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Periferias que reinventam seus territórios

La Honda e Complexo do Alemão mostram que são laboratórios de soluções climáticas e sociais, apesar das adversidades

La Honda, Medellin - Foto: Leticia Gonçalves
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Texto escrito por: GABRIELA CONC

La Honda, na comuna 3 de Medellín, poderia ser confundida com o Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. Becos íngremes, casas autoconstruídas, muros pintados, falta de saneamento básico e uma vida comunitária intensa. Separam-nos a geografia e a língua, mas une-os uma realidade comum: desigualdade estrutural, precariedade urbana e a urgência de enfrentar a crise climática.

Guiados por Julian Machado, conta que bairro nasceu como assentamento informal na encosta nororiental de Medellín, entre Santa Elena, Manrique La Cruz e Versalles 2. Desde 1995, tornou-se refúgio para deslocados do conflito armado na Colômbia, vindos do norte e oriente de Antioquia, baixo Cauca, Urabá e de departamentos como Nariño, Cauca, Córdoba, Sucre e Chocó. Nos últimos cinco anos, a chegada de migrantes venezuelanos intensificou ainda mais sua diversidade social. Estima-se que mais de 10.000 pessoas vivam em La Honda, mas a ausência de reconhecimento oficial pelas autoridades municipais impede dados precisos e dificulta o acesso a serviços públicos. Não há Junta de Ação Comunal (JAC) e, portanto, não existe um censo próprio ou acesso pleno a serviços básicos.

Julián Machado, Fundador e diretor da Corporação Somos Por Naturaleza. Foto: Leticia Gonçalves

Do crochê à mobilização humanitária

Foi nesse cenário que nasceu, em abril de 2019, a Corporación Somos Por Naturaleza. Criada por Susana Molina e lideranças locais, a organização começou com encontros semanais de crochê. O projeto Tejiendo Destejiendo, envolvendo 29 moradores e lideranças de bairro, construindo vínculos, renda e tecendo redes.

Com a pandemia de Covid-19, o coletivo transformou seu foco. Em vez de oficinas culturais, organizou uma campanha humanitária que distribuiu mais de 3.000 pacotes alimentares em oito meses, além de máscaras, álcool, cobertores e camas para famílias inteiras. O trabalho foi feito em parceria com gestores locais, percorrendo vielas e escadarias para aliviar a fome e o medo trazidos pela Covid-19. Esse esforço articulado mostrou que a comunidade conseguia agir mais rápido que o próprio Estado.

Susana Molina Rol: Fundadora y líder comunitária de Somos Por Naturaleza. Foto: Santiago Peligro

Uma missão que vai além da assistência

A corporação evoluiu para projetos estruturantes que fortalecem o protagonismo comunitário e a capacidade de autogestão das famílias de La Honda. Sua missão é clara: desenvolver iniciativas com enfoque formativo, cultural e esportivo para reduzir a pobreza e suas diferentes manifestações, criando espaços seguros para crianças, jovens e mulheres, e promovendo o cumprimento dos direitos individuais, comunitários e territoriais.

Entre suas iniciativas estão hortas urbanas, escolas populares de esportes, mutirões de limpeza, oficinas comunitárias, ações de prevenção de riscos naturais e programas de capacitação em parceria com universidades. Essas atividades não apenas atendem demandas imediatas, mas também criam novas competências e reforçam a ideia de que a transformação territorial pode vir da própria comunidade, mesmo em contextos de escassez de recursos.

O desafio da crise climática

Os moradores de La Honda sabem que a crise climática não é um conceito abstrato. Medellín é uma cidade de vertentes com chuvas intensas, tendência que, segundo projeções, permanecerá estável por décadas. Em La Honda, as fortes chuvas agravam o risco de deslizamentos.

Para enfrentar essa realidade, a Somos Por Naturaleza passou a apoiar a criação de sistemas comunitários de gestão de risco, identificando pontos críticos, monitorando encostas e propondo redes de drenagem para águas pluviais. Em parceria com universidades estrangeiras e locais, o grupo desenvolveu cinco níveis de gestão de drenagem, combinando engenharia básica, sistemas naturais e bioengenharia. São pequenos projetos comunitários que, juntos, formam um modelo de adaptação climática de baixo custo e alto impacto.

O objetivo é claro: demonstrar que comunidades organizadas podem construir soluções eficazes, pressionando o poder público a reconhecer e replicar essas estratégias. Para a corporação, o melhoramento de bairros é a melhor ferramenta de prevenção e os subsídios habitacionais são a póliza de seguro para famílias em áreas de risco.

Escala por escala: histórias da ladeira

Camila Pino, nascida em Manrique, Medellín, descreve a vida na ladeira como “escala por escala”, onde cada degrau simboliza o esforço diário para superar a pobreza e a violência. Ela lembra o cotidiano de milhares de famílias: casas sem escritura, falta de água e ruas intransitáveis.

“As escalas são como a corda da vida: é preciso subir concentrado, degrau por degrau”, conta.

Com suas obras audiovisuais, Camila transforma experiências difíceis em resistência comunitária, registrando crianças, jovens e mães subindo escadas com pratos simbólicos, refletindo sobre os impactos da guerra, da desigualdade e da negligência estatal. A narrativa de Camila humaniza os dados de risco e mostra que a ação comunitária, a arte e o esporte são ferramentas poderosas para criar vínculos, narrativas e soluções, mesmo em contextos de extrema vulnerabilidade.

Biodiversidade e clima no cenário global

A experiência conecta o bairro às discussões globais. Em 2024, a COP16 da Biodiversidade, realizada em Cali (Colômbia), abriu espaço para comunidades urbanas e periurbanas discutirem conservação e restauração ambiental. Lideranças de bairros como La Honda participaram, mostrando que a biodiversidade não se limita a áreas rurais ou florestas, mas inclui encostas, córregos urbanos e territórios informais que ainda guardam fragmentos de ecossistemas e soluções inovadoras.

Já a COP30 do Clima, prevista para Belém (Brasil) em 2025, representa uma nova oportunidade para mostrar ao mundo que soluções locais como em territórios periféricos  podem inspirar políticas públicas globais e abrir espaço para investimentos. As periferias não são apenas vítimas do aquecimento global: são também produtoras de conhecimento, práticas de mitigação e adaptação.

O paralelo com o Complexo do Alemão

No Rio de Janeiro, o Complexo do Alemão vive desafios muito semelhantes aos de La Honda: urbanização precária, ocupação irregular de encostas, ausência de saneamento básico e vulnerabilidade a eventos climáticos extremos. Assim como em Medellín, muitas soluções surgem da própria comunidade com hortas urbanas, projetos culturais, mutirões de limpeza e redes de solidariedade.

Cultivo de plantas orgânicas no Telhado Verde Agroecológico na Serra da Misericórdia (2024). Foto: Josiane Santana/Voz das Comunidades

Entre elas destacam-se o Projeto Telhado Verde, que busca reduzir o calor extremo, melhorar a drenagem das águas pluviais e criar áreas de cultivo, e o Multrão da Dona Josefa, um espaço construído sobre a casa de uma moradora histórica do Alemão que funciona como cozinha solidária, centro cultural e ponto de articulação comunitária. Ambos os projetos mostram como a comunidade transforma áreas subutilizadas em soluções ambientais e sociais inovadoras.

Dona Josefa, moradora da Pedra do Sapo, é uma educadora ambiental da favela que luta pela preservação do meio ambiente. Foto: Reprodução

Essa comparação revela que a precarização dos investimentos públicos é um fenômeno que atravessa a América Latina. Em muitos casos, os recursos destinados à infraestrutura urbana não chegam às comunidades, obrigando os moradores a criarem suas próprias soluções. Mas também evidencia que a força das periferias latino-americanas não depende apenas de políticas públicas, ela floresce na organização, na criatividade e na união de moradores.

Vozes que precisam ser ouvidas

Um jovem participante do Universos das Vozes resume: “A gente aprende a cuidar do nosso território, mas também quer que o mundo veja que a periferia tem soluções e força para enfrentar o clima”.

É essa voz que precisa chegar à COP30. Mais do que testemunhar a crise, essas comunidades estão propondo caminhos para mitigá-la. Elas provam que a inovação não depende apenas de grandes orçamentos ou centros urbanos, mas da união, criatividade e coragem de quem vive, todos os dias, as consequências da desigualdade e da emergência climática.

A periferia como laboratório do futuro

A experiência de La Honda e do Complexo do Alemão demonstra que periferia é sinônimo de criatividade, união e capacidade de transformação. Mesmo em contextos de precarização e ausência de investimento público, essas comunidades mostram que é possível mudar territórios com ação coletiva, liderança comunitária e coragem para enfrentar os desafios, oferecendo lições valiosas para toda a América Latina e para o mundo.