De pés descalços, bermuda e camisa de time, João*, de 11 anos, brinca com sua bola de futebol pelas vielas do Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio. Quando perguntado sobre seu maior desejo, além de realizar sonhos, ele foi claro: sobreviver. O desejo de João era o mesmo de Agatha Félix, Thiago Flausino e Kathlen Romeu, todos vítimas de ‘balas achadas’ durante operações policiais no Rio de Janeiro.
“Quando me deram a notícia, eu não acreditei que minha filha tinha morrido. Minha filha sempre foi uma criança tão alegre e cheia de luz. Parece que tiraram a metade do meu coração”, desabafa Vanessa Félix, mãe de Agatha Félix. Naquele dia, em 2019, Agatha estava tendo um dia de sonhos, fazendo tudo o que gostava. Tinha saído com sua mãe e na volta para casa, enquanto estava dentro de uma kombi, foi alvejada por policiais e atingida por uma bala que nunca deveria ter chegado nela. “Ela só tinha 8 anos. Tudo aconteceu muito rápido e eu tentei acalmá-la. Então, eu vi que não era só um sangramento, tinha um buraco na minha filha. Eu comecei a gritar ‘a minha filha foi baleada!’. Eu não estava acreditando no que estava acontecendo”, conta Vanessa.

Os policiais envolvidos no caso de Agatha Félix foram absolvidos em 2024, mas a luta dos familiares para acordar todos os dias e continuar vivendo a vida com a perda é constante. “É muito difícil lidar com tudo isso, porque quem atira tem a intenção de matar alguém, um tiro não sai do nada, né? E balas de revólveres matam pessoas”, relata a mãe de Ágatha.
Em 2021, dois anos depois do acontecido, há cerca de 7 quilômetros do Complexo do Alemão, mais precisamente no Complexo do Lins, também na Zona Norte do Rio, outra família é destruída pelo Estado. Kathlen Romeu tinha 24 anos e estava grávida de 14 semanas. A modelo estava a caminho da casa de sua avó quando foi atingida, no tórax, por um tiro de fuzil. Segundo a acusação do Ministério Público do Rio, os tiros teriam partido de policiais militares que estavam realizando patrulhamento no território.
“Eles assassinam a gente diariamente. Cada um que vai embora é outro tiro de fuzil que a gente recebe, e basta, né? Não pode ser assim, porque eu sempre falo, se fosse a minha filha que tivesse assassinado um policial, ela já estaria presa. Esse ano completa 4 anos que a minha filha foi assassinada por esse estado genocida. É uma política pública de segurança voltada para exterminar a periferia, o povo negro, o favelado, como se o favelado não fosse gente”, desabafa Jackeline Oliveira, mãe de Kathlen Romeu.

Em 2023, a região metropolitana do Rio de Janeiro bateu recorde no número de crianças baleadas durante tiroteios. Segundo dados divulgados pelo Instituto Fogo Cruzado, em 2023, 25 crianças foram baleadas na região, e 10 delas morreram. O número é o maior já registrado desde desde o início da contagem em 2016. Thiago Flausino foi uma dessas crianças.
“O meu filho foi executado. Não aconteceu uma abordagem e isso poderia ter evitado a tragédia que aconteceu. Essa dor eu vou carregar eternamente”, desabafa Priscila Menezes, mãe de Thiago Flausino. O jovem, de apenas 13 anos, morreu baleado durante uma operação da Polícia Militar na Cidade de Deus, na Zona Oeste do Rio. Na época, em 2023, os moradores acusaram os PMs pela morte de Thiago Flausino e afirmam que os agentes alteraram a cena do crime. Os quatro agentes policiais envolvidos chegaram a ser presos e dois foram liberados em junho de 2025. “Eu sei que não importa o que eu faça, eu não vou ter o meu filho mais comigo, mas eu decidi permanecer na luta para que outro menino de comunidade não sofra o que o Thiago sofreu”, explica Priscila.
De acordo com o Estudo anual do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2024, as mortes intencionais de crianças e adolescentes de até 17 anos cresceram mais de 4% em relação ao ano de 2023 no país. Foram 2.356 vítimas ao total. E a alta quebra uma tendência de queda que vinha desde 2020. Segundo o Fórum, os dados crescentes foram puxados pelas mortes de adolescentes em intervenções policiais. Em 2023, elas representavam 17% dos assassinatos de crianças e jovens. Em 2024, essa fatia passou para 19%.
Agatha, Kathlen, Thiago e tantos outros tinham planos e sonhos. Todos eles interrompidos por um erro de quem deveria proteger. João* continua brincando com sua bola de futebol, mas constantemente se pergunta se será o próximo. Para uma criança de favela, viver é dúvida e incerteza. “Só resta sonhar, resistir e pedir que parem de nos matar”.
IM MEMORIAM













*nome fictício
