Nascida e criada no Complexo da Maré, uma das maiores favelas do Rio de Janeiro, Stefani Moreira de Souza, 27 anos, carrega uma história marcada por superação, autoestima e desejo de transformar vidas. Mais conhecida como Fanny, ela é mãe de Luiz Miguel, de 6 anos, e de Laura, de apenas 1 ano, além de coordenadora social da instituição Nasci para Brilhar. Entre maternidade, estudos – atualmente cursa a formação de agente de fiscalização popular em saúde – e ações comunitárias, ela encontrou uma oportunidade para se descobrir como modelo plus size e hoje se prepara para realizar o evento “Beleza sem Preconceito”, totalmente voltado para mulheres da Maré.
Desde a infância, Fanny cresceu sendo uma menina “muito ativa e gordinha”. Mesmo sendo ativa e praticando exercícios, seu corpo não se encaixava nos padrões estéticos impostos pela sociedade. Isso nunca a impediu de sonhar. Pelo contrário: ao longo dos anos, transformou o olhar sobre si mesma em força e inspiração. “Após o término do meu primeiro relacionamento, decidi mostrar para outras pessoas o quanto eu me amo. Sempre fui um mulherão acima do peso, mas isso não me define de forma negativa. Quero que outras mulheres entendam que podemos ser saudáveis, nos movimentar, nos cuidar e, acima de tudo, nos empoderar”, afirma.

A ausência de representatividade na favela
Apesar de ser um território rico em cultura, a Maré ainda não abraçou de forma efetiva a causa plus size. Fanny sentiu na pele essa lacuna. “Na Maré não tem esse movimento. Muitas pessoas ainda associam mulheres gordas a doenças, e não é assim. Precisamos deixar claro que cada corpo tem sua beleza e que autoestima é saúde também”, explica.
Foi a partir dessa percepção que surgiu a ideia de criar o “Beleza sem Preconceito”, um evento que vai além de um concurso: é um espaço de acolhimento, troca e valorização. “Quero que seja um momento para elevar a autoestima das mulheres e mostrar que beleza não tem padrão”, reforça.
O evento
Marcado para o dia 21 de setembro, às 13h, no Museu da Maré, o encontro promete emocionar e inspirar. Serão dez mulheres do território – nenhuma delas com experiência anterior nas passarelas – que terão a oportunidade de participar do desfile. Além da passarela, a programação inclui palestra sobre saúde mental, poema motivacional, apresentações culturais com música e dança, além de sorteios.
“Eu mesma já participei de concursos, desfilei, ganhei, perdi, mas sempre precisei ir para muito longe, gastar com passagem, maquiagem, looks. Então pensei: por que não trazer essa experiência para dentro da minha própria comunidade? Quero que as mulheres daqui também se empoderem, brilhem e sintam essa energia que transforma”, conta Fanny, com entusiasmo.
Referência e inspiração
O desejo de Fanny vai além de um único evento. Ela sonha em se consolidar como uma referência para outras mulheres negras e periféricas, mostrando que a autoestima e o autocuidado também são ferramentas de transformação social.
“Quero que mulheres da Maré se vejam representadas, que percebam que não precisam se enquadrar em padrões para se sentirem belas. Esse evento está sendo feito para que elas brilhem. Eu já faço isso nas ações sociais do instituto com crianças, cortes de cabelo e maquiagem, e agora quero levar esse olhar também para as mulheres. O social faz parte da minha vida, isso me move”, afirma.
Com determinação, carisma e coragem de ocupar espaços que antes pareciam distantes, Fanny mostra que beleza não tem limite geográfico nem padrão estabelecido. Do coração da favela da Maré, ela abre caminhos para que outras mulheres da Maré descubram, sem medo, a força que sempre esteve nelas.

