Entre sapatilhas, rodas de capoeira, aulas de inglês e sonhos compartilhados, o Projeto EntrArte vem, há quase uma década, transformando a realidade de crianças, adolescentes e famílias do Complexo do Lins, na Zona Norte do Rio. Criado em 2016 a partir de um sonho movido por afeto, resistência e compromisso social, o projeto nasceu pequeno, mas carregando uma missão gigante: democratizar o acesso à arte, cultura e ao movimento em um território historicamente atravessado pela desigualdade.
A idealizadora do EntrArte, Márcia Frey, conta que sua trajetória sempre esteve ligada aos trabalhos sociais. Durante anos, participou de iniciativas de outras pessoas até receber o convite para iniciar aulas de dança em uma igreja evangélica da comunidade. Na época, o projeto ainda não tinha nome, mas já possuía propósito. “Era sobre oferecer às crianças oportunidades que muitas vezes elas não tinham acesso. Um espaço de arte, cultura, acolhimento e pertencimento”, relembra.
Mas o caminho não foi simples. Por motivos de intolerância religiosa, as aulas precisaram deixar o espaço onde aconteciam inicialmente. O que poderia significar o fim do projeto acabou se transformando em um novo começo. Com o apoio das mães, das crianças e da Paróquia São Tiago Apóstolo, no Lins, através do acolhimento do Padre Geraldo, o EntrArte conseguiu continuar existindo. “Ali o projeto criou raízes de verdade”, afirma.

Atualmente funcionando em uma quadra próxima à associação de moradores do Complexo do Lins, o EntrArte oferece aulas de Ballet, Jazz, Capoeira e Inglês para crianças, adolescentes e adultos da região. Mais do que ensinar modalidades, o espaço busca construir autonomia, autoestima e novas perspectivas de futuro através da arte.
O projeto também carrega uma perspectiva decolonial*, valorizando corpos periféricos, negros e historicamente invisibilizados. A proposta é enxergar o corpo não apenas como instrumento técnico, mas como território de memória, identidade, afeto e produção de conhecimento.
Ao longo dos anos, o EntrArte se tornou referência afetiva dentro da comunidade. Muitas crianças que antes passavam grande parte do tempo nas ruas passaram a ocupar o espaço do projeto diariamente, criando vínculos, fortalecendo sonhos e descobrindo novos caminhos.
A bailarina Rayane Tito, de 16 anos, é uma dessas histórias. “O projeto significa minha vida. Eu não me imagino sem o projeto e sem a dança”, conta emocionada. Ela lembra que chegou muito tímida e com dificuldades de se relacionar. “Eu não falava com ninguém. Depois fui me soltando, comecei a conversar mais e gostar ainda mais de estar ali”. Hoje, além de aluna, Rayane já auxilia nas turmas menores e sonha em seguir carreira na dança. “Pretendo me formar em dança, ajudar no projeto e, se possível, também dar aulas e seguir esses passos.”
Para a mãe da adolescente, Maria Eugênia Tito, acompanhar o crescimento da filha dentro do EntrArte é motivo de orgulho. “A timidez dela melhorou muito. A dedicação dela com a dança cresceu 100%”, afirma. Mãe solo, Maria Eugênia destaca o impacto do projeto para além das aulas. “O que o projeto representa para nossa família é acolhimento. Muito acolhimento.”

Foto: Reprodução
Além das atividades aos domingos, o EntrArte promove apresentações culturais ao longo do ano, como Festa Junina, Festival Criativo, Encontro Cultural e o tradicional espetáculo de fim de ano, momentos que fortalecem os laços entre famílias, comunidade e alunos. E mesmo enfrentando dificuldades financeiras desde sua criação, o projeto continua funcionando graças ao esforço coletivo, apoio de amigos, familiares e da própria idealizadora, que durante anos sustentou as atividades com o próprio salário.No EntrArte, a arte ultrapassa o palco. Ela atravessa histórias, reconstrói trajetórias e reafirma diariamente que crianças periféricas também têm direito ao sonho, ao cuidado e à arte.
*Decolonial – Conjunto de práticas, conceitos e estudos que buscam desmantelar as estruturas de dominação, racismo, eurocentrismo e desigualdade estabelecidas durante a colonização e que continuam ativas na sociedade moderna
