Raspas de limão sobre churros decorados com chocolate branco. Coxa de frango defumada acompanhada de tomate e vagem. Um arroz de amarelo terroso junto à banana-da-terra, evocando a ancestralidade africana de Angola e do Congo. Os pratos apresentados no Favela Gastronômica 2026 celebraram a cultura preta sob o comando de chefs moradores de favela, que levaram o requinte da alta gastronomia aos visitantes na Praça de Inhaúma, nos dias 11 e 12 de abril.
O evento misturou novos e antigos empreendedores que mostraram para o público seus pratos doces e salgados. Andreza Delfino, empreendedora do Morro Dois Irmãos, de Curicica, apresentou um paraíso de sabores com o churros de torta de limão e churros de crocantes. Em êxtase, ela contou que viveu uma expectativa e realidade. “A veio preparado, mas não viemos preparado para tanto. E isso é muito bom! As pessoas vêm até aqui, nos reconhecem da TV, do Instagram e dizem que ficaram com água na boca quando viram o nosso prato. As pessoas estão gostando do nosso capricho! E é assim que queremos seguir”, comentou.
Esta não é a primeira vez que a chef Allana Soares, à frente do Star Open Food, participa do evento. Para ela, o festival transforma a percepção do público sobre o talento que brota nas comunidades. “Estar em um lugar onde eu, enquanto mulher preta, tenho espaço de expressão e de demonstração do que sabemos fazer, faz toda a diferença. As pessoas reconhecem nossa identidade gastronômica e nos abraçam. Isso é muito significativo”, afirma.


Nesta edição, Allana trouxe o “Filé Mignon Star”: carne suína servida com arroz à piamontese à base de creme de leite e mix de queijos. O que chama a atenção em seu estande é a ausência de filas, fruto de uma estratégia de eficiência. “Nossa meta este ano é entregar a refeição em até um minuto. Sem espera. É o sistema ‘pagou, recebeu’”, explica a chef. O método foi aprovado por clientes que já degustavam o prato: “Foi muito rápido e está maravilhoso”.
Evandro Macedo, campeão do Favela Gastronômica 2025, reforça o propósito do evento. “Fazemos questão de trazer o que há de melhor qualidade com preço justo. Isso é permitir que nós, moradores de favela, tenhamos experiências gastronômicas que muitos, infelizmente, não conseguem acessar. Quando celebramos isso, mostramos nossa potência e promovemos a cultura preta”, destaca.
“Quem degusta, está curtindo muito”
Enquanto os chefs comandam as panelas, o público aproveita a diversidade de sabores. Neiriane Costa, moradora do Engenho Novo, curtiu o festival ao lado do marido, Leonardo França. “Vim aproveitar a comida boa, e comida boa é comida ancestral. O evento tem muito disso”, celebrou Neiriane. Leonardo completou: “É a oportunidade para o pessoal da favela mostrar seu talento e sua culinária”.
Para Maria da Glória, de 57 anos, moradora de Duque de Caxias, a experiência foi de identificação. “É a primeira vez que venho e acho extremamente importante. A gente vê e se vê aqui. As comidas remetem aos nossos mais velhos e a todos que fizeram da favela o que ela é hoje”. Ela conheceu o evento por meio da filha, Karolayne Quirino, de 21 anos, que visitou o local no sábado e fez questão de voltar no domingo com a mãe. “É tudo isso que ela falou! Gostei tanto que estou aqui de novo”, festejou a jovem.

Enaltecer a cultura preta através da culinária consolida o Favela Gastronômica como um ponto de cultura essencial no Rio de Janeiro. Segundo Rene Silva, idealizador do projeto, o segredo está na vivência. “A favela carrega a palavra ‘resistência’, que sustenta muitas famílias. O evento mostra que a gastronomia da comunidade tem o mesmo valor e sofisticação de qualquer lugar do mundo, mas com o diferencial do nosso tempero e da nossa história. É essa realidade que celebramos aqui”, conclui.
