Ir para o conteúdo

Medellín e Rio de Janeiro revelam contrastes na acessibilidade urbana

A cidade colombiana incorpora modelos acessíveis no cotidiano, enquanto o Rio de Janeiro tropeça e ignora a urgência de medidas para inclusão

Plataforma do metrô acessível em Colômbia. Foto: cortesía El Tiempo.
Ouça este conteúdo
00:00 00:00
Leitura pronta para iniciar

O sinal fecha e, logo em seguida, um som alto e repetitivo toma conta da esquina. Mais do que um simples alerta sonoro, trata-se de um mecanismo pensado para todos, especialmente para pessoas com deficiência. Na vida urbana de Medellín, esse cuidado se estende às rampas, calçadas pavimentadas, piso tátil e estações de metrô com elevadores, escadas adaptadas e sinalização que inclui mensagens como “sua saúde mental é importante”, acompanhadas de um número de emergência. A cidade colombiana dá sinais positivos de que caminha em direção à inclusão.

Pelas ruas da cidade, pessoas com deficiência circulam com autonomia. Segundo a Secretaria de Inclusão Social de Medellín, cerca de 80 mil pessoas com deficiência estão registradas no sistema oficial. Ainda assim, os desafios persistem: apenas 27,6% delas estão em atividades remuneradas, o que evidencia uma lacuna entre a acessibilidade física e a inclusão plena no mercado de trabalho.

Mesmo com taxas ainda baixas de inserção profissional, Medellín se destaca pelo investimento em infraestrutura urbana inclusiva, presente no cotidiano de seus moradores. A Comuna 13 é um exemplo marcante: em 2011, foram inauguradas escadas rolantes que substituíram cerca de 350 degraus, equivalentes a um prédio de 28 andares, um trajeto que levava cerca de 30 minutos e era praticamente impossível para quem usa bengala, muletas ou cadeira de rodas. Além disso, a dificuldade de acesso, distanciava os moradores locais dos centros urbanos.

Divididas em seis trechos cobertos, as escadas reduziram o percurso para apenas 6 minutos, tornando a mobilidade muito mais acessível para pessoas com mobilidade reduzida e idosos. Esse projeto inovador transformou a Comuna 13 na primeira comunidade do mundo a implementar escadas rolantes externas em grande escala, unindo tecnologia e inclusão social.

O passado de violência e constantes guerrilhas da região foi ressignificado pela arte, especialmente pelos murais de grafite. O Graffiti Tour, que percorre toda a comuna, atrai visitantes de todo o mundo e tornou a Comuna 13 um dos principais pontos turísticos da Colômbia, mostrando como cultura e urbanismo acessível podem transformar uma comunidade.

Sem rampas: exclusão diária de corpos no Rio de Janeiro

Do outro lado da América Latina, o cenário muda. No Rio de Janeiro, especialmente na Zona Oeste, pessoas com deficiência enfrentam uma rotina marcada pela ausência de acessibilidade e pela falta de políticas públicas eficientes. Estações de trem como Santa Cruz, Tancredo Neves e Paciência não possuem rampas nem elevadores, e tampouco banheiros acessíveis ou escadas rolantes que facilitem o deslocamento de pessoas com mobilidade reduzida.

Em 2024, uma vistoria realizada pela Agetransp identificou diversas irregularidades em estações do ramal Santa Cruz. Na estação Vila Militar, foi constatada a existência de um elevador inoperante. Já na estação Bangu, foram observadas a ausência de piso tátil, elevadores fora de funcionamento e falhas na sinalização das plataformas.

Nenhuma estação do ramal Santa Cruz conta, até o momento, com elevador funcional e acessível. Além disso, sinais sonoros são inexistentes em boa parte das vias, e as poucas rampas disponíveis nas avenidas frequentemente são bloqueadas ou ignoradas por veículos.

De acordo com o Censo de 2022, o Brasil possui cerca de 1,4 milhão de pessoas com deficiência. No estado do Rio de Janeiro, esse grupo representa aproximadamente 7,4% da população, evidenciando que as medidas inclusivas são urgentes no espaço urbano.

Vivências sobre skate

É nesse contexto que se destacam trajetórias como a de Narlon Gabriel Oliveira Costa, de 23 anos, morador do bairro de Paciência, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Ele encontrou no skate uma alternativa à cadeira de rodas para se locomover com mais autonomia. “Me dá liberdade. No skate, eu vou com total tranquilidade, consigo fazer tudo, comprar as coisas na rua, porque eu tenho mobilidade total com o skate. Ele consegue me adiantar”, conta.

Narlon Oliveira, vendedor ambulante e produtor da Batalha de Rima da Glacial em Santa Cruz, se locomove de skate para ter mais liberdade e acessos. Foto: Letícia Gonçalves

Narlon é conhecido como “mentira”, seu vulgo vem da sua própria característica física, por ter pernas curtas. Produtor cultural da Batalha da Glacial, evento de rima e cultura urbana local, também trabalha no bar da roda e atua como camelô no sistema BRT.

Na infância, ele conta que foi marcado pela experiência de ver os amigos correndo de um lado para o outro, enquanto ele não conseguia acompanhá-los. E detalha: “Eles nasceram assim, aprenderam dessa forma. Eu aprendi do meu jeito, e isso, não vai me tornar totalmente diferente deles, a gente também tem que conhecer as coisas do nosso jeito”

Narlon descia da cadeira e ia brincar, interagia com as pessoas. A cadeira de rodas, para ele, representava uma forma de distância e exclusão. “Se eles estão lá brincando, por que eu não iria? Eu conseguia chegar até lá”, ressalta o vendedor ambulante. E continua, mostrando que parte fundamental da sua criação foi a sua Mãe, Dona Vânia Costa, falecida recentemente. Dizia sobre sua camisa de escola que chegava suja:

“Não precisa se preocupar que eu vou lavar, que eu quero você assim, se divertindo e sendo igual a todo mundo”, repetia sua mãe.

O rap e a cultura de rua surgem na adolescência e abraçam a história do Narlon. Ele admite que usava os “macetes” para se beneficiar e conseguir oportunidades. Orgulha-se de tirar fotos com diversos artistas e de ter criado uma rede de contatos nesse meio. Ao mesmo tempo, que afirma que o convívio na rua, ensinou a lidar com a deficiência, socializar e trabalhar.

“Vejo que certas áreas do Rio têm mais sensibilidade em relação a esse assunto. A própria escola ajuda, assim como no caso de pessoas autistas, surdas, com deficiência visual também. Só que aqui, onde a gente mora, não tem”, reflete Narlon sobre a falta de acessibilidade na Zona Oeste carioca.

O camelô reflete sobre sua condição física e comenta que já está acostumado a subir e descer escadas todos os dias, inclusive nos ônibus, sempre levando sua mercadoria no skate. E afirma: “Tem coisas que a gente consegue fazer, e outras que realmente não dá.”

Ocupar os espaços públicos é um direito

A ausência de pessoas com deficiência nas ruas e nos espaços públicos cria um imaginário de inexistência dessa população. No entanto, essa não é a realidade brasileira. Negar a inclusão dessas pessoas, com seus corpos e características, é anular direitos e justiça.

Mesmo com o apoio financeiro oferecido pelo Benefício de Prestação Continuada (BPC/LOAS), Vale Social ou até mesmo pela aposentadoria, Narlon é aposentado desde o nascimento e recorre ao trabalho informal. Essas pessoas continuam impedidas de sair de casa, circular pela cidade, acessar serviços e viver a vida em comunidade. A inclusão vai muito além da assistência: exige acessibilidade, presença e dignidade.

Um dado interessante, levantado pelo portal UOL, mostra que, no estado do Rio de Janeiro, o número de pessoas com deficiência beneficiadas pelo BPC aumentou 44% desde 2022.

Entendendo a acessibilidade como um ponto de segurança e independência, Narlon reflete que muitas pessoas com deficiência não foram ensinadas a lidar com a rua. Colocaram na cabeça delas que não tinham espaço ali. A criação de antigamente, segundo ele, acabou por suprimir essas pessoas, fazendo com que sentissem vergonha e medo de tudo.

Existem lugares em que uma pessoa usando cadeira de rodas não consegue acessar, assim como, às vezes, uma pessoa com deficiência visual também encontra dificuldades para se locomover com segurança. O produtor cultural afirma: “Eu cobro das autoridades porque, por segurança, é essencial que o elevador esteja funcionando, e em várias estações de trem isso simplesmente não acontece.”

“Quando eu vejo uma pessoa cadeira de roda, eu sempre pergunto se quer ajuda, se quer que puxe a rampa [no ônibus]”, mostra Narlon na prática sobre a consciência e acessibilidade.

Para Narlon, há dificuldades que valem a pena enfrentar. Se ele quiser ir a um lugar que não é acessível, mas acredita que estar ali é importante, ele vai, simplesmente porque quer. Mesmo que o local não ofereça condições adequadas, ele acredita que as pessoas com deficiência devem insistir, ocupar os espaços e buscar seus direitos. Ele não abaixa a cabeça para ninguém e mostra que qualquer lugar é dele.

“Somos iguais a todo mundo, nem abaixo e nem acima. Eu sempre vou falar se tiver no meu direito, e isso, eles não esperam, mas eu sou pessoa antes de qualquer deficiência”, finaliza Narlon, vulgo “Mentira”, ao refletir sobre sua identidade.