo sem fazer exame de sangue, sem investigar direito. Horas depois, ele amanheceu morto”, relata, emocionado.

Atendimento superficial e troca de plantão
Segundo José Inácio, os sintomas iniciais pareciam simples: vômito e dor de cabeça na parte de trás da cabeça. Ele levou o filho para a UPA no meio da tarde, após sair do trabalho. José Carlos passou pela triagem e foi atendido por um médico do primeiro plantão, que, segundo o pai, apenas fez perguntas, examinou a garganta e prescreveu soro, dipirona e metoclopramida.
“O médico nem pediu exame de sangue. Só aplicaram soro e injeção. Fiquei com meu filho lá até umas 10 da noite”, conta.
Com a troca de plantão, um segundo médico assumiu e decidiu aplicar uma nova medicação, desta vez prometazina, injetada no glúteo da criança. “A gente esperou mais 20 minutos numa salinha e depois fomos liberados. Ele saiu andando, parecia bem.”

“No dia seguinte, meu filho estava durinho”
O que parecia ser apenas o efeito dos remédios se revelou trágico. “Quando chegamos em casa, ele estava sonolento. Achei que era fraqueza ou efeito do soro. Só queria deitar. No dia seguinte, quando fui ver, ele já estava durinho”, relata o pai.
José voltou imediatamente à UPA com o corpo do menino nos braços. “Cheguei desesperado, procurando médico. A mulher que me atendeu disse que não tinha médico naquele momento porque estavam em troca de plantão. Ela falou que ele chegou morto. Não me deixaram entrar na sala vermelha.”


Segundo o pai, a unidade apenas entregou um documento para registrar o óbito na 22ª DP. O corpo foi levado ao IML, e até agora a família aguarda o laudo da autópsia.
“Ninguém da UPA explicou nada. Nenhum exame foi feito. Foi tudo no ‘olhômetro’.”
O que diz a Secretaria de Saúde do Rio
A equipe do Voz das Comunidades entrou em contato com a Secretaria de Saúde do Rio, que em nota afirmou que a coordenação da UPA Alemão lamenta o falecimento de José Carlos e que solicitou o encaminhamento do corpo ao IML, para esclarecimento da causa do óbito.
Ainda de acordo com a Secretaria, “José Carlos deu entrada no dia 18 de julho apresentando dores de cabeça e na nuca, náuseas e vômitos. Foi avaliado pelo pediatra, que seguiu os protocolos de atendimento para os sintomas apresentados. A medicação usada foi administrada em doses apropriadas para crianças de sua idade e ele recebeu alta após estabilização do quadro. Infelizmente, no dia seguinte o menino foi levado de volta a unidade, porém já chegou em óbito. Nesta manhã, dia 19, havia dois médicos pediatras no plantão.“
A Secretaria afirma também que “todas as informações sobre o quadro, sintomas e medicação usada são registradas no prontuário dos paciente. Desta forma, na mudança de plantão, o médico que assume tem acesso a todas as informações sobre o caso e o tratamento dado anteriormente.“
Emocionado, José finaliza o relato com um pedido por justiça: “Meu filho foi lá no hospital buscar ajuda e saiu de lá morto. Não quero que outra família passe por isso. Ele era só uma criança. Merecia mais.”
Família busca justiça
Segundo José Inácio, pai da criança, a família está buscando apoio com a Defensoria Pública do Rio de Janeiro e com o Ministério da Saúde. Em relação ao Ministério da Saúde, o pai afirma: “Consegui falar com o Ministério [da Saúde], pediram nome dos médicos e o CRM.”
A equipe do Voz das Comunidades entrou em contato com a Defensoria Pública, a fim de entender se já receberam contato e se já foi feita alguma orientação. Em resposta ao Voz, a Defensoria Púbica orientou que a família buscasse informações sobre os canais de comunicação no site, para solicitar apoio jurídico: https://defensoria.rj.def.br/Servicos/servicos-plantao.
O Voz também realizou contato com o Ministério da Saúde para entender quais foram as orientações neste contato e quais serão os próximos passos. Até o momento, não obtivemos respostas, mas seguiremos acompanhando e faremos atualizações.
