A grandiosidade da Cidade do Rock ganhou um novo significado na última quarta-feira, dia 2 de setembro. Antecipando o início oficial do festival, 300 moradores de diversas favelas cariocas ocuparam o Parque Olímpico durante o evento teste do Rock in Rio 2026. A ação, fruto de uma parceria entre a ONG Voz das Comunidades e o setor de pluralidade da Rock World, proporcionou que 20 projetos sociais vivenciassem de perto os bastidores, a infraestrutura e a energia do festival.
O evento, desenhado para testar a operação de palcos, som, alimentação e acesso do público, transformou-se em uma experiência única. Pelos alamedas do parque, o brilho no olhar dos convidados era nítido. Eles puderam circular livremente, divertir-se nos brinquedos, acompanhar as apresentações que aconteciam nos palcos. E ainda, os projetos sociais puderam bater um papo com Zé Ricardo, vice-presidente artístico da Rock World, que destacou a relevância de manter o espaço aberto à diversidade.

Para quem dedica a vida à arte nas periferias, estar ali significou validação e pertencimento. A emoção tomou conta de Mirella Oliveira, de 14 anos, aluna do projeto Favela Dança há dois anos.
“Quando surgiu a oportunidade, eu chorei. Chorei porque vivo a música todos os dias. Nós nunca temos tantas oportunidades assim e o Voz tá proporcionando isso. Dá uma emoção quando você sente que tem a cultura, que você é visto. É muito bom”, relatou Mirella, fã do grupo sul-coreano Stray Kids e apaixonada por balé.

A sensação de descobrir um novo universo também marcou a estreia de Ryan Jesus de Miranda, de 22 anos, morador do Complexo do Alemão, do projeto Centro Cultural Oca dos Curumins, que pisou no festival pela primeira vez.
“Achei muito incrível, sinceramente. É uma coisa que eu nunca imaginei que ia estar. Quando cheguei aqui, consegui curtir tudo, me senti em outro ambiente, como se estivesse descobrindo outro mundo. Deu até vontade de vir nos dias oficiais, mas não tenho condições. Estar aqui hoje foi maravilhoso”, afirmou Ryan.

Diante de um cenário em que iniciativas culturais nas periferias costumam resistir sem apoio financeiro, a visita à Cidade do Rock representou mais do que uma tarde de lazer: foi a validação de que o futuro também pertence a elas. Organizações como Resgatando a Inocência, Instituto Legado, Na Ponta dos Pés, Vidançar, Abraço Campeão e Crias do Tijolinho viram na ação um divisor de águas.
Para Kamila Camillo, do Instituto Crias do Tijolinho, Complexo da Maré, a vivência na Cidade do Rock ganha uma dimensão ainda maior quando compartilhada.
“A gente entende que um sonho que antes era individual hoje é coletivo, e ele só se realizou porque se tornou o sonho de muitas pessoas, com o Voz das Comunidades e o Rene Silva sendo essa ponte”, refletiu ela. Celebrando 7 anos de projeto, ela destacou o impacto do momento nas novas gerações. “Eu não vivi essa experiência na infância, mas hoje temos crianças de 10 anos realizando esse sonho aqui. É um marcador histórico e social para a gente.”

Para Rene Silva, presidente do Voz das Comunidades, ocupar o festival é um ato de afirmação. “Levar essas pessoas ao festival é também demonstrar que esse espaço pertence a elas. Quem faz dança na laje, teatro na quadra ou música no beco vai ter a oportunidade de ver como funciona um dos maiores festivais de música do mundo. Isso desperta sonho, dá ideia nova e ajuda esses jovens a acreditarem que também podem chegar lá”, destaca.
