Em meio às vielas do Complexo do Alemão, onde a rotina costuma ser marcada por desafios, nasceu há 15 anos um espaço capaz de mudar destinos. O Vidançar, hoje uma das iniciativas sociais mais reconhecidas da região, surgiu da sensibilidade de uma mulher que encontrou na arte um caminho de cura e, mais do que isso, de transformação coletiva.
A Chegada ao Alemão e o Primeiro Acolhimento
Antes de pensar em uma iniciativa, Ellen precisava reencontrar a própria força. Em 2004, após a perda repentina do pai, mergulhou em uma depressão profunda. Foi quando uma amiga a levou ao Alemão pela primeira vez não como voluntária, mas como alguém que também precisava ser cuidada. Recebida com carinho por mulheres da comunidade, Ellen encontrou ali algo que não sabia que buscava: pertencimento. “Eu fui acolhida de um jeito que nunca vou esquecer. Foi o Alemão que me salvou”, lembra.
O voluntariado, que antes acontecia em orfanatos, passou a ganhar novo sentido quando feito dentro da favela. Mas, com o tempo, Ellen percebeu que ações pontuais não eram suficientes. Era preciso criar um espaço contínuo, capaz de acompanhar meninas e meninos ao longo dos anos.
Quando a Dança Virou Caminho
A ideia definitiva surgiu em uma apresentação escolar. Ao ver crianças tão pequenas, alinhadas e confiantes no palco, Ellen se encantou com o universo do balé. “Eu pensei: isso pode abrir horizontes. Isso pode ser uma oportunidade”, conta ela.
E assim, em outubro de 2010, nasceu o Vidançar. Para participar, era simples: estar matriculada na escola, vacinas em dia e a mãe presente no processo. O projeto começou com oito meninas e uma professora de balé que Ellen fez questão de remunerar, ainda que do próprio bolso. “Profissional bom precisa ser valorizado”, dizia. No ano seguinte, já eram 14 alunas. Pouco depois, chegaram novos voluntários, novas ideias e um sonho inesperado: e se algum aluno desejasse ser bailarino profissional?

Foi o que aconteceu em 2013, quando Larissa e Luis Fernando perguntaram, tímidos: ‘Tia, como vira bailarino de verdade?’. Ellen não sabia, mas prometeu descobrir. E assim ela fez.
Do Alemão para o Mundo
Da promessa nasceram conquistas inimagináveis. Ellen bateu à porta do Teatro Municipal até conseguir inserir os alunos em programas profissionalizantes. A partir daí, o Vidançar tornou-se celeiro de talentos. Mais de 30 jovens já foram aprovados na Escola Maria Olenewa e em instituições de referência. Alguns, inclusive, ultrapassaram fronteiras.
Camila Braga, ex-aluna, hoje dança na Inglaterra. Luis Fernando, o primeiro a acreditar no próprio sonho, tornou-se bailarino do Dance Theatre of Harlem, nos Estados Unidos. Como embaixador do projeto, o bailarino sempre volta ao Alemão quando está no Brasil. Em uma de suas visitas, ele contou às crianças presentes um pouco da sua vivência. “Eu vim de uma família de oito irmãos e eu sou o único bailarino. Me questionavam quando eu falava que eu queria ser bailarino. ‘Mas como assim? Isso não dá dinheiro!’”. Mas Luís insistiu. E se destacou. No discurso, ele segurou a mão de Ellen, diretora do ViDançar, que nunca o deixou desistir. “Quando eu quis desistir, ela me pegou pela mão e disse que eu seria o melhor bailarino da escola.” Ellen conta que é a missão de sua vida. “Eu digo a eles: nunca esqueçam de onde vieram e nunca deixem de acreditar até onde podem chegar.”

Muito Além do Ballet
Com o tempo, o Vidançar deixou de ser apenas uma escola de dança. Tornou-se um centro de formação integral. Hoje, oferece aulas de português, matemática, inglês, francês, contação de histórias, xadrez, robótica, audiovisual, jazz, contemporâneo, breaking, este último, agora esporte olímpico.
Há também a Rede de Mulheres Vidançar, que capacita moradoras em gastronomia inclusiva e costura, criando formas de renda dentro da comunidade. Mais de 35 pessoas fazem parte da equipe. Todas as voluntárias ou colaboradoras são engajadas em “adubar e colher flores”, como Ellen gosta de dizer.
Parcerias que Sustentam Sonhos
Ao longo dos anos, o projeto ganhou padrinhos importantes. René Silva, fundador do Voz das Comunidades, acreditou no Vidançar quando ainda eram apenas 14 alunos e apresentou a iniciativa ao humorista Fábio Porchat, primeiro apoiador fixo. Zélia Duncan tornou-se madrinha e segue contribuindo para intercâmbios e alimentação dos alunos em viagens.
Graças a essas e outras parcerias, duas estudantes do Alemão viveram, recentemente, 20 dias de imersão em instituições ligadas ao famoso Opéra de Paris. E uma delas já foi aprovada para o Dance Theatre of Harlem.
Um Futuro que se expande
“O sonho agora é claro: conquistar um espaço próprio. Hoje, o projeto paga aluguel e funciona com muito esforço. “Queremos um lugar que seja, de fato, da comunidade. Um espaço que fique para os alunos, porque o Vidançar é deles”, conta Ellen.
A iniciativa já se expandiu para outras áreas do Rio e até para o sertão da Bahia. A meta dos próximos 15 anos é manter a essência: transformar vidas através da arte, educação, cultura, esporte e empreendedorismo.
Uma Semente que floresceu
Ellen costuma dizer que plantou apenas a primeira semente. O resto, o florescer, pertence às centenas de jovens que encontraram no Vidançar a coragem de sonhar. “Eu acreditava que poderia acolher. Mas eles me mostraram que podiam ir muito mais longe. Eles me ensinaram a olhar além.”
Quinze anos depois, o Vidançar não é apenas um projeto. É um movimento. Uma lembrança de que, quando alguém acredita, uma favela inteira aprende a dançar rumo a um futuro onde sonhos têm espaço, corpos têm voz e cada passo abre caminhos que antes pareciam impossíveis.

