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A representação do homem negro no Brasil

É necessário mudar o estereótipo desse grupo construído a partir de um lugar de inferiorização
Seu Jorge em cena do filme 'Medida Provisória', de Lázaro Ramos Foto: Divulgação
Seu Jorge em cena do filme 'Medida Provisória', de Lázaro Ramos Foto: Divulgação

Sabe-se bem, embora não custe relembrar: as Américas foram o destino, entre os séculos 16 e 19 de, pelo menos, 10,7 milhões de africanos raptados e escravizados. Os dados são da pesquisadora Marcia Amantino, do Grupo de Pesquisa do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). Desse contingente, cerca de 4,8 milhões desembarcaram no Brasil, em sua maioria homens (jovens e crianças). Já tinham sua imagem fortemente associada à força braçal.

Dados do primeiro censo demográfico, de 1872, evidenciam a presença da população negra no perfil societário de nosso país. Naquele censo, declararam-se pardos ou pretos 58% da população; 38% branca e, 4%, indígena. De acordo com dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) de 2019, 56,2% da população brasileira se declarou preta ou parda.

Conhecer, portanto, o perfil desta população, inter-relacionando gênero e classe social, será essencialmente necessário para encarar os desafios históricos da sociedade brasileira.

Diante destes dados, fica a questão: o que foi feito do homem negro no Brasil?
A representação do que venha a ser o homem negro em nosso país é um processo de disputa da masculinidade criada pelo sistema patriarcal europeu, que tem por referencial o homem branco, cisgênero, heterossexual, proprietário –o pater familiae (o mais elevado estatuto familiar na Roma Antiga, sempre uma posição masculina).

As diversas instituições que formaram a sociedade brasileira vêm utilizando, ao longo de nossa formação, linguagens para apontar a masculinidade diretamente apontada ao homem branco como o padrão — como meio de manutenção de sua centralidade na condição de “cidadão de direitos”. Essa centralidade está presente tanto nos princípios que orientaram a distribuição das capitanias hereditárias entre os donatários, no Brasil colônia, quanto naqueles que orientam a escolha dos presidentes das atuais instituições de nossa sociedade, como jornais impressos, rádio, site.

A representação que, hegemonicamente, o brasileiro tem do homem negro, bem como das mulheres negras e brancas, é uma construção simbólica e material, que visa a sua inferiorização frente ao homem branco. Henrique Restier, pesquisador do Iesp (Instituto de Estudos Sociais e Políticos), aponta que o baixo status do homem negro decorre, em grande medida, do fato de o homem negro compor um grupo sócio-racial que rivaliza com os homens brancos pela conquista das oportunidades de poder social e recursos, por exemplo. Dentro dessa relação de poder, é estratégico para o homem branco criar mecanismos que subjuguem o homem negro –e o campo da produção de símbolos é poderoso para tanto.

Pois, afinal, qual é a representação que temos de homem negro? Será ele um ser humano sensato, educado, limpo, sensível, não violento, respeitador, provedor, bom marido e bom pai — características sempre atreladas ao imaginário de personagens brancos, do sexo masculino —, seja no telejornal, no horário eleitoral, nas novelas e nos livros?

Para o professor jamaicano Stuart Hall, a representação é a produção do significado dos conceitos da nossa mente por meio da linguagem. Ou seja, a maneira como compreendemos as coisas, os acontecimentos etc. está diretamente ligada à produção de sentido. A isso estaríamos submetidos desde o nosso nascimento.

Um conjunto de representações produz a cultura de um povo: esta construção dialética passa por diversas linguagens, sendo o audiovisual, no caso do Brasil, uma das mais acessadas, se considerarmos o sucesso das telenovelas. Observe, ainda, que estes meios de produção estão sendo geridos por homens brancos.

A representação do homem negro é construída com a intenção de desumanizá-lo. Não seria possível torná-lo o principal alvo das forças policiais se aos homens negros fosse entregue uma construção humanizada. Não seria admissível ter 75,4% de pessoas negras assassinadas pela Polícia Militar no Brasil em contraste com os 24,6% de pessoas brancas, segundo os dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública de 2019, sem tornar estes corpos descartáveis simbolicamente.

A pouca presença de pessoas negras, em especial de homens negros, em instituições-chave para a produção e reprodução de símbolos e signos sociais, fortalece a centralidade das pessoas brancas, em sua maioria homens, em detrimento dos demais sujeitos. Podemos classificar isso como racismo institucional.

O que buscamos é a produção social de uma outra representação do homem negro, que se dê a partir das práticas de outras masculinidades, que se desprenda da sujeição à masculinidade branca. Para tanto, a ocupação de instituições diversas por homens negros se faz necessária.

É aqui que propomos a presença de homens negros, progressistas e politicamente conscientes da condição social brasileira das pessoas negras, em espaços de política institucional. É necessário um movimento de homens negros na política para que possamos disputar o poder político para o povo negro ao lado de todas as pessoas que se posicionam contra as políticas higienistas e racistas.

É necessário mudar a representação imagética do homem negro — daquele que carrega um fuzil ou que apenas trabalha nos serviços braçais — para uma representação de um homem negro propositivo também no campo político, capaz de dialogar coletivamente e arquitetar políticas públicas que deem conta de combater as históricas mazelas geradas contra o povo negro.

Precisamos de homens negros na política institucional que sejam capazes de ter sensibilidade o suficiente para compreender que muitas mulheres negras já estão nesta luta há tempos, entendendo-as como aliadas dentro de um projeto de país que não mais explore e exproprie a população negra, mas sim que abra condições e crie estruturas para o desenvolvimento humano dessa maioria social/populacional.

Cleber Ribeiro
Coordenador IMJA/Seja Democracia, integrante do Honepo e colaborador do PerifaConnection

Osmar Paulino
Diretor geral do FAIM Festival, coordenador do Honepo e colaborador do PerifaConnection

PerifaConnection, uma plataforma de disputa de narrativa das periferias, é feito por Raull Santiago, Wesley Teixeira, Salvino Oliveira, Jefferson Barbosa e Thuane Nascimento. Texto originalmente escrito para Folha de S. Paulo

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EDITORIAS

PERFIL

Rene Silva

Fundou o jornal Voz das Comunidades no Complexo do Alemão aos 11 anos de idade, um dos maiores veículos de comunicação das favelas cariocas. Trabalhou como roteirista em “Malhação Conectados” em 2011, na novela Salve Jorge em 2012, um dos brasileiros importantes no carregamento da tocha olímpica de Londres 2012, e em 2013 foi consultor do programa Esquenta. Palestrou em Harvard em 2013, contando a experiência de usar o twitter como plataforma de comunicação entre a favela e o poder público. Recebeu o Prêmio Mundial da Juventude, na Índia. Recentemente, foi nomeado como 1 dos 100 negros mais influentes do mundo, pelo trabalho desenvolvido no Brasil, Forbes under 30 e carioca do ano 2020. Diretor e captador de recursos da ONG.

 

 

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