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Fé, resistência e invisibilidade

Do Candomblé ao tambor palenquero, vozes desafiam o apagamento

Fé e devoção, Terreiro Quilombo Tufal. Foto: Natália de Deus/Voz das Comunidades
Fé e devoção, Terreiro Quilombo Tufal. Foto: Natália de Deus/Voz das Comunidades
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Texto escrito por: GABRIELA CONC

Durante o intercâmbio binacional Universos das Vozes, que conectou Rio de Janeiro e Medellín, um aspecto se destacou de maneira contundente: a religiosidade como parte estruturante da vida nas comunidades populares. Se, no Rio, as religiões de matriz africana são expressões centrais de resistência cultural, em Medellín predomina a fé católica, enquanto tradições afrodescendentes ainda lutam por visibilidade.

Ao percorrer as comunas de Medellín, é impossível ignorar a presença de imagens da Virgem Maria, santos e símbolos cristãos em becos, casas e escadarias. Capelas improvisadas, murais bíblicos e procissões estruturam o calendário comunitário. Segundo o DANE, cerca de 78% dos habitantes se declaram católicos, evidenciando o peso dessa crença no cotidiano. Em contraste, religiões afrodescendentes aparecem de forma discreta, mantidas muitas vezes em espaços privados devido a preconceitos históricos.

Pai Gustavo de Chispa – Foto: Letícia Gonçalves

No Rio de Janeiro, a presença de tradições afro-brasileiras como Candomblé e Umbanda é mais visível. Dados do IBGE de 2022 mostram que 2,59% da população fluminense se declara adepta, número quase três vezes maior que em 2010. Em cidades como Nilópolis e Barra do Piraí, chega a 3,7%, refletindo também o reconhecimento institucional: desde 2021, Umbanda, Candomblé e Ifá são patrimônio cultural imaterial do povo carioca. Lugares históricos como a Pedra do Sal simbolizam resistência, cultura e fé, conectando passado e presente.

Em diálogo com Pai Fábio Dias de Ogun Já, onde mantém de pé o Ilê Asé Omi Agbalaju na Praça Seca aponta como as religiões afrodescendentes contribuem para fortalecer a união, a solidariedade e a organização das comunidades periféricas.

“O terreiro ensina que ninguém caminha sozinho. Tudo é coletivo: desde o preparo da comida até o cuidado com os mais velhos e a educação das crianças. Esse espírito de comunidade se espalha para além do espaço religioso e inspira movimentos sociais, culturais e políticos nas periferias. O axé nos ensina a cuidar uns dos outros, a nos organizar, a resistir juntos, e isso fortalece não só a fé, mas a própria Egbe (Comunidade).”

Pousando novamente em Medellín, um dos momentos mais vibrantes do intercâmbio foi a participação da casa cultural La Chispa, que trouxe Etilson Salgado, mestre do tambor palenquero, para compartilhar sua história e demonstração musical. Originalmente, os palenques eram comunidades fundadas por escravizados fugitivos, conhecidos como cimarrones, que buscavam liberdade e autonomia frente à opressão colonial. Um dos exemplos mais emblemáticos é San Basilio de Palenque, considerado o primeiro povo livre das Américas.

Hoje, o conceito de palenque se expande para o campo musical e cultural. São espaços coletivos de dança, canto e percussão, onde se tocam ritmos afro-colombianos, como o tambor palenquero, transmitindo saberes e histórias de gerações passadas. Mais do que música, o palenque é um ritual de memória e identidade, um território simbólico de resistência cultural que conecta passado e presente, fortalecendo a comunidade.

Durante a apresentação, o som potente do tambor reverberava pelas paredes, fazendo o chão tremer e os corações pulsarem. Cada batida contava histórias de resistência, identidade e memória ancestral. No círculo formado por pessoas de diferentes idades, mães e lideranças comunitárias, todos sentiram a força do legado afrodescendente, percebendo como aquelas batidas uniam gerações e transformavam o espaço em um território de pertencimento. A experiência mostrou que, mesmo em contextos urbanos e periféricos, a música continua sendo um elo de identidade, memória e transformação social.

Pai Fábio Dias de Ogun Já – Ilê Asé Omi Agbalaju. Foto: Reprodução

Confira a conversa com o Pai Fábio Dias de Ogun Já:

  1. Como a prática do Candomblé/Santería ajuda a comunidade a resistir e manter sua identidade cultural diante do preconceito e da invisibilidade social?

    O Candomblé é, antes de tudo, um espaço de resistência. Ele guarda nossa memória, nossa língua, nossa comida, nossos cantos e saberes. Quando a sociedade tenta nos apagar, o axé nos lembra que existimos e que nossos ancestrais caminham com a gente. O terreiro é uma casa de acolhimento onde as pessoas encontram força, pertencimento e identidade. É a prova viva de que, apesar do preconceito, a nossa cultura não só sobrevive como floresce.


  2. Quais são os maiores desafios que vocês enfrentam para manter seus rituais e tradições vivas em Medellín, onde essas religiões ainda são pouco conhecidas ou reconhecidas?

O maior desafio é o racismo religioso, que aparece de muitas formas: da intolerância explícita às leis que não reconhecem nossa tradição como deveriam. Outro ponto é a falta de apoio institucional, já que o Estado não valoriza nem protege os terreiros como patrimônio cultural. Também enfrentamos dificuldades materiais, porque manter um espaço de axé exige recursos, e a maioria de nós está em territórios periféricos onde o básico já é uma luta. Outro ponto é a internet, nos dias atuais muitas pessoas mostram o que deveria ser segredo em nosso culto.  Mesmo assim, seguimos com fé e união.

  1. De que forma as religiões afrodescendentes contribuem para fortalecer a união, a solidariedade e a organização das comunidades periféricas?

O terreiro ensina que ninguém caminha sozinho. Tudo é coletivo: desde o preparo da comida até o cuidado com os mais velhos e a educação das crianças. Esse espírito de comunidade se espalha para além do espaço religioso e inspira movimentos sociais, culturais e políticos nas periferias. O axé nos ensina a cuidar uns dos outros, a nos organizar, a resistir juntos, e isso fortalece não só a fé, mas a própria Egbe (Comunidade).

  1. Que mensagem você daria para a sociedade e para os governos sobre a importância de valorizar, reconhecer e proteger as tradições afrodescendentes nas cidades latino-americanas?

Eu diria que respeitar e proteger as tradições afrodescendentes é reconhecer a própria história do continente. Sem o legado africano não existe Brasil, não existe América Latina. Nossas religiões não são folclore, são filosofia de vida, ciência, arte, espiritualidade. O governo e a sociedade precisam parar de criminalizar o que nos mantém vivos e passar a investir na preservação, na memória e no fortalecimento dos terreiros. Proteger o Candomblé e outras tradições é proteger a diversidade e a dignidade de todos os povos.

O Universos das Vozes evidencia que intercâmbios culturais podem transformar percepções sociais, mostrando que religião, cultura e território estão profundamente entrelaçados. Ao integrar música, fé e resistência, essas experiências colocam no centro do debate as espiritualidades historicamente marginalizadas, reforçando a ideia de que comunidades periféricas são laboratórios vivos de memória, identidade e transformação social.