O mês de novembro marca uma das campanhas de saúde mais importantes do calendário nacional: o Novembro Azul. Ela foi criada para conscientizar sobre o câncer de próstata e promover o cuidado integral com a saúde do homem.
No Brasil, esse tipo de câncer é o segundo mais comum entre os homens, atrás apenas do câncer de pele não melanoma, segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA). Estima-se que mais de 71 mil novos casos sejam diagnosticados anualmente.
A campanha, criada nos anos 2000, tinha como foco inicial o rastreamento e a detecção precoce do câncer de próstata. Com o passar do tempo, o movimento passou a abordar a saúde masculina de forma mais ampla, incluindo aspectos físicos, emocionais e sociais.
“Hoje, o Novembro Azul não fala apenas de um órgão, mas do homem como um todo, com todos os atravessamentos culturais, sociais e territoriais”, explica o médico Guilherme Vale, da Clínica da Família Zilda Arns, no Rio de Janeiro.

Falta de prevenção ainda preocupa
Apesar da importância do tema, menos de 40% dos homens com mais de 50 anos realizam exames de próstata regularmente, segundo levantamento da farmacêutica Apsen em parceria com as seccionais da Sociedade Brasileira de Urologia em 2024.
Outro dado preocupante vem do Conselho Federal de Enfermagem: três em cada dez homens nunca fizeram o exame de toque retal, considerado essencial para o diagnóstico precoce.
Sintomas e diagnóstico
Os sintomas do câncer de próstata costumam ser silenciosos nos estágios iniciais, mas alterações no ato de urinar, como jato urinário fraco, vontade frequente de urinar à noite e sensação de esvaziamento incompleto da bexiga podem ser sinais de alerta. Em geral, o rastreamento é indicado a partir dos 50 anos, ou dos 45, em casos com histórico familiar da doença.
Além do exame de PSA (Antígeno Prostático Específico), o toque retal segue sendo um dos métodos mais eficazes para identificar alterações precoces na glândula. Entretanto, o estigma em torno do exame ainda afasta muitos homens das consultas médicas.
“Existe uma barreira cultural forte que associa o cuidado com a saúde à fragilidade. Mas cuidar de si não é sinal de fraqueza, é um ato de responsabilidade e amor próprio”, enfatiza o médico.
Saúde mental e violência: outros desafios masculinos
O Novembro Azul também chama atenção para outro tema urgente: a saúde mental do homem. Segundo dados do Ministério da Saúde, os índices de suicídio e violência letal são significativamente mais altos entre o público masculino. “Além das doenças físicas, precisamos olhar para os aspectos emocionais. Muitos homens sofrem calados, carregando pressões sociais e medo de demonstrar vulnerabilidade”, aponta o médico.
A campanha também busca romper com o mito da invulnerabilidade masculina. “O homem muitas vezes não procura o posto de saúde por achar que pedir ajuda é sinal de fraqueza. A cultura do ‘aguentar tudo’ adoece. Nosso papel é mostrar que buscar cuidado é um ato de coragem”, completa.
Atividade física e prevenção: o exemplo da Academia Carioca
Um dos programas públicos que mais contribuem para o cuidado integral da saúde masculina é o Academia Carioca, iniciativa da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro. O projeto oferece atividades físicas gratuitas em espaços públicos e nas Clínicas da Família, promovendo não apenas o condicionamento físico, mas também a socialização e o bem-estar psicológico.
Para o professor Damião Leite Tavares, que atua no programa há mais de dez anos, a academia é “muito mais que um espaço de exercício, é um ponto de acolhimento e convivência”. “Aqui o aluno cuida do corpo, da mente e ainda cria laços. Muitos acabam encontrando novas oportunidades de trabalho ou motivação para mudar o estilo de vida”, explica.
O aposentado Luiz Antônio da Silva, de 66 anos, é um exemplo dessa transformação. Frequentador da academia desde 2010, ele emagreceu mais de 20 quilos e se tornou defensor da saúde preventiva. “Entrei pesando 108 kg e hoje estou com 86. Já fiz meus exames, inclusive o da próstata, e deu tudo certo. Sempre digo aos meus amigos: se cuidar é o melhor remédio”, afirma.

