Um ano depois da megaoperação que deixou 122 mortos nos Complexos do Alemão e da Penha, um relatório traz denúncias graves sobre o que policiais militares fizeram naquele dia. O documento foi feito pela Defensoria Pública do Rio de Janeiro junto com o Projeto Mirante, que investiga casos de violência da polícia. Os pesquisadores assistiram às gravações das câmeras que ficam presas na farda dos policiais. Segundo eles, as imagens e os áudios indicam tortura, agressões e ameaças de morte contra pessoas suspeitas de crime. Moradores e trabalhadores da região também foram agredidos e ameaçados.
A operação, realizada em 28 de outubro de 2025, ficou marcada pelo alto número de mortes e passou a ser apontada por organizações e especialistas como a mais letal da história do Rio de Janeiro e do Brasil. Entre os mortos estavam 5 policiais.
Homem preso foi ameaçado e agredido
Um dos casos mais graves aconteceu na Penha. Um homem foi preso por policiais do Batalhão de Choque. Nas imagens, ele aparece deitado no chão, com o pé de um policial sobre a cabeça. Um sargento diz que o homem deve ser levado para um beco e fala, em tom de ameaça, que vão matá-lo.
Depois, as gravações mostram o homem sendo agredido no rosto e com um pedaço de madeira. Um pano sujo de sangue foi colocado sobre a cabeça dele, enquanto os policiais perguntavam onde estava um fuzil. Também há falas sugerindo que ele poderia ser jogado de um lugar alto. O relatório aponta que ficaram cerca de 17 minutos sem nenhuma imagem do homem. A arma só aparece depois desse tempo, e nenhum vídeo mostra o momento em que ela teria sido encontrada.
Mototaxistas, mulheres e idoso também sofreram
No Complexo do Alemão, o relatório descreve abordagens feitas por policiais de outro batalhão. Segundo o documento, mototaxistas levaram tapas e chutes, e um motociclista foi sufocado com uma peça de roupa. Em um supermercado, os policiais jogaram gás sobre mulheres e crianças. Funcionários passaram mal, e os policiais aparecem rindo.
Mulheres que desciam de um ônibus foram atingidas por armas de choque elétrico, e pelo menos 7 foram presas. Uma delas levou o choque mesmo depois de já estar dominada, quando pedia calma. Uma trabalhadora da saúde também foi agredida com choque e gás no rosto, e ouviu xingamentos e ameaças.
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Mulher é atingida por arma de taser em megaoperação no Alemão Foto: Reprodução / Fonte G1
Um senhor que filmava a abordagem com o celular foi obrigado pelos policiais a apagar o vídeo. Os pesquisadores dizem que algumas pessoas apanharam mesmo depois de os policiais não encontrarem nada que ligasse elas ao tráfico.
Câmeras tapadas, viradas ou desligadas
O relatório também mostra que muitas câmeras não cumpriram o papel de proteger a população. Dos 1.802 policiais militares que participaram da ação, apenas 595 estavam com câmera. Os pesquisadores receberam mais de 10 mil arquivos, de 529 policiais, mas nenhum mostra o momento em que as pessoas morreram. Para os autores, isso impede que se saiba como tudo aconteceu de verdade.
Também faltam as gravações de 69 policiais militares. Em vários vídeos, a câmera foi tirada da farda, virada para a parede ou para o teto, tapada com a mão ou desligada. Em um caso, um policial desligou o aparelho depois de pegar uma ripa de madeira dentro de um supermercado. O documento ainda cita duas câmeras ligadas ao mesmo registro de um policial, gravando ao mesmo tempo em lugares diferentes.
Entre os 50 policiais do Bope que mais atiraram, só 8 estavam com câmera. As gravações de apenas 2 foram entregues, e terminam antes de eles chegarem aos complexos. O Bope disparou 86,6% das balas contadas pelas unidades especiais da PM. Na Polícia Civil, nenhuma gravação do grupo Core foi entregue aos pesquisadores.
Perícia pode demorar anos
A Polícia Federal já analisou as imagens da Core, mas as da PM ainda não avançaram. Os vídeos somam cerca de 4,5 mil horas. Segundo a própria PF, seriam necessários cerca de 3 anos para ver tudo, com 10 peritos trabalhando. Por isso, a PF pediu que a PM apontasse os trechos mais importantes, mas isso não foi feito.
O relatório não diz quem é culpado pelas mortes. Os autores afirmam que as falhas nas imagens precisam ser explicadas pelas autoridades.
Para onde o relatório foi enviado
O documento foi mandado ao Ministério Público do Rio, às corregedorias das polícias Civil e Militar, à Secretaria de Segurança Pública e ao ministro da Justiça. A corregedoria é o setor que investiga o comportamento dos próprios policiais.
Se você sofreu violência, procure ajuda
Moradores que sofreram agressões, ameaças ou outras violações de direitos durante a operação podem buscar atendimento gratuito na Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro.
Canais de atendimento
- Telefone: 129 (orientações e agendamentos)
- WhatsApp:(21) 99290-5169
- Site: defensoria.rj.def.br
- Atendimento online e presencial mediante agendamento.
O que reunir para a denúncia
- Fotos, vídeos ou áudios;
- Nome de testemunhas;
- Laudos ou atestados médicos, se houver;
- Data, horário e local da ocorrência.
A Defensoria também recebe relatos de violência policial e outras violações de direitos humanos.
