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Tradições da comunidade da Serrinha ganham destaque em conferência internacional em Viena

No Weltmuseum Wien, pesquisadora Clarissa Barcellos apresenta rituais afro-brasileiros como tecnologias de sobrevivência e memória contra o apagamento da cultura negra no Rio

Foto: Pedro Siqueira
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A comunidade da Serrinha, em Madureira (Zona Norte do Rio), ganhou destaque internacional em Viena, Áustria. A pesquisadora e jornalista Clarissa Barcellos apresentou um trabalho sobre memória, ancestralidade e religiosidade afro-brasileira durante a conferência Arte e Espiritualidade na Diáspora Negra, promovida pela Universidade de Viena. O evento reuniu acadêmicos, artistas e pesquisadores da Europa, África e Américas para debater práticas artísticas, espiritualidade e saberes ancestrais da diáspora negra ao longo de três dias.

A pesquisa, chamada “Imperiosa Serrinha: uma etnografia sobre memória e ancestralidade no ofício de Tia Ira Rezadeira”, investiga a trajetória de Iraci Cardoso dos Santos Lino, popularmente conhecida como Tia Ira Rezadeira, liderança espiritual e figura central na vida cultural da Serrinha. Aos 89 anos, Tia Ira é reconhecida como rezadeira, parteira e guardiã de saberes tradicionais, que articulam práticas religiosas e culturais de matriz africana.

Tia Ira é sucessora do legado de Maria Joana Monteiro, conhecida como Vovó Maria Joana Rezadeira (1902-1986), que migrou, no início do século passado, do interior de Valença, região escravista do Vale do Café fluminense, para a Serrinha, constituindo uma das primeiras famílias a habitar a região. Vovó Maria Joana, mãe do mestre Darcy do Jongo, foi liderança de Umbanda – chegou a ser mãe espiritual de Clara Nunes -, líder comunitária, parteira, jongueira, rezadeira e uma das fundadoras da GRES Império Serrano.

Sobre o Estudo

Baseado em um trabalho etnográfico feito no território, o estudo trata dos rituais, festividades e formas de transmissão de conhecimento presentes no cotidiano da comunidade, incluindo entrevistas e celebrações dedicadas aos pretos-velhos e o tradicional Amalá de Xangô, realizado anualmente na Pedreira de Xangô, no alto do morro da Serrinha.

De acordo com a pesquisadora, o trabalho busca evidenciar como práticas culturais e espirituais afro-brasileiras continuam desempenhando papel fundamental na construção da memória coletiva, sociabilidade e identidade comunitária no subúrbio carioca.

“Tia Ira é uma griô, uma guardiã da memória. Esses conhecimentos não são apenas expressões de fé, mas também formas de produção de saber e resistência política. Preservar essas histórias é enfrentar um processo histórico de apagamento e racismo religioso e epistêmico. As rezadeiras, os rituais e as festas religiosas das comunidades negras guardam saberes ancestrais que raramente aparecem nos registros oficiais da história”, explicou Clarissa.

Confira as fotos: