Ir para o conteúdo

Passistas do Salgueiro mostram que o Carnaval começa muito antes da avenida

Do Torrão à Cidade de Deus, Danilo e Drika constroem trajetórias de dedicação, trabalho e amor à ala

Foto: Vilma Ribeiro / Voz das Comunidades
Ouça este conteúdo
00:00 00:00
Leitura pronta para iniciar

Quem já nasce com o samba no pé perpetua um legado de gerações. Essas que representam, que dançam, que se divertem. E entre batidas sincronizadas de toda uma bateria, cavaco, violão e vozes potentes, temos a comunidade de uma escola de samba que move um canto único em busca do título de campeã. E, nessa caminhada até o título, alguns integrantes se destacam, são vistos e escolhidos. Abram alas para os nossos destaques: Danilo, Rei Momo do Carnaval 2026, e Drika, Rainha das Passistas do Salgueiro.

Encontramos a dupla na quadra da Academia de Samba Salgueiro, um organismo que nunca para em época de carnaval. Mesmo não sendo um dia de ensaio da escola-mãe, a movimentação é grande na quadra. Ao fim do ensaio da escola-mirim da vermelho e branco, Danilo chega e nos leva para o camarim dos passistas, que tem uma entrada pela lateral do palco principal da escola. “É aqui que nos transformamos em sonhos”, brinca ele enquanto disponibiliza cadeiras para começarmos a entrevista. Danilo Vieira, 30 anos, é morador do bairro Higienópolis, na Zona Norte do Rio, e emerge do Torrão, sendo mais um personagem que constrói a história do Salgueiro. “Cheguei aqui em 2019. Fiz um teste e o Carlinhos, meu grande mestre, meu caminho, me abraçou. Me deu a oportunidade. Ele falou assim pra mim: ‘a partir de hoje você é meu passista plus’”. Defendendo o pavilhão pelos anos que se seguiram, Danilo foi premiado em 2022. “Fui eleito o melhor passista plus do Carnaval do Rio.”

Legenda: Danilo é Rei Momo do Carnaval 2026 Foto: Vilma Ribeiro / Voz das Comunidades

Era apenas o início de uma grande trajetória. Em 2023, quase ganhou o título de Rei Momo do Carnaval. Em 2024, foi rei da ala de passistas da escola e, no ano seguinte, conquistou o título de muso do Salgueiro. Quando 2025 chegou, conquistou o título de Rei Momo do Carnaval. “Fui construindo a minha escadinha devagarinho, colocando aí meu tijolinho e, graças à minha dedicação, minha humildade, meu respeito a todos os profissionais do mundo do Carnaval, eu tô conquistando.”

Fora dos holofotes do samba, Danilo atua como representante de uma distribuidora de livros no bairro da Tijuca. E, como segunda função, o destaque dá aulas de samba para novos talentos. “Minha vida é isso. É uma correria. Terças e quintas eu saio do trabalho e venho até a quadra para dar aula. Depois, tem a nossa aula com o Carlinhos. Eu chego aqui na quadra por volta das 19h e saio daqui meia-noite.” Para quem acha que a vida de passista é glamour e brilhos, infelizmente não é bem assim. Mas Danilo ressalta que sempre vale a pena. “Pra gente ser passista, a gente precisa amar. E a gente ama. Tem muita dedicação em jogo, mas, para quem vive aquilo, nasce para cumprir isso, é maravilhoso demais!”.

Chegar e ocupar este espaço pode ser um desafio para Danilo. Mas ele encara o mundo, diante da humildade e contando com o apoio de quem o seguiu. “A mãe da Drika está sempre junto. Toda vez que a gente vai ensaiar aqui, ela fica no cantinho, pega na minha mão e diz: ‘Meu filho, vai lá. Você sabe o que fazer’. Aquilo dá uma energia surreal na gente, uma positividade imensa, que a gente faz com mais gosto e mais capricho ainda”, relata ele.

Da Cidade de Deus, a realeza da ala de passistas

A Drika mencionada por Danilo é a atual Rainha da Ala de Passistas do Salgueiro. Moradora da Cidade de Deus, Drika Sampaio tem 26 anos de idade. A paixão pela arte da dança nasceu quando tinha 4 anos. Cria dos projetos sociais da CDD, Drika fez balé, jazz e sapateado, até o funk. E, claro, o samba. “Tem duas escolas de samba na comunidade da CDD. É engraçado que a minha família não é do mundo do samba. Mas, quando eu comecei a ir, minha mãe me levava. E sempre me levou e me leva até hoje.” No Salgueiro, Drika entrou como aprendiz, aos 5 anos. Passou pelo segmento da ala das baianas, comissão de frente e foi seguindo o caminho e traçando uma trajetória. “Fiquei participando do projeto Samba no Pé, que é do nosso mestre Carlinhos. E fui me desenvolvendo.”

A bailarina ficou no projeto Samba no Pé durante quatro anos. Fez testes para integrar a ala de passistas, mas não entrou. Pensou em largar, mas o mestre não deixou. “Ele me escolheu fora do teste, junto com a Amanda, que atualmente é musa do Salgueiro. Aí, a partir dali, foi bom porque eu ganhei um prêmio logo em seguida”. Atualmente, Drika é professora do projeto que fez parte no seu início como integrante da escola. “Eu dou aula junto com o Carlinhos. Pego a turma iniciante quando ele está em viagem, levando o nome do Salgueiro. E tenho os colegas juntos, como o próprio Danilo.”

O carnaval, por ser uma festa do povo, faz com que as comunidades sempre se ajudem. E isso fez parte da trajetória de Drika. Fazendo parte do projeto Samba no Pé do Salgueiro, frequentava também a escola de samba Paraíso do Tuiuti. “Tanto lá no Tuiuti quanto aqui no Salgueiro, as portas estavam sempre abertas e as oportunidades eram várias. Então funciona muito isso de ajudar as escolas. Lá, eu fiquei de 2016 a 2022. Então vi o Tuiuti ser campeão, sendo vice… Muitas emoções e muita gratidão pela escola”, relembra Drika, que conquistou o prêmio de passista revelação no ano de 2018 na escola de São Cristóvão.

Drika percebe que o fato de ter se tornado rainha das passistas do Salgueiro fez muita diferença na sua vida enquanto professora. “As coisas mudam, né? A gente acaba saindo da comunidade e se tornando parte de outra, que faz parte do grupo especial. Tem uma diferença. E é a partir desse destaque que a gente começa a querer retornar algo para a nossa comunidade. Eu já dei aula para meninas da CDD, para os próprios grupos de teatro de que fiz parte. Então acaba acontecendo que as pessoas começam a ter outra visão. Hoje tem lugares que eu chego na Cidade de Deus e procuram perguntando: ‘Quem é a passista do Salgueiro? Cadê a Drika, passista do Salgueiro?’ A gente acaba virando referência, e isso é importante demais para mim.”

Como rainha da ala de passistas do Salgueiro, Drika concorda com Danilo sobre o trabalho fora do Carnaval. “A vida do CLT não é fácil! (risos). A empresa em que eu trabalho me acolhe muito. Eles sabem o quanto a minha vida é corrida. Mas a gente faz pelo amor. Amor que a gente tem à escola, ao carnaval, a essa festa que é a maior festa popular do mundo.”

E o Rei Momo do Carnaval e a Rainha da Ala de Passistas dividem um sonho: representar o Salgueiro no cenário internacional. “Eu jamais imaginaria que eu, Drika, que fiquei quatro anos no Samba no Pé, hoje seria professora dele ao lado do Carlinhos do Salgueiro. Se isso foi possível, a gente consegue ir mais longe, com alunas fora do país, como Austrália, França, enfim, Dubai”. Danilo não fica pra trás. “Podemos dizer com toda a certeza que o Salgueiro é uma vitrine? Sim. E estamos prontos pra isso. Prontos para levar a cultura do carnaval para o mundo todo!”