Ser indicado ao Prêmio PIPA, considerado o principal “termômetro” da arte contemporânea no Brasil, costuma ser um divisor de águas na carreira de qualquer artista. Mas se essa valorização vem para quem é cria de favela, o peso é ainda maior. Para Affonso DaLua, fotógrafo e comunicador nascido e criado na Nova Holanda, o reconhecimento vai além do currículo: é a validação de dez anos de um mergulho profundo no “imagético popular” do Conjunto de Favelas da Maré.
Diferente de outros prêmios, no PIPA não há inscrição. O artista é “escolhido” por um comitê de especialistas que monitora quem está produzindo arte de impacto social e político no país. Para Affonso, a notícia carrega a força de quem constrói a própria trajetória a partir do território.
Um dos diversos trabalhos de Affonso DaLua – 2 0 25 – PERFORMANCE BRILHETES DA NH / Foto: Arquivo pessoal
A fotografia como “Tecnologia de Afeto”
Affonso define seu trabalho como uma “tecnologia favelada de afeto”. Ao longo de uma década, ele transformou a câmera em uma ferramenta de resistência para pautar narrativas sobre corpos LGBTQIAPN+ e periféricos, enfrentando fobias e rompendo com a visão estereotipada da favela.
Seu portfólio explode os conceitos da fotografia tradicional. Com cores vibrantes, o uso estratégico do azul e do laranja e intervenções digitais, o artista cria cenas que misturam o real e o onírico, mostrando que a vida favelada é repleta de possibilidades.
Sua opinião importa
“Minha arte tem um poder de impacto visual tanto no imagético popular das favelas da Maré quanto no mercado da fotografia popular”, destaca o artista.
2023 – FOTOPERFORMANCE – RESIDÊNCIA IMS RIO CORPA FESTA – Foto: Arquivo pessoal
Ocupação do território e reconhecimento global
A trajetória de Affonso é marcada pela ocupação do espaço público. Em 2019, o Projeto EEER realizou performances em pontos historicamente LGBTfóbicos da Maré, afirmando o direito de existência desses corpos no território. Mais recentemente, em 2023, o artista levou a fotografia para as Bandeiras, ressignificando os mantos de torcidas organizadas para transformar as ruas da favela em galerias de arte a céu aberto.
“Hoje a fotografia está para mim como o principal meio de me comunicar artisticamente e de me colocar quanto pessoa pensante de novos caminhos para políticas públicas, para a construção de narrativas que pautem a favela a partir de quem vive nela”, afirma.
Esse trabalho, que pulsa a vivência da Nova Holanda, já atravessou fronteiras:
Exposições Internacionais: Já levou sua arte para Hamburgo (Alemanha), Montevidéu (Uruguai) e tem previsão de desembarcar na França em 2025.
Grandes Instituições: No Brasil, suas obras já ocuparam espaços como o Museu de Arte do Rio (MAR), o Museu do Amanhã e o Instituto Moreira Salles (IMS).
Prêmio Shell: Em 2023, sua pesquisa visual para a ocupação Noite das Estrelas foi indicada ao prestigiado Prêmio Shell de Teatro.
Um legado coletivo
Para Affonso, a indicação ao PIPA não é uma conquista isolada. É um reflexo de uma rede de apoio e referências mareenses, citando nomes como Bira Carvalho (primeiro artista da Maré indicado ao prêmio), Dominick di Calafrio e o coletivo Imagens do Povo.
Como cofundador do Grupo Atiro e articulador da Entidade Maré, Affonso DaLua segue usando a imagem para disputar políticas públicas e garantir que a favela seja pautada por quem nela vive. Estar no radar do PIPA é a prova de que a Maré não é apenas um lugar de passagem, mas um berço tecnológico de arte, memória e resistência.