Conhecido como o “pulmão do subúrbio”, o Parque Municipal Ary Barroso, localizado na Penha, na Zona Norte do Rio, completou 61 anos no sábado, 13 de dezembro, em meio a um cenário de abandono, descaso e ausência do poder público. Considerado o parque mais antigo da Leopoldina, o espaço, que deveria cumprir função ambiental, social e cultural, hoje apresenta portões fechados com cadeados, acúmulo de lixo e falta de sinalização.
Para marcar o aniversário e denunciar a situação, movimentos sociais, moradores e representantes de entidades civis realizaram uma ação simbólica dentro do parque. O ato reuniu apresentações culturais, atividades esportivas e um abraço coletivo, com o objetivo de chamar atenção para a necessidade urgente de revitalização.
Um parque histórico, hoje fechado à população
Atualmente, a porta principal do Parque Ary Barroso permanece trancada, sem qualquer placa informativa com o nome do espaço ou horários de funcionamento. Na parte mais alta do parque, o lixo se acumula e a falta de manutenção é visível. Além disso, áreas que antes eram destinadas ao lazer passaram a ser utilizadas como estacionamento de viaturas da Polícia Militar.

“Esse portão fechado é muito simbólico”, afirma Arthur Lucena, morador das Quatro Bicas e líder do movimento Ary Barroso Livre. Frequentador do parque há mais de dez anos, ele explica que o fechamento se intensificou após a ocupação militar da região. “Antes, mesmo com a UPA instalada aqui desde 2008, o parque seguia aberto. Depois que virou base para operações de segurança, começou a fechar”, relata.
Mobilização popular e cobrança por respostas
Criado há cerca de um ano, o movimento Ary Barroso Livre reúne iniciativas ambientais, culturais e de direitos humanos. A proposta é construir um calendário de ações para 2026, estimulando o uso do parque e pressionando o poder público. “Esse evento mostra as várias formas de ocupar o parque: música, poesia, esporte, cultura indígena. Tudo isso já acontece aqui, mas precisa de apoio”, diz Arthur.

Entre as principais reivindicações estão a reabertura dos portões, a instalação de iluminação, acessibilidade, retorno das cascatas, importantes em períodos de calor extremo, e a retirada de estruturas provisórias de segurança. Segundo o movimento, há desde 2019 uma determinação do Ministério Público para que unidades policiais deixem o interior do parque, por se tratar de área ambiental.
“É o coração da Leopoldina”
A mobilização contou com o apoio da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), subseção Leopoldina. Para a Comissão de Direito Ambiental, o Parque Ary Barroso é estratégico para a região. “Esse parque é o coração da Leopoldina. Em um momento de crise climática, precisamos cuidar das áreas verdes que já existem”, afirma Andrea Neves, presidente da Comissão de Direito Ambiental da OAB Leopoldina.

Segundo ela, não se trata apenas de criar novos espaços, mas de preservar os históricos. “É o parque mais antigo do subúrbio. O mínimo pode ser feito: placa informativa, portões abertos e iluminação”, defende.
Memória, afeto e abandono
Moradores antigos acompanham com tristeza a transformação do parque. Um deles, Edesio Souza de 72 anos, relembra que criou a filha no local e que os netos também frequentavam o espaço. “Isso aqui sempre foi da comunidade. Escolas vinham, tinha aulas de luta, atividades do Corpo de Bombeiros. Hoje é abandono total”, lamenta.

Ele destaca que a presença constante de viaturas e policiais armados afastam os frequentadores. “Um parque não é lugar para isso. Já houve decisões do Ministério Público para retirar essas estruturas daqui, mas ninguém cumpre”, afirma.
Futuro em disputa
Enquanto o poder público se mantém em silêncio ou transfere responsabilidades entre prefeitura e governo do estado, a sociedade civil segue mobilizada. Para os movimentos sociais do território, a revitalização do Parque Ary Barroso não é apenas uma questão ambiental, mas de direito à cidade, memória e qualidade de vida.
“A gente não quer o parque sem segurança”, reforça Arthur. “Queremos o que existe em outros parques municipais: Guarda Municipal, apoio da PM e iluminação. O parque precisa voltar a ser da população.”
Após 61 anos de história, o Parque Municipal Ary Barroso segue como símbolo de resistência e de uma disputa urgente entre abandono e possibilidade de futuro.

