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Favela Gastronômica: histórias que alimentam muito além do prato

Festival promove a força da gastronomia periférica e atrai famílias de favelas na Praça de Inhaúma

Foto: Vilma Ribeiro / Voz das Comunidades
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Mais do que um festival, o Favela Gastronômica se consolida como um espaço onde sabores contam histórias, memórias ganham forma e empreendedores das favelas transformam suas trajetórias em experiências únicas.

Em sua 3ª edição, o evento reúne chefs de 10 favelas do Rio de Janeiro, mostrando que a gastronomia periférica é potência, identidade e afeto. Entre receitas criativas e pratos tradicionais, o que realmente se destaca são as histórias por trás de cada preparo.

Comida que vem de casa

À frente do Boteco da Tia Lauzinha, em Manguinhos, Ricardo Araújo carrega muito mais do que uma receita, ele carrega uma herança e chega à favela gastronômica pela 2ª vez. O empreendimento, fundado em 1986 por sua mãe, Laurinda, nasceu da necessidade. Em tempos difíceis, era o angu, simples, mas cheio de sustância, que garantia o alimento da família.

Atualmente, esse mesmo prato ganha nova forma no festival com a “Delícia da Tia Lauzinha”, um angu temperado com costela desfiada e queijo coalho. Mas o ingrediente principal continua o mesmo, o afeto. “Hora do almoço é sagrada. O tempero tem que ser com carinho”, relembra Ricardo, repetindo um ensinamento da mãe.

A cozinha, aliás, continua sendo um espaço de família. Esposa, cunhada e sobrinho trabalham juntos, mantendo vivo o legado. O que antes era sobrevivência, hoje é identidade. E o público sente isso. Clientes antigos, como Vanderleia Barbosa, acompanham essa trajetória de perto. “Conheço há muitos anos. É tudo de bom. É família, é carinho, é uma delícia. Eu trabalho aqui do lado e vim só para prestigiar o Ricardo”.

Direto do Jacaré, o Chef Vagner chega ao festival pela primeira vez com uma proposta clara: sair do óbvio. Conhecido por participar da Cozinha Show e até atuar como jurado em edições anteriores, ele agora encara o desafio do outro lado, sendo avaliado pelo público.

Seu prato, o nhoque dourado, aparece em duas versões: tradicional, com ragu de carne, e vegana, com molho de berinjela. Mais do que técnica, ele aposta na emoção. “Cozinhar é entrega. Quero que as pessoas sintam o carinho em cada prato. Agora é diferente. Você vê a pessoa provando e reagindo. Dá um frio na barriga, mas é um desafio que move”.

Para quem experimenta, isso é evidente. O público destaca não só o sabor, mas também a recepção. “Chamou atenção o prato, mas também o atendimento. Tudo muito acolhedor”, conta Jaqueline Gomes, de 42 anos. Ela inclusive contou que está com a família toda no evento pela primeira vez. “Somos moradores do Loteamento, na Nova Brasília no Complexo do Alemão. É a nossa primeira vez e estamos amando tudo. Só vamos embora quando acabar.”

Um evento que valoriza identidade e território

Com entrada gratuita e programação que mistura gastronomia e música, o festival já faz parte do calendário oficial da cidade. Para o prefeito Eduardo Cavaliere, o evento representa a essência do Rio. “A gastronomia de favela é a identidade da cidade. Vai do boteco ao restaurante sofisticado. E é exatamente essa diversidade que torna o Favela Gastronômica único.”

Foto: Ana Carla / Voz das Comunidades

Entre angus que contam histórias de infância e nhoques que reinventam tradições, o festival mostra que cozinhar, na favela, é mais do que alimentar. É preservar memórias. E, principalmente, é fazer com que cada pessoa que prove um prato, leve junto um pouco dessas histórias.