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Violência doméstica ainda prende mulheres no silêncio 

Programas como Empoderadas e Patrulha Maria da Penha oferecem apoio a vítimas em territórios vulneráveis

Foto: Uendell Vinicius / Voz das Comunidades
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O barulho do portão, no fim da noite, era sempre o mesmo. Na casa simples onde vivia com o marido, em uma viela da Cidade de Deus, na Zona Sudoeste do Rio, Maria Rita da Silva*, hoje com 42 anos, aprendeu a reconhecer, antes mesmo de ver, quando a violência estava prestes a começar. Do lado de fora, o som distante de motos, conversas atravessando as casas, a vida acontecendo na favela. Do lado de dentro, o medo.

“Eu aprendi a ficar quieta. Porque qualquer coisa que eu falasse podia piorar”, lembra. As agressões não eram diárias, mas constantes o suficiente para que ela nunca se sentisse segura. Havia dias de silêncio, outros de tensão, e alguns em que a violência acontecia, a física e também a psicológica. “Não era só quando ele me batia. Era o jeito que ele me olhava, o controle, o medo que ficava depois. Eu vivia com medo até quando ele não estava fazendo nada.”

Com o tempo, Maria Rita passou a adaptar a própria rotina para evitar conflitos. Em um território onde tudo é próximo, casas coladas, vozes que atravessam paredes, vizinhos que escutam, o silêncio virou estratégia de sobrevivência. “Você vai se diminuindo. Vai achando que a culpa é sua, que você provocou aquilo de alguma forma.” A violência se repetiu por anos, dentro de um relacionamento que, para quem via de fora, parecia comum. Até que, depois de mais um episódio, ela decidiu procurar ajuda.

A história de Maria Rita não é isolada. Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) mostram que, entre 2024 e 2025, o estado do Rio registrou mais de 100 casos de feminicídio. Só nos dois primeiros meses de 2026, foram 12 casos, uma redução em relação ao mesmo período do ano anterior, mas que ainda evidencia a gravidade do problema. Além dos casos extremos, a violência psicológica e o controle dentro de casa seguem sendo formas silenciosas e recorrentes de agressão.

Dados revelam que a violência se manifesta de múltiplas formas, com destaque para agressões físicas, ameaças e crimes psicológicos. Foto: Uendell Vinicius / Voz das Comunidades

Ainda de acordo com a pesquisa, no recorte de perfil das vítimas, os dados indicam que a violência atinge majoritariamente mulheres em idade produtiva. A faixa etária entre 30 e 59 anos concentra 54,5% dos registros, seguida por mulheres de 18 a 29 anos, que representam 30,1% das ocorrências. Em relação ao estado civil, a maioria das vítimas é solteira (48,6%), enquanto 31,1% são casadas ou vivem em união estável, o que aponta para diferentes contextos de vulnerabilidade e desafios no rompimento do ciclo da violência. A análise também revela um recorte racial importante: mulheres negras, pretas e pardas, correspondem à maioria das vítimas no estado, com 52,1% dos casos registrados

Nas favelas e periferias, o cenário pode ser ainda mais complexo. O medo, a falta de informação, a dependência financeira e as dinâmicas próprias desses territórios dificultam a denúncia e o acesso à rede de proteção. “Em alguns locais, a mulher enfrenta obstáculos adicionais, como a necessidade de comunicar ou até mesmo pedir autorização informal para buscar ajuda”, explica Erica Paes, fundadora do Programa Empoderadas.

 “Não ensinamos mulheres a baterem em homens. Ensinamos mulheres a não morrerem nas mãos deles”, afirma Erica Paes, fundadora do Programa Empoderadas. Foto: Empoderadas RJ

Iniciativas de apoio às vítimas 

Criado pelo Governo do Estado, o programa atua na prevenção da violência e já impactou mais de 2,5 milhões de mulheres no Rio de Janeiro, muitas delas moradoras de favelas e periferias. A iniciativa oferece acolhimento psicológico, social e jurídico, além de aulas preventivas de segurança. Atualmente, o programa conta com 58 polos de atuação, inclusive um deles no Complexo do Alemão. “Não ensinamos mulheres a baterem em homens. Ensinamos mulheres a não morrerem nas mãos deles”, afirma Erica.

Segundo ela, o trabalho vai além do físico. “Quando a mulher entende o risco, se reconhece e percebe que não está sozinha, ela passa a se sentir mais segura para buscar ajuda e romper com a violência.”

A atuação da rede de proteção também tem avançado no Estado. Atualmente, o Rio conta com 54 Centros Especializados de Atendimento à Mulher (CEAMs), que oferecem suporte gratuito, sem necessidade de registro de ocorrência. “É fundamental que as mulheres saibam que esse serviço existe e que elas não estão sozinhas”, destaca a subsecretária estadual da Mulher, Giulia Luz.

Atualmente, o Estado do Rio de Janeiro conta com 54 Centros Especializados de Atendimento à Mulher (CEAMs), que oferecem suporte gratuito, sem necessidade de registro de ocorrência. Foto: Fernanda Sabença

Mas, para além das políticas públicas, o enfrentamento à violência passa também pela atuação direta nos territórios, onde a presença do Estado ainda chega de forma desigual. É nesse contexto que a Patrulha Maria da Penha tem desempenhado um papel fundamental. “Hoje, a mulher não está mais sozinha”, afirma a major Bianca Ferreira, coordenadora do programa no estado.

“A Patrulha garante que a medida protetiva não seja apenas um papel, mas uma proteção real, acompanhada e fiscalizada.” Segundo a major, o acompanhamento contínuo é essencial para romper o ciclo da violência. “Quando a mulher sabe que alguém vai voltar, vai acompanhar, vai se importar, ela cria confiança para seguir em frente.”

Ela relembra que, em casos de agressão, a orientação imediata é ligar para o 190, buscar um local seguro e acionar alguém de confiança. Após o episódio, é fundamental registrar a ocorrência, solicitar medida protetiva e buscar atendimento na rede de apoio, que pode ser alguém próximo.

“E um ponto importante: não minimizar a violência. Muitas vezes ela começa pequena e escala”, alerta. A Patrulha atua com visitas regulares às vítimas e responde rapidamente em caso de descumprimento das medidas judiciais, o que pode levar à prisão do agressor.

Enquanto isso, histórias como a de Maria Rita mostram que romper o ciclo da violência é possível, mas, dentro das favelas, esse caminho ainda exige enfrentar não só o agressor, mas também o medo, o silêncio e a falta de acesso à informação. “Eu achava que nunca ia sair. Hoje, eu consegui. Não foi fácil. Só consegui porque tive ajuda”, conta Maria Rita. 

Em um cenário onde a violência doméstica ainda faz parte da realidade de muitas mulheres, especialmente nas favelas e periferias, o acesso à informação e à rede de proteção se torna fundamental para romper o ciclo de agressões. Entre avanços nas políticas públicas e desafios ainda presentes nos territórios, especialistas reforçam que denunciar, buscar apoio e fortalecer os serviços de acolhimento são passos essenciais para garantir a segurança das mulheres.

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*nome fictício.