Nas tardes abafadas de Bangu, Realengo e Vila Vintém, o ar parece pesar mais. Em dias de calor extremo, o asfalto ferve, o vento some e o sol transforma as casas em verdadeiras estufas. Nessas regiões da Zona Oeste do Rio, onde o termômetro ultrapassa facilmente os 40 °C, o calor não é apenas desconforto, é um problema de saúde, de infraestrutura e de desigualdade.
“Afeta sim. Quando o calor aperta, eu tomo banho no quintal. Aqui é tudo de telha, a casa esquenta demais. Moro sozinha, sou deficiente e não tenho bomba d’água, então os vizinhos me ajudam”, conta Suzana Batista dos Santos, de 47 anos, moradora da Vila Vintém. O improviso virou rotina. “Pra dormir é difícil, só dá depois das onze da noite. Eu faço tudo de biquíni e tomando banho o tempo todo. Aqui é calor, mas a gente é de raça!”


Suzana vive o que milhares de famílias das periferias do Rio conhecem bem: o calor que entra sem pedir licença e transforma o cotidiano. Para ela, sair de casa também é um desafio. “Sou deficiente e andar devagar no sol quente me deixa mal, a pressão sobe. Às vezes nem me arrisco a pegar condução. Já trabalhei 14 anos em Bangu, e era insuportável, tinha que entrar em loja pra não desmaiar.”
O calor que tem cor e CEP

O fenômeno das ilhas de calor urbanas explica parte dessa desigualdade térmica. Segundo o professor e geógrafo Andrews Lucena, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e morador de Bangu, as áreas mais pobres são também as mais quentes. “Quanto menos árvores e mais superfícies artificiais, mais energia se acumula. E a Zona Oeste tem crescido com pouca infraestrutura verde, o que favorece temperaturas elevadas.” Essas áreas sofrem não apenas com o clima, mas com o que Lucena define como *racismo ambiental, processo que expõe populações negras e pobres a condições ambientais mais precárias. “Os ambientes mais vulneráveis ambientalmente são também os mais vulneráveis socialmente. As pessoas mais pobres vivem sob telhas de amianto, sem ventilação e sem acesso a ar-condicionado. Elas são as mais atingidas pelo calor e têm menos condições de se proteger.”
A desigualdade se materializa nas ruas: bairros como Bangu e Santa Cruz registram as maiores temperaturas médias da cidade, segundo medições do próprio pesquisador. “Em Santa Cruz, por exemplo, há aumento de temperatura próximo à empresa Ternium, que contribui para a poluição atmosférica e o aquecimento local.”
Enquanto isso, áreas nobres, como a Barra da Tijuca, com condomínios planejados e arborização, são projetadas para dissipar o calor. “Por que a Ternium foi para Santa Cruz e não para a Barra? Porque é uma empresa altamente poluente. Essa escolha mostra a lógica do racismo ambiental no planejamento urbano.”
De acordo com o IBGE, 37% das ruas do Grande Rio não têm nenhuma árvore. Em regiões como Vila Kennedy e Senador Camará, a ausência de sombra se soma ao concreto e às coberturas metálicas, que amplificam o calor. “A árvore ajuda na ventilação da vida. Sem elas seria impossível viver, diz Suzana. “Aqui até tem uma pracinha com algumas árvores, mas é pouco.”

O calor intenso impacta diretamente a saúde. “O estresse térmico aumenta os casos de pressão alta, desmaios e até infartos. Além disso, o acúmulo de calor pode agravar enchentes, gerando doenças como leptospirose e hepatite”, explica Lucena. Ele alerta ainda para o risco de incêndios domésticos e curtos-circuitos, já que muitas famílias recorrem a gambiarras elétricas para ligar ventiladores ou aparelhos de ar-condicionado.
Políticas lentas diante da urgência
A Prefeitura do Rio anunciou recentemente o Plano de Verão 2025/2026, que prevê 151 obras para enfrentar o calor extremo e as chuvas intensas. Entre as ações estão a criação de novas áreas verdes, a contenção de encostas e o reforço na limpeza urbana. Também foi sancionada uma lei de arborização específica para a Zona Oeste, voltada para combater o calor e a poluição, mas, na prática, as medidas caminham devagar.
“O poder público até tem feito alguns esforços, reconhece Lucena. “Mas ainda é tímido. É preciso que o licenciamento ambiental limite a distância entre indústrias e moradias, que haja contrapartidas ambientais e planejamento participativo.”
*Racismo ambiental – quando comunidades pobres e negras acabam vivendo nos lugares mais quentes, poluídos e sem infraestrutura, enquanto áreas ricas têm mais árvores, sombra e proteção. É a desigualdade que aparece até no clima.
