Tem muita gente no Complexo do Alemão e no Complexo da Penha que ainda carrega na memória, e na pele, as marcas de 2010, quando o Exército Brasileiro invadiu as comunidades. Disparos, medo, sangue. Naqueles dias, os registros do que autoridades chamaram de “guerra às drogas” correram o mundo, colocando o Alemão nas manchetes internacionais. Depois da tensão e do luto, restou à favela do Complexo do Alemão conviver com o medo.
Após o episódio, o Governo do Rio prometeu uma nova era. Além das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora), anunciou investimentos em infraestrutura, cultura e esporte. Surgiram projetos sociais a partir da própria comunidade e o teleférico começou a operar. Um discurso de paz parecia possível. Mas o tempo revelou que o projeto era fachada. A favela, que sempre pediu por dignidade, foi traída novamente.
Quinze anos depois, o Estado repete o feito. Por volta das 4h da manhã de terça-feira (28), 32 blindados, dois helicópteros, drones e cerca de 2.500 agentes invadiram os complexos do Alemão e da Penha. A operação, batizada de “Contenção”, tinha o discurso de “retomada de território”. Logo nas primeiras horas, o barulho dos tiros tomou conta dos becos e vielas da favela. “Eu estava em casa com meus filhos e com a minha mãe. A gente teve que deitar no chão, porque era tiro demais. A madrugada toda tensa”, contou Fabiana Santos, 35 anos, moradora da Penha. “Eu estava saindo pra trabalhar e não consegui chegar no meu trabalho! Foi quando começou o tiroteio, umas 5 da manhã. E foi tiro o dia inteiro. Sem falar nas notícias de pessoas que tinham morrido. A gente fica sem ação no meio disso tudo”, relatou Taiane Oliveira, também da Penha.

Enquanto escolas e unidades de saúde suspendiam atividades e ônibus desviavam o itinerário, dentro da favela o desespero tomava forma. “Estão se escondendo na casa de morador! A guerra de vocês é na rua!”, gritava uma mulher em vídeo enquanto filmava agentes se posicionando dentro do seu terreno durante uma troca de tiros. Em outro registro, agentes arrombam a porta de uma casa cheia de mulheres e crianças. “Meu filho, moço! Meu filho!”, suplicava uma voz feminina, enquanto outra, masculina, ordenava uma prisão contra uma das mulheres.

Moradores denunciaram violações de direitos humanos: policiais invadindo casas, quebrando móveis, revirando armários, consumindo comida e bebida. “Fecharam tudo mais cedo e mandaram a gente pra casa. Tive que andar muito porque os ônibus não estavam passando. Quando cheguei, não tinha como entrar”, contou Matheus Teixeira, atendente de loja e morador do Complexo do Alemão. O dia 28 de outubro inteiro foi marcado por medo, tiros e incertezas.
No dia seguinte, quem sente a dor do luto é a favela
No dia 28, autoridades contabilizavam 64 mortos, sendo quatro policiais. O Governo do Estado classificou a operação como “um sucesso”, lamentando apenas a perda dos agentes. Mas no dia seguinte (29), a própria comunidade da Penha expôs a tragédia: cerca de 120 corpos foram encontrados na Serra da Misericórdia, palco central dos confrontos. Na Praça de São Lucas, os corpos foram estendidos no chão, muitos com marcas de tiros e cortes de arma branca, revelando a brutalidade dos agentes policiais. Enquanto familiares tentavam reconhecer os corpos, o cenário era de desespero. Mulheres choravam ajoelhadas, chamando pelos nomes dos filhos, irmãos e sobrinhos. Lágrimas de quem perdeu o chão. No Instituto Médico Legal, a Defensoria Pública montou uma base emergencial para ajudar famílias com documentos e liberação dos corpos.

Mesmo em meio ao luto, os moradores da Penha foram às ruas protestar. Entre faixas e gritos de revolta, a frase mais repetida era: “A gente, aqui da comunidade, só quer paz!”. Uma moradora desabafou: “Nenhuma mãe cria o filho pra criminalidade. Mas qual é a alternativa que o governo dá pra gente? Não tem projeto social, nem esporte, nem cultura. Eles só entram aqui com fuzil e matam o primeiro preto que veem!”, gritou. No meio da multidão, Alexandre Franchini, morador há 45 anos, fez um apelo: “Nunca vi algo tão cruel. Isso aqui não foi operação, foi assassinato em massa. Um genocídio!”. Já Margarete Nunes, também da Penha, sonha com um futuro possível: “Eu quero que a nossa juventude tenha cursos, oportunidades. Que a Penha volte a ser feliz.”

Nos dias que se seguiram, o Estado condecorou os policiais mortos no confronto como heróis enquanto a favela ainda chorava pela morte de mais 120 pessoas. Corpos jovens, negros e favelados, vítimas do Estado, responsável pela maior chacina da história do país pós-redemocratização.


Balanço de operações na cidade do Rio:
- Complexo do Alemão e Complexo da Penha – 121 mortos
- Jacarezinho (maio de 2021) – 28 mortos;
- Vila Cruzeiro (maio de 2022) – 24 mortos;
- Complexo do Alemão (junho de 2007) – 19 mortos;
- Complexo do Alemão (junho de julho de 2022) – 17 mortos;
- Senador Camará (janeiro de 2003) – 15 mortos;
- Fallet/Fogueteiro (fevereiro de 2019) – 15 mortos;
- Complexo do Alemão (julho de 1994) – 14 mortos;
- Complexo do Alemão (maio de 1995) – 13 mortos;
- Morro do Vidigal (julho de 2006) – 13 mortos;
- Catumbi (abril de 2007) – 13 mortos;
- Complexo do Alemão (agosto de 2004) – 12 mortos.
Fonte: GENI/UFF
A megaoperação reanimou o debate sobre o cumprimento da ADPF das Favelas, decisão do STF que exige planejamento, transparência e prestação de contas em ações policiais em favelas. Apesar do uso obrigatório de câmeras corporais por policiais militares, parte das imagens se perdeu, segundo informações, por falhas técnicas, como a falta de baterias extras, o que gerou questionamentos da Defensoria Pública e do Ministério Público. Organizações de direitos humanos denunciaram possíveis execuções e desaparecimentos, enquanto moradores relataram mais de 18 horas de tiroteios e paralisação de serviços essenciais.
A chacina da Penha foi maior do que qualquer episódio de violência policial registrado durante a ditadura militar no Brasil, que durou 21 anos.
