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Do lixo eletrônico à transformação social: GreenLoop gera oportunidades no Complexo do Alemão

Com mais de 4 toneladas de resíduos eletrônicos arrecadadas, iniciativa liderada por Nilson “NEM” une sustentabilidade, educação e tecnologia. Integrante da incubadora do PISTA Alemão, projeto oferece cursos gratuitos e mobiliza moradores, estudantes e parceiros em torno da inclusão produtiva e preservação ambiental

Foto: Divulgação / Juliana Henrik
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Reportagem escrita por Juliana Henrik

Televisores, computadores, celulares e outros equipamentos sem uso podem se transformar em um problema ambiental quando descartados de forma inadequada. No Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio de Janeiro, uma iniciativa busca mudar essa realidade e mostrar que a sustentabilidade também pode abrir caminhos para a educação, a inclusão produtiva e a geração de oportunidades. A GreenLoop Reciclagem de Resíduos Eletrônicos e Sustentabilidade já arrecadou mais de quatro toneladas de materiais e desenvolve ações de conscientização ambiental, além de oferecer cursos gratuitos em áreas como informática, economia circular, preservação ambiental, robótica e inteligência artificial.

À frente do projeto está Nilson do Carmo Ferreira, conhecido carinhosamente como NEM. Cria da Avenida Central, no Morro do Alemão, ele transformou sua experiência no trabalho comunitário em uma iniciativa que conecta a realidade do território a soluções socioambientais. Com apoio da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ), por meio do edital PISTA, e suporte da equipe da Organização das Nações Unidas (ONU) e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), a GreenLoop busca fortalecer a sustentabilidade e ampliar o acesso da população à formação e à tecnologia.

Uma trajetória construída no território

Homem preto, Nilson foi criado por sua saudosa avó Maria, empregada doméstica e analfabeta, natural de Laranjal, no estado do Rio de Janeiro, e por sua mãe solo, dona Solange, costureira de produção e empregada doméstica, que estudou até a 5ª série. Sua criação foi marcada pela disciplina, pelos costumes e pelo respeito aos mais velhos e aos ancestrais.

Ao longo da trajetória escolar, passou por colégios particulares, escolas públicas e pelo supletivo, até concluir o ensino médio. Como tantas crianças e jovens das favelas, enfrentou dificuldades durante a juventude. Aos 14 anos, teve acesso ao seu primeiro projeto social, a Associação Cristã de Moços (ACM). A formação, com duração de quatro meses, abriu caminho para seu primeiro emprego formal, ainda naquele ano, quando assinou a carteira de trabalho.

Hoje, aos 45 anos, Nilson continua sonhando em cursar Educação Física e/ou Administração. Sua história também é marcada pelo enfrentamento ao racismo estrutural, ao preconceito de classe e ao bullying relacionados à cor da pele e à sua dedicação à cultura, à arte, à dança de salão e ao samba.

Foto: Divulgação / Juliana Henrik

Atento às necessidades sociais do território, atuou durante alguns anos como voluntário na Associação de Moradores da Grota. Também participou do Programa de Ocupação Cultural (POC), do Estado do Rio de Janeiro, durante o período do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), como instrutor de percussão. Foi ainda instrutor de dança de salão na Vila Olímpica Vereador Jorginho da S.O.S.

Durante a pandemia, integrou pequenos grupos locais que distribuíam alimentos e quentinhas nas ruas de bairros próximos, contribuindo para atender moradores em situação de vulnerabilidade.

Há seis anos, Nilson atua na ONG Talentos do Morro, onde exerce a função de coordenador. Atualmente, também é CEO da GreenLoop. A experiência acumulada no trabalho social, somada à preocupação com o meio ambiente e o aquecimento global, contribuiu para o desenvolvimento de uma iniciativa que conecta sustentabilidade e transformação social.

Quando o descarte inadequado vira oportunidade

A GreenLoop nasceu da convivência de Nilson com os moradores e da identificação de necessidades que se cruzam. De um lado, muitas famílias enfrentam dificuldades financeiras para adquirir equipamentos eletroeletrônicos e têm acesso limitado a oportunidades gratuitas de formação profissional e tecnológica. De outro, a falta de informação sobre o descarte correto faz com que aparelhos sem uso permaneçam armazenados nas residências ou sejam descartados de maneira inadequada.

O problema vai além do acúmulo de equipamentos. Quando descartados irregularmente, resíduos eletrônicos podem liberar substâncias potencialmente tóxicas, como chumbo, mercúrio e cádmio, contribuindo para a contaminação do solo e da água. Os possíveis danos à saúde dependem do tipo de substância, da concentração e do tempo de exposição.

Foi diante dessa realidade que surgiu a GreenLoop, um negócio de impacto socioambiental dedicado à logística reversa de resíduos eletrônicos. A proposta é transformar um desafio ambiental em oportunidade de desenvolvimento sustentável, educação, inclusão produtiva e geração de trabalho e renda.

O projeto está instalado no prédio da ONG parceira Talentos do Morro, na Praça do Terço, nº 15, em Nova Brasília, no Complexo do Alemão. A partir desse espaço, a equipe desenvolve ações de conscientização, mobilização comunitária e articulação com parceiros para ampliar a destinação adequada dos materiais.

PISTA Alemão fortalece iniciativas de impacto socioambiental

A trajetória da GreenLoop ganhou impulso com a seleção no edital PISTA, sigla para Parque de Inovação Social, Tecnológica e Ambiental, com apoio da FAPERJ.

A iniciativa integra a incubadora do PISTA Alemão, que contribui para fortalecer projetos comprometidos com o desenvolvimento social, tecnológico e ambiental dos territórios. O programa conta com apoio do PNUD e da ONU e oferece oportunidades para que iniciativas locais avancem na estruturação de suas atividades, ampliem suas ações e construam novas parcerias.

Para a GreenLoop, esse suporte representa uma oportunidade de consolidar a operação, ampliar as campanhas de conscientização e desenvolver atividades formativas. A proposta vai além da coleta de equipamentos: busca demonstrar que a sustentabilidade pode caminhar junto com a inclusão social, a inovação e a criação de oportunidades dentro das próprias comunidades.

Mais de quatro toneladas de resíduos eletrônicos arrecadadas

Um dos principais resultados alcançados pela GreenLoop é a arrecadação de mais de quatro toneladas de resíduos eletrônicos. O volume foi reunido por meio de campanhas de conscientização, mobilização comunitária e parcerias.

Entre os materiais recebidos estão televisores, computadores, celulares, micro-ondas, liquidificadores, batedeiras, cabos e outros equipamentos que, muitas vezes, permaneciam guardados nas residências por falta de informação sobre os locais adequados para descarte.

Foto: Divulgação / Juliana Henrik

Com o crescimento da iniciativa, moradores passaram a procurar a equipe em busca de alternativas mais responsáveis para seus resíduos. A mobilização também fez com que a GreenLoop recebesse materiais que não fazem parte de sua especialidade, como óleo usado e vidro.

Nesses casos, os materiais são encaminhados a projetos parceiros do ecossistema da incubadora PISTA Alemão, contribuindo para fortalecer uma rede de iniciativas ambientais e ampliar as possibilidades de destinação adequada.

A proposta é continuar expandindo a conscientização no território e avançar na capacidade de coleta, triagem e encaminhamento dos materiais, com a perspectiva de alcançar a meta de 20 toneladas mensais.

Parceria com a UNISUAM mobiliza 427 estudantes

A educação ambiental também ganhou força por meio da parceria entre a GreenLoop e a UNISUAM, que resultou no EcoCircuito Engenharias, projeto de extensão universitária que aproxima o conhecimento acadêmico das necessidades socioambientais da comunidade.

A iniciativa envolveu 427 estudantes de Engenharia em ações de conscientização e mobilização sobre o descarte correto de resíduos eletrônicos. Além da participação nas atividades, os estudantes contribuíram para ampliar o alcance das informações ambientais, levando o debate para suas famílias e comunidades.

Outro resultado da parceria foi a implantação de três ecopontos, também conhecidos como Pontos de Entrega Voluntária (PEVs), nas unidades da UNISUAM em Bonsucesso, Bangu e Campo Grande.

Os pontos facilitam o acesso da população a locais de entrega de resíduos eletrônicos e incentivam a incorporação de práticas responsáveis à rotina das instituições e de seus públicos.

A parceria mostra como a união entre universidade, empreendimento de impacto e território pode produzir resultados concretos, combinando educação ambiental, participação estudantil e responsabilidade socioambiental.

Cursos gratuitos aproximam moradores da tecnologia

Para a GreenLoop, a transformação ambiental também depende do acesso à informação e à formação. Por isso, o projeto oferece cursos e oficinas gratuitos para pessoas a partir dos 15 anos, com conteúdos voltados à sustentabilidade, à inclusão digital e ao desenvolvimento de novas habilidades.

São quatro áreas de formação:

  • Introdução à Economia Circular Criativa e Solidária: apresenta conceitos de reaproveitamento, sustentabilidade, criatividade e geração de oportunidades a partir dos recursos disponíveis.
  • Introdução à Informática e ao Pacote Office: desenvolve conhecimentos básicos sobre o uso do computador e de ferramentas digitais importantes para os estudos, o trabalho e a vida cotidiana.
  • Introdução à Preservação Ambiental e à Coleta Seletiva: aborda práticas sustentáveis, separação de resíduos e descarte ambientalmente responsável.
  • Introdução à Robótica e à Inteligência Artificial: aproxima os participantes de conceitos tecnológicos e de inovação, incentivando a curiosidade, o aprendizado e o desenvolvimento de novas habilidades.

Na linguagem popular do projeto, é tudo “0800”. As atividades são totalmente gratuitas. Atualmente, uma das turmas conta com dez alunos e há vagas abertas para novos participantes.

A proposta é ampliar o acesso de jovens e adultos à aprendizagem, especialmente daqueles que enfrentam barreiras financeiras para participar de cursos e acessar ferramentas tecnológicas. Com isso, a GreenLoop busca contribuir para a inclusão digital, o desenvolvimento de competências e a ampliação das perspectivas de inserção profissional.

Da realidade local aos espaços de inovação

A experiência desenvolvida no Complexo do Alemão também vem sendo compartilhada em eventos de alcance nacional. A GreenLoop participa como palestrante em espaços de debate sobre sustentabilidade, inovação, empreendedorismo de impacto e transformação social.

Entre os eventos estão a Expo Favela 2025, a Rio Innovation Week 2026, o Web Summit Rio 2026 e o Rio2C.

A presença nesses encontros permite levar para além do Complexo do Alemão as discussões sobre os desafios ambientais e sociais enfrentados pelas comunidades, além de apresentar soluções construídas a partir da realidade local.

O trabalho também dialoga com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), estabelecidos pela Organização das Nações Unidas e integrados à Agenda 2030. O plano global reúne objetivos voltados à erradicação da pobreza, à proteção do planeta e à promoção da paz e da prosperidade para todas as pessoas.

Ao conectar a reciclagem de resíduos eletrônicos à educação, à inclusão produtiva e ao acesso à tecnologia, a GreenLoop contribui para pautas relacionadas ao consumo e à produção responsáveis, à educação de qualidade, ao trabalho decente e à ação contra a mudança global do clima.

Uma equipe que conecta conhecimento e transformação

A GreenLoop reúne profissionais de diferentes áreas que contribuem para o desenvolvimento e a divulgação da iniciativa, fortalecendo o trabalho de sustentabilidade, inovação e inclusão social realizado no Complexo do Alemão.

A equipe é formada por Nilson Ferreira, CEO da GreenLoop; Athirson Santos, responsável pelo marketing; Beatriz Tavolaro, relações-públicas; e Ubirajara Mattos, analista de sistemas.

A atuação integrada desses profissionais contribui para o desenvolvimento do projeto e para a construção de soluções socioambientais que conectam tecnologia, educação e sustentabilidade.

Como participar e fortalecer essa transformação

Moradores do Complexo do Alemão e de outras localidades podem contribuir com o trabalho da GreenLoop por meio do descarte correto de equipamentos eletrônicos, da divulgação do projeto e da participação nos cursos gratuitos.

Quem possui aparelhos sem uso pode entrar em contato com a equipe para receber orientações sobre os pontos de entrega e verificar a possibilidade de retirada, conforme o volume de materiais e a disponibilidade. O projeto também está aberto à construção de novas parcerias com instituições, empresas, associações e organizações comprometidas com a sustentabilidade e a inclusão social.

A GreenLoop acredita que a transformação começa quando a própria comunidade se reconhece como parte da solução. Cada equipamento destinado corretamente, cada pessoa que participa de uma formação e cada parceria construída representa um passo na direção de um território mais sustentável e com mais oportunidades.

Para Nilson “NEM”, o compromisso com o meio ambiente também passa pela união dos moradores e pela construção coletiva de novas possibilidades para o futuro.

“Hoje, deixo uma mensagem para o meu e seu Complexo do Alemão: juntos somos mais fortes. Unidos, lutaremos por um mundo sustentável melhor, cheio de oportunidades e ar puro. Do verde, a esperança de um planeta melhor.”

Foto: Divulgação / Juliana Henrik

Serviço | GreenLoop Reciclagem de Resíduos Eletrônicos e Sustentabilidade

Endereço: Praça do Terço, nº 15, Nova Brasília, Complexo do Alemão, Rio de Janeiro.

Contato: (21) 96444-7531, Nilson Ferreira.

Instagram: @green.loopoficial.

Cursos: gratuitos, destinados a pessoas a partir dos 15 anos.

Inscrições: há vagas abertas. Para consultar as turmas e obter informações sobre a participação, entre em contato pelo telefone ou pelo Instagram do projeto.