Em 28 de outubro de 2025, uma operação policial nos complexos da Penha e do Alemão terminou com mais de 122 mortos e se tornou uma das ações policiais mais letais da história do país. A operação, batizada de Contenção, deixou marcas que vão além das mortes: moradores tiveram a rotina interrompida, comerciantes enfrentaram um cenário de medo e famílias passaram a conviver com a perda de parentes.
Às vésperas de completar um ano, a ação continua no centro do debate sobre segurança pública no Rio de Janeiro. Enquanto investigações sobre possíveis irregularidades seguem em andamento, relatos de moradores e uma pesquisa realizada em quatro grandes conjuntos de favelas questionam a eficácia do modelo baseado em confrontos armados. Ao mesmo tempo, o plano de governo de Douglas Ruas, eleito governador do Rio de Janeiro em primeiro turno, após decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), apresenta a ocupação permanente de territórios dominados por facções como uma das estratégias de segurança.
Para quem sobreviveu aquele dia, porém, a discussão não se resume à presença policial. Envolve também a possibilidade de circular, trabalhar, acessar serviços e viver sem o medo de que uma nova operação interrompa tudo novamente.

O medo que fica depois dos tiros
Um comerciante da região da Penha, que pediu para não ser identificado, trabalha há mais de 25 anos no território. Ele conta que a operação começou de madrugada e que, no início, os moradores não sabiam de onde vinham os disparos. Ao longo do dia, viu pessoas chorando, corpos no chão e familiares tentando reconhecer os mortos. “Eu tenho mais de 25 anos de comércio aqui e nunca vi algo como aquilo. Tanta gente chorando, a igreja ajudando, as pessoas tendo que reconhecer os corpos. Foi triste demais”, relembra.
Ele diz que o medo não se limitou ao dia da operação. Depois que os jornalistas foram embora, permaneceu a preocupação com a possibilidade de uma nova ação policial. A proximidade do fim do ano, período importante para as vendas, também foi afetada pelo impacto emocional da violência. “Eu nunca vi tanta gente morta nesse chão. Fiquei com os gritos na cabeça. Era quase final de ano, acabou com tudo. Comemorar o quê? Vender o quê? Quem ia fazer Natal com aquela cena na nossa cabeça?”, lamenta.
Para ele, não houve mudanças suficientes depois da operação. “Tá tudo igual. A operação só serve pra matar”, afirma, resumindo sua percepção sobre os resultados da ação.
O luto continua presente na vida de Rackel Rio, mãe de Yago Ravel, morto de maneira cruel durante a chacina. Além de lidar com a perda do filho, ela acompanha a saudade sentida pela neta, que pergunta pelo pai. Diante de uma perda tão violenta, Rackel também chama atenção para a importância do acolhimento e do apoio às famílias que precisam reconstruir a vida depois de uma tragédia como essa.
“Meus dias não são fáceis eu estou sempre me reinventando, meu filho se foi da pior maneira possível e com ele se foi quem eu era também deixou um vazio, minha neta e meu filho mais novo que são meus motivos pra continuar e Deus que tem me sustentado. Luto é devastador se você não tiver um motivo pra continuar, sabedoria e discernimento ele te consome”, diz a mãe.


Pesquisa aponta rejeição ao modelo atual
A percepção de que as operações não garantem segurança aparece também na pesquisa Por que moradores de favelas aprovam ou reprovam operações policiais com confronto armado?, divulgada em maio de 2026. O levantamento ouviu presencialmente 4.080 moradores dos complexos da Penha e do Alemão, da Maré e da Rocinha, em janeiro deste ano e foi realizado por seis organizações da sociedade civil com atuação nas favelas
Segundo o estudo, 73% dos entrevistados discordam das operações policiais com confronto armado realizadas nesses territórios. Quando perguntados sobre a forma como as ações são conduzidas atualmente, 92% desaprovam o modelo. Além disso, 95% consideram que as operações não contribuem para aumentar a segurança das famílias. Para 85% dos participantes, ações com número elevado de mortes, como a de outubro de 2025, não deveriam se repetir.
Os dados também mostram que 91% dos entrevistados reconhecem a existência de excessos e ilegalidades policiais, enquanto 61% dizem perceber racismo na maneira como as operações são planejadas e realizadas, e outros 13% afirmam que isso acontece às vezes.
O Estudo não representa apenas uma rejeição à presença do Estado, mas aponta a demanda por outra forma de atuação. Entre os entrevistados, 68% defendem que as operações sejam realizadas de maneira diferente, enquanto 24% dizem que elas não deveriam ocorrer em favelas.
Para Eliana Sousa Silva, diretora-fundadora da Redes da Maré e coordenadora do estudo, é necessário reconhecer a experiência dos moradores e considerar o conhecimento produzido pelas organizações que acompanham a violência nos territórios. “É fundamental que os novos governantes consigam olhar para esse processo histórico de negligências e violações de direitos e percebam a segurança pública como um direito humano”, afirma.
Eliana destaca que as operações afetam serviços, trabalho e circulação. Escolas podem fechar, unidades de saúde interromper o atendimento e moradores deixar de comparecer a consultas ou ao emprego. Para ela, esse cenário não pode ser tratado como garantia de segurança pública. “A vida hoje de uma pessoa que mora em favela está completamente banalizada. Ela não tem a mesma valoração que se tem quando estamos pensando em outras regiões da cidade”, diz.

As propostas do novo governo do Estado e o desafio da mudança
No plano de governo de Douglas Ruas (PL), eleito até o momento novo governador do Rio de Janeiro, a segurança pública aparece como prioridade. Entre as propostas está o programa Escudo Fluminense, que prevê o uso de tecnologias como reconhecimento facial, leitores de placas e drones, além da ocupação permanente de comunidades dominadas por grupos armados. O documento também propõe retirar o índice de letalidade policial das metas da corporação, sob o argumento de que o indicador não diferencia mortes em legítima defesa de homicídios cometidos por agentes.
As propostas colocam em debate quais resultados serão usados para avaliar a política de segurança. O uso de tecnologia e a permanência das forças policiais nos territórios, por si só, não respondem às preocupações apontadas pelos moradores: redução de mortes, prevenção de abusos, respeito aos direitos humanos e acesso contínuo a serviços públicos.
Douglas descartou interferências políticas nos comandos da segurança e avaliou que o modelo das antigas UPPs cometeu falhas ao ocupar áreas com rapidez sem prender lideranças criminosas, gerando a migração de quadrilhas para outros municípios. “No meu governo o Estado entra e não sai mais”, declarou.
A discussão ganha importância também diante dos desdobramentos judiciais da Operação Contenção. Em 8 de outubro de 2026, a Auditoria da Justiça Militar recebeu três denúncias do Ministério Público do Rio de Janeiro contra oito policiais militares por suspeitas de crimes como invasão de domicílio, furto e descumprimento de ordens. Segundo o MPRJ, parte dos agentes teria retirado ou obstruído câmeras corporais para impedir o registro regular da ação. Ao todo, o órgão informou ter apresentado seis denúncias contra 17 policiais relacionadas à operação. As acusações ainda precisam ser julgadas.
Nas eleições de 2026, os ex-secretários estaduais das polícias Civil e Militar, que estiveram à frente da Operação Contenção, conquistaram cargos legislativos: Felipe Curi foi eleito deputado federal e Marcelo de Menezes, deputado estadual. O resultado eleitoral não permite concluir, por si só, como os eleitores avaliam a operação, mas mostra que nomes ligados à segurança continuam ganham espaço na política fluminense.
Procurada para comentar as propostas de segurança pública, os questionamentos levantados pelos moradores e Voz das Comunidades, a assessoria de Douglas Ruas não respondeu até a publicação desta reportagem.
Para Eliana, uma mudança efetiva exige superar a lógica exclusivamente bélica e considerar as experiências das comunidades na construção das políticas públicas. O desafio é garantir que a segurança seja um direito para quem mora nas favelas, e não uma rotina de medo e interrupções.
