Escrito por Vanessa Campos
Festividades populares são muito mais que entretenimento e estética. No Norte, elas também ensinam e mobilizam, evidenciando como a cultura é uma poderosa ferramenta de educação ambiental e de preservação dos territórios.
Um grande exemplo disso é o Festival de Parintins, no Amazonas. Muito além da disputa entre os bois Garantido e Caprichoso, o espetáculo se tornou palco de manifestações políticas, denúncias e posicionamentos frente às grandes destruições ambientais que impactam a vida das populações. Os cantos, as narrativas e os itens que se apresentam no bumbódromo trazem mensagens de respeito à floresta e reafirmam que a vida só é possível em equilíbrio com a natureza.
No Pará, o Sairé de Alter do Chão também expressa a relação pura entre cultura e território, unindo devoção espiritual, ancestralidade e conexão direta com o Rio Tapajós, que banha a aldeia dos indígenas Borari, onde a festa é realizada. Os mastros, os cantos e as danças lembram que o vínculo com as águas, as matas e os encantados é parte fundamental da vida comunitária. Ao celebrar tradições e memórias, a festa popular nos ensina a preservar os laços com o território e a reconhecer a espiritualidade presente no cotidiano, enquanto o espaço em que isso acontece é respeitado como sujeito vivo.
Outro exemplo marcante está nas letras de carimbó. Muitas canções falam sobre igarapés, tipos de peixes, árvores, seres encantados e experiências de vida em harmonia com a natureza. Na rotina musical, a floresta se transforma em poesia: exaltando sua beleza e, ao mesmo tempo, alertando para a urgência de sua proteção. Ao girar as rodas e as saias, o carimbó reafirma a potência da coletividade e a força da cultura como prática de cuidado.
Essas expressões revelam que a educação ambiental na Amazônia não se resume a livros, cartilhas ou palestras em salas fechadas. Ela brota no chão dos encontros comunitários, nas danças e na oralidade. Cada manifestação é uma aula viva sobre como a cultura popular só existe se houver bem viver, e que não existe arte neutra em territórios frequentemente ameaçados pela ganância de grandes empreendimentos.
Defender a cultura amazônica é também defender o planeta como casa comum. Aqui, cultura e meio ambiente não caminham separados: eles coexistem e se fortalecem mutuamente, ensinando que cuidar da natureza é cuidar da própria vida.
Vanessa Campos
Publicitária, nascida em Santarém, território Tapajônico. Atua como criadora de conteúdo digital, com foco em cultura popular e meio ambiente. Atualmente, é coordenadora de comunicação do projeto Telas em Rede e gestora de conteúdo da Cúpula dos Povos Rumo à COP30. Também integra os grupos de carimbó As Karuana e Tamboiara Amazônia, fortalecendo a arte e a resistência cultural na Amazônia Paraense

