Presentes nos bailes, nos fones ou na dança, o funk é patrimônio cultural imaterial do Rio de Janeiro desde 2019. O título reafirma a arte das favelas e periferia, que o preto, pobre e favelado também são construtores de cultura, memória e identidade fundamentais para a cidade. O funk segue sendo uma forma de ocupar espaço, afirmar identidade e resistir.
Entre batidas aceleradas e letras que falam a realidade da favela, ampliando a voz aos moradores e denunciando as mazelas locais, o funk ainda segue sendo perseguido. Para Taísa Machado, pesquisadora do funk e fundadora do Afrofunk, o desconforto está extremamente ligado a como o formato musical é entendido, “não é tratado como um produto de cultura, de qualidade, cultural. É como se fosse uma subcultura”, explica.

O Dia do Funk, celebrado em 12 de julho, é mais do que uma data simbólica, é um lembrete de que o movimento resistiu a todas as tentativas de apagamento. Mas, para quem vive o funk, o reconhecimento precisa vir acompanhado de respeito no dia a dia. “O funk não é só música. É denúncia, é afeto, é sobrevivência. E é o que dá sentido à rotina de muita gente que vive à margem. O que eu quero mesmo é respeito todos os dias. Respeitar o funk é reconhecer o direito da favela de existir com dignidade”, afirma a funkeira Natitude, cria da Zona Oeste do Rio.
No final de maio deste ano, o MC Poze do Rodo foi preso, acusado de apologia ao crime e associação ao tráfico por conta da letra de algumas músicas, o que a Polícia Civil categorizou com termo “narcocultura”. A abordagem policial chamou a atenção pela falta de preparo e excessos, mesmo sem resistência do artista. Nas redes sociais, Viviane Noronha, esposa do MC, deu detalhes do momento, “foi desumano e cruel. Nem a roupa eu pude trocar. Tiraram a esperança do preto favelado”, disse.
Diversos MC’s saíram em defesa de Poze, MC Cabelinho foi um deles, “quando interpretei um traficante na novela das nove, era arte. Quando um funkeiro relata a realidade, é apologia ao crime. Quem decide isso? Um juiz branco, racista, que não gosta de nós”, afirmou. Mesmo após a liberdade o artista, cria do Rodo, está em busca de provar sua inocência, “eu sou trabalhador, artista. (…) Não tem traficante aqui”, disse à Folha de S.Paulo.
Em documento que decide pela liberdade do cantor, Peterson Barroso Simão, desembargador responsável pelo caso do MC, fez duras críticas à prisão do artista.
“Aqueles que levam fortunas do INSS contra idosos ficam tranquilos por nada acontecer e, ao mesmo tempo, prende-se um jovem que trabalha cantando e ganhando seu pão de cada dia, podendo responder à investigação e processo criminal em liberdade. Tais extremos não combinam.”

A criminalização do gênero não é novidade. Em 1995, foi instaurada uma CPI do Funk na Assembleia Legislativa do Rio para investigar supostas ligações entre bailes e o tráfico de drogas. Já em 2000, uma lei que regulamenta os bailes funks impôs uma série de restrições à realização desses eventos, dificultando sua presença nas favelas e periferias. Em 2010, MCs como Ticão, Frank e Smith foram presos por apologia ao crime, após cantarem letras que retratavam a realidade das favelas.
Para Taísa Machado, a repressão não recai sobre qualquer tipo de funk, “a gente sabe que não é o funk que é tocado no Rock in Rio que vai ser perseguido”, fala. “Tem uma relação muito íntima com o baile, com o proibidão, tem a ver com o jovem negro, com o jovem da periferia”, explica. Para ela, é preciso que o próprio movimento se aprofunde nessa conversa e reconheça que nem todos os artistas são criminalizados da mesma forma, “tá na hora de o próprio movimento também discutir quem é criminalizado e quem não é”, conclui.
E quando essa linguagem incomoda, o que está sendo realmente questionado não é o som, mas quem o produz e de onde ele vem, “o racismo é a base central desse incômodo”, declara Taísa. MC Naninha, funkeira cria da Vila Kennedy, relata situações que viveu por conta do preconceito, “eu já fui expulsa pela Polícia Federal de dentro de um avião, só porque um poderoso estava nele e não queria voar comigo dentro”, relembra.
Natitude é direta quando o assunto é tocado. “Ser mulher preta e periférica no funk é carregar nas costas o peso de várias camadas de preconceito e mesmo assim transformar isso em potência”, fala. Taísa aponta que o preconceito afeta dessa e de diferentes outras formas mulheres do funk quando o protagonismo é feminino. Ela explica que são relações complexas que causam a estranheza que certa parcela da população tem ao conhecer essas mulheres, principalmente as que cantam sobre sexualidade, corpo e desejo.

“Se a gente pensar nas religiões tradicionais, (…) uma das mulheres mais importantes, se não a mais importante do cristianismo, tem um filho sem ter uma relação sexual. (…) E já nas religiões de matrizes africanas, as mulheres, elas se casam, as mulheres têm filhos, as mulheres têm relações sexuais. Elas inclusive usam da sedução em muitos momentos dessa mitologia. Isso então é uma coisa que também de alguma maneira influencia em como essas mulheres vão lidar com isso no dia a dia”, destaca.
O julgamento não faz MC Naninha recuar, “eu me sinto livre porque o meu público me aceita do jeito que eu sou, se quiser subo (no palco) de calcinha, se estiver frio subo de casaco, subo de noiva, subo de viúva, de piranh@, de formanda”, afirma. A forma com que a cantora mantém a relação com sua arte é fundamental. “O funk diz através do som quem sou eu, de onde eu vim, como eu estou vestida, mesmo se você não estiver me vendo, você saberá quem é, que sou eu”, diz.

Natitude conta que para além de suas músicas e vivências enquanto artista, a criminalização também a atinge enquanto uma pessoa que está presente nos bailes. “A criminalização do funk atinge diretamente nossa autoestima, nossos espaços e nossas oportunidades. Eu cresci vendo baile sendo interrompido com violência, artistas sendo tratado como bandido e letras sendo censuradas, como se fosse crime cantar a realidade. Isso me atravessa porque eu sou cria dessa vivência”, relata. Ainda assim, ela resiste “sigo porque corpo é resistência, minha voz é ancestralidade e o meu funk é grito de liberdade”, completa.
