Durante muito tempo, as fronteiras entre Brasil e Colômbia pareciam distantes. A geografia, o idioma, os caminhos da história. Mas, na prática, a vida nos territórios populares prova o contrário: o que nos separa é menos do que aquilo que nos une. Foi com esse olhar que partimos para a Colômbia através do Intercâmbio “Universos das Vozes”, que resultou em uma potente exposição fotográfica inaugurada no Dia Mundial da Fotografia, na Casa Voz Vidigal, no Rio de Janeiro.
A ideia era simples, e profunda. Aproximar realidades que, embora distantes nos mapas, dialogam intensamente nos detalhes do cotidiano. Ao caminhar pelas vielas de Medellín e pelas ruas das favelas cariocas, os integrantes perceberam uma semelhança que ia além da estética: havia uma energia comum, uma vibração parecida no olhar das crianças, nas cores dos becos, na fé, o feitiço, nos ritmos, no proibido, em tudo que se era dito e que ecoavam nas casas, na arte e na ausência de recursos.
Imagens captadas na Colômbia pareciam retratar o Brasil. E fotos feitas no Brasil poderiam muito bem ter sido registradas em Medellin. Foi esse “espelhamento” que nos conduziu a montar uma exposição única: “Brasil e Colômbia se confundem não só nos traços urbanos, mas na resistência dos corpos e na beleza da luta cotidiana.”

20 ANOS DE HISTÓRIA!
A mostra também teve um significado especial para o Voz das Comunidades: marcou o mês das comemorações dos 20 anos do jornal, que nasceu no morro do Adeus e hoje é referência nacional e internacional. Para essa celebração, convidamos fotógrafos e fotógrafas que fazem parte da história do Voz para se somarem à curadoria da exposição, junto com os intercambistas que vivenciaram a Colômbia. A curadoria foi coletiva, sensível e cuidadosa. As fotos foram divididas em núcleos temáticos que atravessam as experiências dos dois países: “Corpos em Movimento”, “Ruas que Falam”, “Fé e Resistência”. Cada imagem contava uma história, ou melhor, várias histórias. Histórias que ecoam, se entrelaçam e se reconhecem umas nas outras. Foi visível o brilho no olhar de quem via as imagens na galeria da Casa Voz Vidigal, e era exatamente isso que pensávamos, encantar quem quer que fosse.
A editora de vídeo Natália de Deus, integrante do projeto, compartilhou sua vivência. “A América latina é rica e cheia de ancestralidade e ter o meu nome no projeto Universos das Vozes é uma prova que não ando só. Esse momento foi muito sonhado pelos meus que vieram antes de mim e hoje celebro a potência de cada um deles, através do audiovisual.”
Sarau, batidas e diálogos: o som da América Latina periférica
A noite de abertura da exposição foi mais do que um vernissage. Foi um verdadeiro sarau latino-periférico, onde diversas linguagens artísticas se encontraram. Poetas, músicos, performers e artistas do Vidigal ocuparam a Casa com sua voz, seus corpos e sua arte. Cada apresentação foi um chamado coletivo para o encontro entre culturas irmãs. Entre as atrações, uma das experiências mais potentes foi a mesa de conversa sobre a Guaracha, ritmo colombiano de origem popular que, assim como o funk no Brasil, enfrenta o estigma do proibido. A mediação foi feita por Letícia Gonçalves, uma das integrantes do intercâmbio, que compartilhou com o público o que viu e viveu nas ruas da Colômbia.
A mesa contou também com a presença especial do DJ Swag do Complexo, que recentemente lançou um som com influências diretas da guaracha, misturando elementos da cena colombiana com as batidas das favelas brasileiras. O resultado é um som que cruza fronteiras e firma a identidade da nova geração periférica latino-americana: sem medo de experimentar, de provocar e de reivindicar sua estética. O diálogo entre os ritmos deixou claro que o que nos une não é apenas a imagem ou a paisagem. É o som. É o corpo que dança. É o batuque que ecoa do chão das favelas e faz tremer os lustres dos salões.
Desfecho
Mais do que uma troca cultural, esse intercâmbio e a exposição que dele surgiu revelam algo maior: o poder da arte como ponte. A fotografia, nesse caso, serviu como lente para ver o outro, e também para nos ver melhor. Porque, ao enxergar a Colômbia com empatia, conseguimos entender o Brasil com mais profundidade.
Na favela, o cotidiano se repete em outras línguas, com outros ritmos, mas com a mesma urgência de viver, resistir e criar. O que vimos e mostramos com essa exposição é simples, poderoso: somos parecidos não por acaso. Somos parecidos porque nossos povos têm a mesma força.





ASS: Universos das Vozes
