Ir para o conteúdo

Luta por justiça social da Baixada: Conheça Juliana Coutinho

Historiadora utiliza o conhecimento ancestral das periferias para construir um futuro digno para as favelas

Foto: Vilma Ribeiro / Voz das Comunidades
Ouça este conteúdo
00:00 00:00
Leitura pronta para iniciar

Um dos grandes desafios de uma liderança é a mobilização política, que vai muito além dos processos eleitorais. Mobilizar é capacitar pessoas, melhorar territórios, atuar dentro do coletivo e transformar realidades.

É exatamente isso que Juliana Coutinho, mulher negra, favelada e historiadora, natural de Queimados, traz em seu repertório de experiências. Cria da Vila Americana, uma região que passou de paisagem rural para um cenário de expansão urbana, Juliana entendeu cedo que, na Baixada Fluminense, a justiça social não é um conceito teórico de universidade, mas uma negociação diária pelo direito de viver.

“Depois da minha infância, migrei para uma favela que não era favela antes da chegada da UPP. A Baixada Fluminense tem 13 municípios e sofre um impacto muito grande de ausência de política pública. Quando acontece uma chacina em território, o impacto é muito diferente. As pessoas se veem muito sozinhas”.

A questão da segurança pública se concretizou na sua vida como um “divisor de águas”. Com a presença da PM, não conseguiu mais fazer trabalhos de cunho social no território. Mas foi uma pausa breve. Na sequencia, se levantou com sua mãe e algumas amigas em atividades sociais, como o programa Mais Educação. “Dei aulas de dança na escola que minha mãe atuava. Além disso, explorei um talento que tinha na adolescência: Rimar”, conta ela revelando também ser slammer.

“Eu aprendi a ser uma pessoa bruta”

A trajetória de Juliana foi e ainda é muito movida pelos enfrentamentos e desenrolos. Ao abordar brutalidade, ela se refere nas lutas de levantar bandeiras a favor do território e das pessoas que vivem nele. “A gente aprende a ser muito vaselina e acontece abusos. Quando eu olho para as minhas velhas, vejo o quanto aprendo com elas, pelas lutas que elas tiveram antes da gente. Elas precisavam ser brutas uma hora. E da forma que os governantes tratam o Rio de Janeiro, a gente precisa vestir essa persona”. 

Atualmente Juliana atua em três frentes: Estrategista na Ação da Cidadania, articuladora do Movimento Mulheres Negras Decidem (MND) e integrante da Coalização O Clima é de Mudança. O trabalho exige a força da imagem de alguém que brigue por direitos, mas também expõe dificuldades e desafios.. “O MND para mim foi é o meu lugar de respiro porque a partir delas, acabei ocupando conselhos municipais, inclusive o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente. Esse conselho é deliberativo, mexe com orçamento, então por conta disso, eu sofro impacto de violência. Já sofri ameaça, fui convidada a me retirar do meu território… Então, isso é mexer com coisas que eu nem sabia como funcionava. E acontece porque nem eles tinham visto alguma vez na vida uma mulher negra jovem ocupando aquele espaço”.

Protagonizando um papel estratégico nas organizações que atua, Juliana aponta desafios. A fome, por exemplo, é o indicador final do colapso da dignidade humana.Ela também coloca que a desigualdade atinge outros setores da sociedade como transporte e juventude, impactando a cidadania local. “É loucura viver em um lugar sem política pública. É operação policial, escola sem luz, falta de creche. E aí na necessidade básica que uma pessoa deve ter, ela não tem acesso. E aí se o  Estado não aplica política, quem aplica? Pois é!”