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“Nós vai tirar a organização da mão desses playboy”

Foto: Hugo Mesquita
Foto: Hugo Mesquita

Que o Rep Festival foi um fracasso, isso a internet já está cansada de saber. Entre os memes e manifestações revoltadas, restou uma possível multa de R$12 milhões para a organização do evento.

Um lamaçal de problemas.

Original da Pavuna e respirando a Baixada Fluminense, Luis Felipe Borges Campos (conhecido como BORGES) disse aquilo que muita gente queria ouvir durante o seu show ao anunciar um possível ‘Mainstreet Festival’ – Mainstreet é o nome da gravadora independente que ele faz parte, uma produtora que tem lançado alguns dos principais hits do trap carioca, envolvendo nomes como Poze do Rodo, Orochi, Bin e outros.

“Pediram pra mim não falar, tá ligado? Mas eu vou falar: mó descaso tudo que tá acontecendo, tá ligado? Digo mais: nós vai tirar a organização da mão dessa p*rr* desses playboy (…) Cambada de irresponsável, p*rr*” – Borges, durante sua apresentação no Rep Festival

Após a euforia de um horizonte agitado que aguarda a cena do rap neste ano, alguns questionamentos precisam vir à tona desde já, antes que o possível festival aconteça. Oras, a Mainstreet é formada essencialmente de gente periférica, da favela mesmo. Será que o seu festival traduziria essa estética e também seria possível para o povo da periferia? Será que ele aconteceria na periferia?

O Rep Festival é uma iniciativa pop, nascida e criada em escritório, por empreendedores que enxergaram uma possibilidade pra fazer grana. São pessoas que estão em busca de boas oportunidades de negócio e talvez não tenham em mente que o rap faz parte de uma cultura muito maior: o hiphop. Produzir algo com essa proporção usando um dos elementos dessa cultura envolve respeitar a história e abrir espaço tanto para talentos com um futuro promissor quanto para os que têm um passado glorioso – não somente reunir o hype, mas pensar no legado para a cena. Envolve ouvir o que as ruas têm a dizer e agir em comunidade. Mas as coisas foram totalmente diferentes disso.

Por isso, a melhor maneira de enfrentar o Rep Festival é voltando às origens, lembrando de onde isso tudo veio e entendendo como chegamos aqui.

Um Mainstreet Festival precisa lembrar do Orochi rimando pra mãe dele na cozinha de casa. Precisa celebrar o Borges, quando era um menino cheio de sonhos ainda desconhecido até lançar um som revolucionário sobre uma arma e o seu time do coração como forma de grito de desespero contra um modelo de sociedade que torna mais fácil puxar um plantão do que conseguir um estágio.

Não dá pra apagar esse fogo com mais fogo. É fundamental que o discurso e a ação sejam diferentes. Precisa ser sobre desbravar o território, desbloquear as entradas dos lugares, fazer a playboyzada da sul e da Oeste virem até nós aqui na Norte e na Baixada. Isso envolve acesso ao ingresso (preço e condição de compra), logística pro lugar, pensar no fluxo que esse evento deseja causar.

Há alguns anos me envolvi com a realização de alguns festivais e festas de rap/hiphop. Até quando as coisas iam errado, a gente resolvia dentro do fundamento da cultura hiphop. Era o máximo respeito na prática. Hoje não me envolvo mais com isso e me sinto como um ex jogador de futebol comentando o esporte na TV. Não joga mais bola, mas continua entendendo do assunto.

Mas tem um assunto presente em tudo que faço e preciso dividir com o leitor do Voz das Comunidades: enxergar a periferia como DESTINO e não só como passagem.

Precisamos transformar a periferia na rua principal – Mainstreet, poxa!

P.S.: Quem quiser falar que eu tô me aproveitando da situação do Rep Festival? Tô mesmo!

Wesley Brasil, 37 anos
Baixada Fluminense até o osso. É comunicador e colabora com diversos veículos de imprensa e coletivos culturais. Fundou o Site da Baixada em 2006, se tornando uma plataforma de conteúdo que mobiliza pessoas a favor do seu território. Atual Colunista do Vozes em pauta do Voz das Comunidades

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EDITORIAS

PERFIL

Rene Silva

Fundou o jornal Voz das Comunidades no Complexo do Alemão aos 11 anos de idade, um dos maiores veículos de comunicação das favelas cariocas. Trabalhou como roteirista em “Malhação Conectados” em 2011, na novela Salve Jorge em 2012, um dos brasileiros importantes no carregamento da tocha olímpica de Londres 2012, e em 2013 foi consultor do programa Esquenta. Palestrou em Harvard em 2013, contando a experiência de usar o twitter como plataforma de comunicação entre a favela e o poder público. Recebeu o Prêmio Mundial da Juventude, na Índia. Recentemente, foi nomeado como 1 dos 100 negros mais influentes do mundo, pelo trabalho desenvolvido no Brasil, Forbes under 30 e carioca do ano 2020. Diretor e captador de recursos da ONG.

 

 

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