O funk carioca é o encontro da musicalidade afrodiaspórica, além das fronteiras. Um novo ritmo começou a dominar os bailes cariocas, sem que ninguém soubesse definir exatamente o som: Afro House? Afrobeat? 150 BPM? Tamborzão? Nada parecia se encaixar. Era algo novo, vindo dos hermanos, países vizinhos da América Latina: a guaracha. Ainda enraizada no funk, a batida ganhou identidade própria: mais acelerada, acima dos 120 BPM, com fortes influências eletrônicas e elementos da cumbia e da salsa.
Duvido que você nunca tenha ouvido “Baila Conmigo”. A faixa é uma das mais populares dentro do gênero guaracha, com mais de 250 milhões de reproduções. O “Baila Conmigo Remix”, do DJ Rennan da Penha, adiciona elementos do funk e acelera a batida, aproximando o público carioca da fusão entre guaracha e funk. E não para por aí: vários DJs e artistas cariocas, já chamam seus sets de funk de guaracha.
A guaracha colombiana, nascida por volta de 2010 na comuna de Manrique, em Medellín, e criada pela juventude afrodiaspórica paisa, apresenta releituras dançantes de músicas em inglês e espanhol. Sua estética combina batidas eletrônicas com gêneros latinos como salsa e cumbia, somados a ritmos indígenas e instrumentos como tambores, trompetes e acordeões, uma espécie de tribal house latino-americana. O resultado é um som acelerado e contagiante, quase impossível de ouvir sem se mexer.
Lá em Medellín, em uma conversa com o DJ e baterista Matt Drums, a guaracha ganhou força à medida que canções antigas passaram a receber elementos eletrônicos. Inicialmente marcada apenas por uma combinação de sons, a proposta evoluiu com a incorporação de letras de músicas conhecidas, adaptadas ao ritmo. Para o artista, esse processo trouxe mais harmonia à sonoridade, “soa bonito”, permitindo que o público reconhecesse as faixas e percebesse a transformação rítmica do gênero.
Nas discotecas e festas de rua da Colômbia, a guaracha embala celebrações marcadas pelo perreo, dança que desafia os limites do corpo. Jovens se reúnem para dançar, exibir seus “passos proibidos” e viver momentos de liberdade, mesmo em ambientes marcados pelo consumo de drogas e letras que falam abertamente sobre sexo, juventude e a realidade das periferias. Uma frase popular circula nesses espaços: “Guaracha sin tusi es como sexo con condón”, em tradução livre significa, Guaracha sem droga é como sexo com camisinha, uma provocação que expõe a intensidade e os excessos que cercam a cena.
Curiosamente, muitos dos lugares onde hoje acontecem festas de guaracha eram, no passado, territórios marcados por violência, execuções e disputas entre grupos armados. Hoje, esses espaços são ressignificados: onde antes se matava, agora se dança. Ainda assim, a guaracha segue sendo vista por parte da sociedade colombiana como uma música marginal ou como eles dizem: “baixas”, trilha sonora das classes empobrecidas, dos corpos livres e das ruas vivas.

O artista colombiano, disse em entrevista, que a guaracha era vista como não sendo música, eram muitos sons mesclados, porém não tinha métrica ou norte. Podem ser músicas de 120 bpm, 126 bpm e 130 bpm, a última frequência é muita rápida. E complementa: o funk carioca é muito parecido ao ritmo colombiano, mas para ser guaracha, tinha que ser mais lento.
A guaracha também é conhecida pelos estilos aleteo e zapateo, e conta com diversos subgêneros. Como destacou o DJ e baterista Matt Drums, o Freseo é mais suave, com maior presença de elementos líricos e instrumentais; a Guaracha, por sua vez, é voltada ao perreo; enquanto o Afrohouse incorpora uma sonoridade marcada por tambores e forte influência africana.
As letras das músicas refletem o cotidiano, muitas vezes com improviso, e estão diretamente ligadas a um movimento cultural que se entrelaça ao estilo de vida: dança, musicalidade, sexualidade, juventude, liberdade, moda, consumo de drogas, linguagem, vida noturna e até a economia local e musical.
Funk carioca: laboratório de sonoridades
A experimentação e o diálogo com a América Latina se fortalecem. A guaracha e o funk compartilham elementos de caráter revolucionário, ao mesmo tempo em que se sustentam em bases sólidas: a guaracha, enraizada na cumbia, e o funk, marcado pelo tambor. O ritmo carioca se abre para influências externas, que agrega e transforma, enriquecendo sua identidade. Em resumo, pode-se traduzir que a guaracha é nosso funk proibidão.
O funk carioca é antigo, uma verdadeira relíquia com muita história por trás de suas influências. Entre os anos de 1980 e 1990, a base do gênero começou a se formar quando os DJs das favelas do Rio, trouxeram o Miami Bass, o hip-hop americano com batida grave e eletrônica, começaram a adaptar as músicas, acrescentando o tamborzão e criando letras sobre festas, sexo, política, violência e o cotidiano da favela. E quando o tambor chama, quem consegue ficar parado?
O funk se tornou um movimento artístico das comunidades, com o tamborzão incorporando instrumentos africanos e afro-brasileiros ao ritmo, pode-se ouvir o som de tambores de candomblé, atabaque, congas e berimbau.
A diversidade é parte essencial do funk, que está sempre agregando novos elementos e inovando. É uma tecnologia ancestral que se conecta a outras culturas e se mantém viva, tanto nos passos de dança, na oralidade das letras, quanto em sua principal identidade: o
tambor. Entre os subgêneros do funk, destacam-se: Funk melody: lento e melódico, com letras românticas; popular nos anos 1990-2000; Proibidão: letras explícitas sobre crime, drogas e polícia; ligado a comunidades periféricas e bailes clandestinos; Funk ostentação: aborda consumo, status e festas; surgiu em São Paulo nos anos 2000; Funk 150 BPM: batida rápida e energética, voltada para perreo e festas; popular no Rio e em outros estados.
Existem diferentes estilos de batida no funk carioca, todos com variações de tambores. Destacam-se: o Tamborzão, famoso ritmo “tchum tcha”, batida clássica e grave, marcação principal dos funks e bailes; Tambor xereca / xerecada, voltado para a putaria, com batida sensual e explícita; Tambor conga, mistura de percussão latina (conga), com influências de salsa e cumbia; grave e repetitiva; Macumbinha: ritmo inspirado em religiões de matriz africana, grave, acelerado e dançante; Atacada: ritmo derivado dos sons de atabaques, usados em cultos de religiões de matriz africana.

O DJ Swag do CPX, reforça: “A música eletrônica é preta e vem do movimento underground”, declara Swag do CPX. “O funk vai continuar sendo funk! O funk paulista tem sua batida característica; o mineiro, da mesma forma. O que todos têm em comum é o tambor.”
Em conversa no Rio de Janeiro, o artista contou que sua parceria com Clementaum na faixa “Aquecimento de Quatraum” mergulha no verdadeiro perreo da Guaracha colombiana, trazendo essa energia para dentro do funk carioca. Essa foi a sua primeira canção a unir elementos da discotecagem com o ritmo colombiano. Em seguida, ele lançou “Guaracha do Complexo”, música que reforça a conexão entre o funk carioca e a musicalidade latina.
A guaracha e o funk se encontram em quatro elementos, segundo Swag do CPX: no que representam, de onde vêm, onde são reproduzidos e no que conectam. Isso evidencia o processo de criminalização do funk e de outros elementos musicais periféricos, não apenas no Brasil, mas em toda a América Latina. E continua o artista: para se fazer um funk bem feito, precisa de técnica, estudo e cadência.
MC não é Bandido
A campanha “MC não é Bandido” ganhou destaque na mídia após as prisões dos MC Poze do Rodo e rapper Oruam, consideradas arbitrárias. O movimento busca mobilizar a sociedade e denunciar a criminalização da cultura do funk, uma expressão artístico-cultural originada nas comunidades periféricas.
Há um histórico de perseguição à cultura preta e periférica no Brasil. O samba, por exemplo, foi criminalizado no início do século XX, especialmente por meio da Lei de Vadiagem de 1920, que permitia a prisão de pessoas consideradas “vagabundas” e foi usada para perseguir sambistas com seus instrumentos de trabalho.
Posteriormente, movimentos como o rap e o skate também enfrentaram estigmatização social, e hoje o funk sofre repressão, com intervenções policiais e criminalização midiática nas comunidades onde se origina.
